Você está aqui: Página Inicial / Educação / Carta Fundamental / Dois meninos

Carta Fundamental

Carta da Ana

Dois meninos

por Ana Maria Machado — publicado 03/12/2010 16h54, última modificação 03/12/2010 16h54
Tudo os separa, exceto a idade presumível. Mas o acaso os aproximou, por meio de meu encontro com eles

Tudo os separa, exceto a idade presumível. Mas o acaso os aproximou, por meio de meu encontro com eles

São dois meninos apagadinhos. Ao mesmo tempo, têm tamanho brilho que sua luz me ilumina e seu exemplo me emociona. Tudo os separa, exceto a idade presumível. Pouco mais de 6 anos, pouco menos de 9, talvez. Nada faria supor que pudessem estar tão juntos em meu coração e em minha mente. Mas o acaso os aproximou, por meio de meu encontro com eles. Estranho encontro, sem jamais conhecê-los. Seja como for, agora vivem aqui, diante de mim, pendurados na cortiça junto à minha mesa de trabalho, a irradiar sobre mim suas bênçãos.

O primeiro menino é italiano e tem quase 2 mil anos. Se quisesse ser exata, podia lembrar que morreu no ano 79, quando o vulcão Vesúvio entrou em erupção e liquidou a cidade de Pompeia e seus habitantes, entre os quais estava ele. Mas como era apenas um menino pintado numa parede, já devia ter mais tempo. E depois ressuscitou, podendo ser visto hoje novamente no mural da Villa dos Mistérios, mesmo com cores desbotadas e marcas da textura que se mostram sob as tintas do afresco. Está de pé junto a uma mulher, que o abraça, enquanto lhe afaga o rosto em gesto carinhoso. Mas o menino nem sequer liga. Está totalmente absorto na leitura.

É um dos raríssimos retratos que temos de uma criança lendo na Antiguidade. Antes que Gutenberg inventasse a imprensa, uns 1.400 anos mais tarde. Antes mesmo que existissem livros copiados à mão em pergaminhos, nos mosteiros medievais. Portanto, o que o menino apagadinho lê é um rolo. Um códice. Devia ser segurado com as duas mãos e ia sendo cuidadosamente desenrolado de uma ponta e enrolado na outra, em torno de dois suportes de madeira. Dava trabalho e exigia fina coordenação motora, além de alfabetização. Pressupunha o domínio de um aprendizado especial. No entanto, o pequeno leitor está totalmente imerso no texto que lê. Como se não estivesse ali. Como se não houvesse nada além do que lia.

A cidade foi soterrada por cinza e lava, poeira e pedra. Seus moradores se acabaram, tudo foi liquidado. Somente no século XVIII um agricultor que trabalhava a terra localizou um muro de Pompeia. Pelos dois séculos seguintes, arqueólogos desencavaram o local e revelaram ao mundo os segredos do cotidiano da época romana. Entre eles o menino leitor, mergulhado em seu códice, absorto no que aquele texto lhe contava e revelava.

O segundo menino é brasileiro, traz até a bandeira no coração, e se chama Rodolfo. É uma das poucas coisas que eu sei dele. Há anos, numa feira de livros, numa fila de autógrafos, uma estranha se destacou na multidão e me entregou um desenho e um bilhete que ele escrevera para mim. Era a mãe dele, e logo saiu apressada. Só pude ler depois. Nunca mais deixei de reler. Quando tenho momentos de desânimo com a escrita, ele me dá força, me lembra que aquilo faz sentido.

O texto está todo em maiúsculas, como costuma acontecer com quem começa a escrever. Escrito com a força de quem está descobrindo o mundo e percebendo que é capaz de dominá-lo com as letras. Transcrevo apenas para facilitar, porque foi escrito a lápis e daquele jeito de quem acaba de aprender, mas anexo à imagem, embora apagadinha. Nada, porém, consegue apagar o vigor de sua afirmação poderosa:

Eu gosto das suas histórias. Você podia fazer uma história chamada: mundo sem fim. Era uma vez um menino que vivia numa floresta que achou um mapa com letras ele não entendeu nada daqui a pouco ele juntou as letras e soube que não existia o final do mundo você pode continuar

Rodolfo

Na minha cortiça, lado a lado, o menino de Pompeia e Rodolfo me lembram que a leitura e a escrita vencem o tempo e as tragédias, resistem ao fim das cidades, ajudam a entender os mistérios da vida e garantem que não há fim do mundo.

Gostaria que toda criança tivesse a oportunidade de saber isso por dentro, mesmo que às vezes as coisas pareçam apagadinhas.

registrado em: