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Língua Portuguesa

Bartolomeu Campos de Queirós para adultos

por Carta na Escola — publicado 09/03/2012 16h25, última modificação 09/03/2012 16h25
Marcada pelo viés autobiográfico, a obra do autor mineiro revela seu tempo de criança, mas trata, acima de tudo, da condição humana
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Marcada pelo viés autobiográfico, a obra do autor mineiro revela seu tempo de criança, mas trata, acima de tudo, da condição humana. Foto: Carlos Avelin

Por Márcia Cabral da Silva, professora-adjunta da Faculdade de Educação da Universidade do Estado do Rio de Janeiro

“Sem o colo da mãe eu me fartava em falta de amor. O medo de permanecer desamado fazia de mim o mais inquieto dos enredos. Para abrandar minha impaciência, sujeitava-me aos caprichos de muitos. Exercia a arte de me supor capaz de adivinhar os desejos de todos que me cercavam” (Vermelho Amargo, 2011)

Os livros escritos por Bartolomeu Campos de Queirós (1944-2012) interrogam a vida, a passagem do tempo, os enigmas da existência. Ressaltam, sobretudo, a infância como momento propício para descobertas. Todavia, eles não têm fronteiras, não se segmentam em faixas etárias. A obra do escritor mineiro trata, em primeiro lugar, da condição humana. Por isso pode ser lida e saboreada por crianças pequenas e gente grande e propiciar uma rica experiência de leitura. O segredo? Deixar aflorar a fantasia e levar a arte da palavra ao seu limite extremo.

Queirós nasceu em Papagaio (MG), nos idos de 1944, onde passou a infância. Circulou por diferentes espaços dedicando-se à aprendizagem, inclusive mundo a fora, quando recebeu uma bolsa da ONU para estudar em Paris nos anos de 1960. Primeiro havia cursado Filosofia no Brasil e, depois, ingressou no Instituto Pedagógico de Paris. Foi por essa ocasião, e para se sentir menos só, que escreveu o seu primeiro livro: O Peixe e o Pássaro (1974).

Tendo se afeiçoado ao silêncio de quem escreve, ao trabalho minucioso com a palavra, passou a se dedicar à escrita literária, à educação pela arte. Sua escrita, matizada pelo viés autobiográfico, revela muito do tempo da infância, quando precisou elaborar perdas afetivas e se defrontar com a solidão. Nos seus livros, verificam-se, com frequência, enredos contendo um narrador a espreitar os porquês da vida, o modo singular como os adultos agem no mundo: Ciganos (1982), Index (1989), Por Parte de Pai (1995), Ler, Escrever, Fazer Contas de Cabeça (1996), Até Passarinho Passa (2003), O Olho de Vidro do Meu Avô (2004) e Vermelho Amargo (2011) são alguns dos livros fundamentais para se conhecer essa faceta do autor, pois trazem marcas da experiência da infância transfigurada em matéria literária.

Ao lado das narrativas intimistas destacam-se os livros que privilegiam as construções literárias elaboradas à luz de recursos lúdicos, momento em que o autor se dedicou a explorar a forma gráfica das palavras, a escrita pelo avesso, aproximando o seu estilo da forma singular por meio da qual a criança percebe o mundo: Raul (1978), Estórias em Três Atos (1986), Onde Tem Bruxa Tem Fada (2002), O Guarda-chuva do Guarda (2004), Isso não É um Elefante (2009).

Não se pode esquecer, contudo, do seu papel de educador e intelectual engajado nas questões culturais e sociais do seu tempo. O trabalho no MEC e na Secretaria da Cultura de Minas Gerais atesta mais uma faceta da trajetória desse intelectual generoso, afetuoso e firme no modo de ensinar e defender a leitura literária como direito de todo cidadão. Imbuído desse espírito, foi um dos fundadores e redigiu o manifesto do Movimento por um Brasil Literário, em junho de 2009. Afirmava: “(...) Liberdade, espontaneidade, afetividade e fantasia são elementos que fundam a infância. Tais substâncias são também pertinentes à construção literária. Daí a literatura ser próxima da criança. Possibilitar aos mais jovens acesso ao texto literário é garantir a presença de tais elementos, que inauguram a vida, como essenciais para o seu crescimento. Nesse sentido, é indispensável a presença da literatura em todos os espaço por onde circula a infância. Todas as atividades que têm a literatura como objeto central serão promovidas para fazer do País uma sociedade leitora.”

Poderíamos rememorá-lo como um humanista afinado com o seu tempo; um artesão delicado da palavra. Por essa maestria foi agraciado com prêmios literários no Brasil e no exterior. Mas nada é para sempre e o dia 16 de janeiro de 2012 amanheceu mais triste. Seus fiéis leitores souberam pelos noticiários de seu falecimento. Bartolomeu Campos de Queirós deve ter encontrado, enfim, o silêncio profundo que tanto amava.

A passagem é inevitável, mas não de modo irremediável. Seu legado é amplo: mais de 40 livros, entre prosa, poesia, ensaios e antologias. Compartilhá-los com a família em casa, ler e desenvolver projetos de leitura na escola, as possibilidades, enfim, são muito variadas. Mas, por ora, vamos nos deter na sua prosa poética.