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Carta Fundamental

As lutas do mundo árabe

por Leandro Antonio de Almeida — publicado 13/04/2011 16h32, última modificação 13/04/2011 16h32
Os conflitos recentes na Tunísia, Egito e Líbia têm origens antigas e relação profunda com os imperialismos europeu e americano

Os conflitos recentes na Tunísia, Egito e Líbia têm origens antigas e relação profunda com os  imperialismos europeu e americano

A reclamação de um vendedor de rua contra o confisco de suas mercadorias terminou de maneira trágica na Tunísia. Na manhã de 14 de dezembro de 2010, indignado com o descaso das autoridades, Mohammed Bouazizi ateou fogo ao próprio corpo. Enquanto agonizava no hospital, protestos em seu apoio ganharam uma dimensão inesperada, transformando-se em oposição à miséria da população e à corrupção do governo autoritário. Pressionado, o presidente Ben Ali deixou o cargo que mantinha há 23 anos. Divulgados pela internet, os eventos na Tunísia inspiraram protestos em vários países árabes do Norte da África e Oriente Médio. No Egito, a população provocou a renúncia de Hosni Mubarak, há 30 anos na Presidência, e na Líbia rebeldes iniciaram uma guerra civil contra Kaddafi, desde 1969 no poder. Podemos entender essa onda a partir da história da formação dos países árabes.

Expansão muçulmana
No início do século VII, a Península Arábica era povoada por nômades que percorriam o deserto com seus camelos e agricultores sedentários nos oásis. Organizavam-se em tribos que falavam árabe e possuíam uma religião politeísta com um santuário em Meca.

Em 610, um comerciante das caravanas chamado Maomé começou a pregar a submissão (Islã) ao deus único Alá, criando uma nova religião fundada em recitações, depois reunidas no livro sagrado Alcorão. Perseguido, em 622  fugiu de Meca e organizou um exército. Oito anos depois conquistou essa cidade sagrada, destruiu o antigo culto, tornando-se líder dos árabes e profeta maior dos muçulmanos (adeptos do Islã). Não por acaso o primeiro pilar dessa religião é o testemunho segundo o qual “só há um Deus, Alá, e Maomé é seu profeta”. Após sua morte, em 632, os árabes passaram a ser governados por líderes político-religiosos (califas), que iniciaram uma expansão territorial e dominaram o Norte da África, a Península Ibérica, a Pérsia e o Afeganistão.

Por volta de 1250, os territórios árabes estavam fragmentados e os califas, enfraquecidos. Nos séculos seguintes, vários domínios árabes foram conquistados pelos mongóis e turcos de diferentes linhagens (seljúcidas, mamelucos, otomanos). Mas, da mesma maneira que reis de terras distantes (Mali e Indonésia), os povos invasores foram convertidos. O Islã e a língua árabe tornaram-se a identidade cultural de uma vasta região que incluía o Norte da África, a Península Ibérica (até 1492), os Bálcãs, o Sudeste e o Centro da Ásia. A extensão desses domínios, bem como seus desenvolvimentos tecnológicos e culturais, criou uma sensação de supremacia do mundo muçulmano.

Imperialismo europeu e independência
Essa sensação foi desafiada no século XIX, quando ocorreu uma interferência ocidental que dura até hoje. As potências europeias iniciaram uma corrida imperialista em todo o mundo, dominando territórios ou influenciando governos para garantirem investimentos, matérias-primas e mercados consumidores. Assim, várias regiões otomanas foram incorporadas principalmente por França, Grã-Bretanha e Rússia. Permaneceram politicamente independentes os territórios turcos, reinos na Península Arábica (Iêmen, Arábia Saudita) e na Pérsia.

O mundo muçulmano defrontou-se com uma nova situação, na qual o Islã perdera a hegemonia. As ideias e os modos de vida ocidentais difundiam-se juntamente com seu desenvolvimento militar e tecnológico. Os líderes otomanos tentaram modernizar o exército e incorporar instituições liberais, como o Parlamento e a cidadania. Para manter sua independência após a Primeira Guerra Mundial, os turcos fundaram uma república laica em 1922, vigente até hoje.

Já os árabes oscilaram entre diversas posições intelectuais. O pan-islamismo almejava  a união dos povos muçulmanos (árabes, turcos, persas etc.) em torno de sociedades com valores religiosos do Islã. O arabismo previa a união dos árabes de vários países, ressaltando a importância do Islã (apesar de haver árabes de outras crenças, como cristãos). Por fim, pregou-se a formação de Estados nacionais laicos, onde povos e religiões diferentes pudessem conviver, mesmo considerando a maioria muçulmana.

Essa terceira posição era bem-vista pelos europeus. Quando não puderam ou não se interessaram por manter os domínios, apoiaram elites dos Estados árabes para mantê-las sob sua influência. Após a Segunda Guerra Mundial, esse papel coube aos Estados Unidos e à União Soviética, que disputavam a supremacia do planeta e o controle do petróleo. Quase todos os países árabes se tornaram independentes, entre monarquias e repúblicas. Apenas os palestinos não conseguiram fundar um Estado nacional.

Egito, Líbia e o Ocidente
A trajetória do Egito e da Líbia expressa bem esses dilemas. Em 1922, o primeiro país independente tornou-se uma monarquia liberal. A corrupção e a interferência britânica levaram nacionalistas e muçulmanos a derrubá-la em 1952, sob liderança do carismático coronel Gammal Abdel Nasser. Ele iniciou uma política estatizante de distribuição de terras, irrigação do Rio Nilo e industrialização. Mais ousadamente, nacionalizou o Canal de Suez, em 1956, que desencadeou uma guerra contra Grã-Bretanha, França e Israel, na qual o Egito foi derrotado. Nasser ganhou prestígio e articulou um pan-arabismo secular, concretizado na curta união entre Egito e Síria, na República Árabe Unida (1958-1964). Além disso, em 1967, conduziu outra guerra de países árabes contra Israel. Derrotado, renunciou à Presidência, mas voltou ao cargo após a aclamação popular, permanecendo até sua morte, em 1970.

Nasser não deixou de perseguir os opositores, em especial os membros da Irmandade Muçulmana. Fundada em 1928 no Egito, por Hassan al-Banna, difundira-se por vários países árabes ao pregar um retorno mais profundo ao islamismo. Inicialmente voltada à religião, tornou-se um partido político que mobilizou as massas contra a monarquia. Decepcionados com Nasser, tentaram assassiná-lo, sem sucesso. Seus líderes foram presos ou mortos e a Irmandade passou a atuar na clandestinidade.

Em 1981, assassinaram o sucessor de Nasser, Sadat, que abriu o país ao Ocidente, assinando um tratado de paz com Israel após o conflito ocorrido em 1973.

Hosni Mubarak assumiu o lugar de Sadat e reprimiu os membros da Irmandade Muçulmana. Em sua atividade contra esse governo, a Irmandade oscilou entre atentados contra turistas estrangeiros (1997), boicote às eleições (1990) e o apoio a candidatos independentes (nos anos 2000).

Mubarak manteve a postura pró-Estados Unidos, que lhe valeu uma considerável ajuda financeira. Seu governo foi marcado por repressão política, valendo-se do clientelismo para se reeleger continuamente. Mas, devido à crescente pobreza e ao desemprego, causados pela abertura econômica e a corrupção, a situação no Egito tornou-se explosiva, detonada com a notícia das consequências na Tunísia.

Já a Líbia era uma colônia italiana até o pós-Guerra. Com a independência em 1951, tornou-se uma monarquia sob a regência de Idris I. As relações entre o novo país e os Estados Unidos tornaram-se muito próximas, com os americanos aproveitando para si o petróleo líbio com pouca ou nenhuma compensação para esse país árabe. Em 1969, após uma crise de popularidade, o rei líbio foi derrubado e o país passou a ser governado pelo militar Muammar Kaddafi, então com 27 anos. Admirador do nacionalista egípcio Nasser, Kaddafi tornou-se inimigo dos EUA, o que fez com que a Líbia sofresse embargo dos países ocidentais, que durou até 2003.

A partir de então, o líder líbio iniciou uma abertura ao Ocidente, permitindo que grandes companhias de petróleo norte-americanas se instalassem no país. Atualmente, Kad¬dafi é o ditador há mais tempo no poder, mas não ficou imune à onda de manifestações nos países árabes iniciadas em janeiro. Diferentemente do que ocorreu no Egito, os protestos dividiram o país, criando um cenário de guerra civil entre tropas leais ao governo e os grupos que pretendem derrubá-lo. Os conflitos levaram as potências ocidentais (EUA, Reino Unido e França) a bombardear alvos militares em território líbio, com o objetivo de auxiliar os grupos contrários a Kaddafi.

Enquanto isso, divulgados pela internet, mais protestos populares ocorrem em paí¬ses árabes, onde a situação é semelhante. Não foram suficientes para derrubar os governos, mas a força repressiva dos donos do petróleo ainda não os calou.

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