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Carta Fundamental

Carta da Ana

Direitos e deveres

por Ana Maria Machado — publicado 30/07/2010 15h56, última modificação 30/07/2010 15h59
Só a educação permite que as pessoas vivam em sociedade entendendo o que o direito de cada um vai até onde começa o do outro

Só a educação permite que as pessoas vivam em sociedade entendendo o que o direito de cada um vai até onde começa o do outro

Caro professor,

Todos nós, ao longo da vida, vamos povoando a memória com alguns lugares de que gostamos quase de graça, sem razões especiais. Entre os meus está um velho colégio no litoral do Espírito Santo. E pode botar “velho” nisso.  É do século XVI, erigido para moradia dos primeiros jesuítas que vieram para o Brasil. Faz conjunto com uma igreja de bela torre e paredes grossas que substituiu uma primeira capela-palhoça erguida em 1557. Tem pátio interno, claustro de dois andares, telhas canal, janelas com bancos-conversadeiras, onde Anchieta e seus companheiros se sentavam para ler o breviário e olhar a vista deslumbrante. Tem um quadro da Adoração dos Reis Magos que é uma das mais antigas pinturas brasileiras. Tem um altar de madeira lavrada, comovedor em sua beleza simples, feito por mãos indígenas que o enfeitaram com motivos locais, de mistura com os que os padres lhes ensinavam. 

Fica no alto do morro e domina a foz de um rio que, entre manguezais, chega a uma praia de areias rosadas. Em frente à entrada, alguém teve a ideia de plantar palmeiras imperiais, que deram inusitada majestade ao conjunto e compuseram a moldura perfeita da construção caiada, feita de conchas e pedras dos arrecifes, ligadas por óleo de baleia. Nesse largo, fazem-se festas e quermesses em que ao final, no mastro listrado, se substitui por uma bandeira nova a que o tempo desbotou, com suas imagens de São Sebastião, São Benedito, São João ou dos Reis Magos. Lá o pessoal joga futebol, as  famílias trazem cadeiras para conversar na fresca da noitinha,  as crianças brincam, os jovens trocam olhares.

A família de minha mãe era dali perto. Como eu passava as férias nas redondezas, essa paisagem fez parte de minha infância. Visitar o colégio jesuíta – conhecido como o Convento de Nova Almeida – era sempre um passeio especial. E dava pena ver a construção se deteriorando, invadida pelo mato. De cortar o coração.  

Na década de 1960, conheci um arquiteto que trabalhava no Serviço do Patrimônio Histórico. Falei com ele sobre o convento e descobrimos que estava numa lista imensa de bens tombados que precisavam de restauração, mas não havia verbas para isso. Começamos a nos mexer e falar com muita gente que talvez pudesse ajudar. E alguns anos depois, deu certo. Aquela joia arquitetônica finalmente entrou numa lista prioritária mais reduzida e foi recuperada.  De lá para cá, se passou meio século e muita água rolou. A igreja voltou a acolher ocasionais manifestações religiosas. Abrigou centro cultural com aulas de pintura, artesanato e capoeira. Virou ponto turístico, aberto à visitação pública e a um certo vandalismo por total falta de fiscalização. E, embora nunca voltasse à decrepitude anterior, acabou sendo abandonado nos últimos anos. Depois foi novamente reformado, com urbanização e um mirante nos fundos.

Este verão houve lá uma coisa inacreditável. Um excelente festival internacional de música, reunindo tradições eruditas e populares. Como o convento em si. Como nossa cultura em geral. Durante quatro dias, desde o cair da tarde, o espaço foi ocupado por sucessivas maravilhas. Concertos de piano e de música de câmara na igreja. Folia de Reis no adro. Roda de choro no pátio. Banda de música, cantoria, ticumbi, coral. Uma iniciativa inteligente e bem realizada.

Porém, ai, porém… ( Já aprendemos com Paulinho da Viola a cantar sempre esse ai, porém). Quem foi assistir ao concerto na bela noite de verão não conseguiu ouvir a suíte de Telemann. Só ouvia o baticum das caixas de som do lado de fora. Mais exatamente, dos automóveis no estacionamento próximo à porta lateral da igreja, onde grupos de jovens apostavam para ver quem tinha mais potência em seus equipamentos caríssimos, muitos decibéis acima do que o ouvido humano suporta e o Código Nacional de Trânsito permite. Somados, ao mesmo tempo. Ensurdecedor. Nenhuma fiscalização. Nenhuma punição. E, sobretudo, nenhuma educação. Aquela educação básica, fundamental mesmo, que permite que as pessoas possam viver em sociedade entendendo que sempre o direito de cada um vai apenas até o limite onde começa o direito do outro. 

Há uns 15 anos, pouco depois do lançamento do Plano Real e do início do processo de redistribuição de renda nesta sociedade tão desigual, li um artigo que me impressionou muito. Não lembro mais de quem era, mas recordo o alerta do autor: se esse processo não viesse acompanhado também de uma redistribuição da educação, a injustiça continuaria a existir e até se acentuaria.  

Só a educação pode garantir a democracia, ao dar a todos a igualdade de oportunidades. E também a perfeita noção da igualdade de direitos e deveres, de limites individuais para que se procure atingir o bem comum. É assim que a humanidade se afasta da barbárie e renega o fascismo autoritário de quem impõe sua vontade pela força. Só assim se constrói a civilização. Como sabe cada professor no cotidiano de sua sala de aula. E não dá para esquecer.

Um abraço,
Ana Maria

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