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Biologia

Descobertas extraordinárias

por Alexandre Albuquerque — publicado 13/02/2011 07h51, última modificação 13/02/2011 09h11
Em uma década foram encontradas mais de 1.200 espécies novas de plantas e de animais vertebrados na Amazônia. O montante corresponde a uma nova espécie a cada três dias
Descobertas extraordinárias

Em uma década foram encontradas mais de 1.200 espécies novas de plantas e de animais vertebrados na Amazônia. O montante corresponde a uma nova espécie a cada três dias. Por Alexandre Albuquerque

Os estudos para levantar e descrever as espécies de seres vivos que existem na Amazônia ainda são poucos e existe muito mais a ser descoberto, descrito e estudado. Em sua publicação Amazônia Viva! Uma Década de Descobertas: 1999-2009, a organização não governamental WWF trata das novas espécies que foram descritas para a Amazônia no período entre os anos de 1999 e 2009. E não foram poucas: 637 plantas, 257 peixes, 216 anfíbios, 55 répteis, 16 aves e 39 mamíferos, somando 1.220 novas espécies, o que corresponde a uma nova espécie a cada três dias.

A média é de 122 espécies por ano! Isso, claro, sem contar os milhares de novas espécies de invertebrados. A diversidade biológica da Amazônia é colossal. Mas por que devemos nos importar com a descrição e conservação da diversidade biológica? Antes de responder a essa questão, convém explicar o que é a diversidade biológica.

Biodiversidade ou diversidade?
Talvez a maioria dos leitores esteja mais familiarizada com o termo “biodiversidade”, e não com “diversidade biológica”. Ele é, de fato, um anglicismo, pois deriva do aportuguesamento da palavra inglesa biodiversity, que, por sua vez, é uma contração das palavras biological diversity, a qual se traduz como: diversidade biológica.

Apesar de popularmente ser associada ao número de espécies em uma dada região, não existe uma definição única.

Para a maioria, a diversidade biológica pode estar mais ligada às paisagens, como o Pantanal, e às espécies carismáticas amea-çadas de extinção, como o mico-leão-dourado ou a onça-pintada. Para a indústria, o conceito representa novos princípios ativos ou a exploração de estoques de peixes, de madeira etc. Para o agrônomo, pode significar a variedade de solos. Para os biólogos, o conceito envolve as diversidades genéticas de espécies e ecossistemas.

De um modo geral, o conceito de diversidade biológica está ligado, mesmo que implicitamente, a um mesmo objetivo comum: a conservação do meio ambiente e das espécies que nele vivem.

Fazer o inventário das espécies e de seus números constitui parte fundamental do levantamento da diversidade biológica. Nas Ciências Ambientais, o estudo de padrões na composição das espécies é crucial para o estudo do funcionamento dos ecossistemas e da ecologia de comunidades. A espécie é um tipo de unidade prática básica da biologia, a partir da qual podemos explorar do nível molecular ao ecossistêmico.

Os taxonomistas, especialistas na ciência da identificação dos seres vivos, são os responsáveis pelo levantamento e da análise de informações que os levará a atribuir um nome científico para uma dada espécie.

A classificação atual também procura- agrupar as espécies de acordo com seu grau de proximidade genética. Isso traz uma vantagem, pois podemos postular que espécies próximas (por exemplo, golfinhos e baleias) compartilhem certas características biológicas (têm pulmões, glândulas mamárias etc.) e ecológicas (são carnívoros, vivem em grupos etc.) que podem ser diferentes daquelas de espécies de outro grupo (como tubarões e raias, que são peixes, não têm pulmões e vivem sozinhos).

Essas previsões, de como determinadas espécies vão se comportar e que papéis elas poderão desempenhar nos ecossistemas, têm um grau razoável de acuidade, mesmo sem estudos específicos sobre aquela espécie em particular, e podem ser decisivas para a escolha de políticas de conservação.

Por que conservar a diversidade?
As razões são várias, uma delas é a nossa própria sobrevivência. A humanidade dependeu, depende e dependerá da diversidade- biológica para obter matérias-primas e serviços ambientais ou ecológicos. No primeiro caso, podemos citar todos os organismos que utilizamos como alimento, os medicamentos com princípios ativos derivados ou copiados de seres vivos etc.

No segundo caso, que pode ser definido como todo atributo funcional de ecossistemas naturais que seja benéfico ao ser humano, podemos citar a formação e manutenção dos solos, conversão da energia solar em matéria orgânica e consequente sequestro de carbono da atmosfera etc.

Esses exemplos se baseiam no limitado conhecimento atual da diversidade biológica – podemos descobrir muito mais.

A riqueza da Amazônia
Distribuída por nove estados e ocupando, aproximadamente, metade do território nacional, a Amazônia é o maior bioma brasileiro. Apesar de se distribuir por nove paí-ses e ocupar 2/5 da América do Sul, é no Brasil que se encontra a maior parte dessa que é a maior floresta tropical da Terra. Por ela, com quase 7 mil quilômetros de extensão, corre o maior rio do mundo. Pelo Amazonas circulam cerca de 220 mil m3/s de água, o que equivale a 20% da água doce despejada nos oceanos do planeta.

Na Amazônia, tudo é superlativo – inclusive a variedade de seres vivos. Próxima ao Equador, a floresta tem pequena variação na temperatura e na umidade do ar, quase sempre quente e úmida, e recebe enorme quantidade de chuvas e energia solar.

Essa combinação de fatores é ideal para o estabelecimento e a manutenção de uma enorme quantidade e variedade de formas de vida. A Amazônia é o lar de 10% dos quase 2 milhões de espécies descritas. Não obstante, alguns pesquisadores estimaram que, somente de insetos, devam existir na Amazônia entre 1 e alguns milhões de espécies ainda não descritas.

Vinte por cento das espécies conhecidas de aves são encontradas em seus domínios. Além do pirarucu e do aruanã, os rios da Bacia Amazônica são o lar de mais de mil espécies de peixes – nos rios da Europa inteira não passam de 450 espécies. Mamíferos como o peixe-boi-amazônico, o boto-cor-de-rosa e o uacari-branco são representantes inesquecíveis dessa floresta.

Por volta de 300 grupos indígenas e tribais que falam mais de 86 línguas e que detêm conhecimentos valiosos sobre o uso das plantas medicinais estão na Amazônia.

Pelo menos 30 mil espécies de plantas estão descritas para a região. Destas, mais de 70% só ocorrem por lá, isto é, são endêmicas. Em algumas áreas, pode-se encontrar em 1 hectare de floresta algo como mil árvores de 400 espécies diferentes.

Apesar de a floresta tropical densa e úmida ser a fisionomia dominante, a Amazônia é composta de diferentes tipos de florestas, como a montana, de baixada, de várzea e de palmeiras. Também existem campos, pântanos e bambuzais. Reconhecem-se cerca de 600 tipos diferentes de hábitats terrestres e aquáticos. E isso é só o começo.

Alexandre Albuquerque é biólogo e editor de livros didáticos