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Carta Fundamental

Entrevista

Aprender por afeto

por Clarice Cardoso — publicado 13/01/2013 08h55, última modificação 13/01/2013 08h56
Helio Ziskind, mœsico e compositor.

Autor de uma centena de canções para a TV Cultura, Hélio Ziskind defende o poder da música para criar vínculos emocionais com temas da educação. Foto: Amanda Perobbeli

 

Um ratinho passeia em um carro, entra em sua toca e pula para a banheira. Ali, canta as partes do corpo e cria uma espécie de jogo que ensina a autonomia na hora do banho para as crianças. A música Ratinho Tomando Banho, uma das marcas do Castelo Rá-Tim-Bum, da TV Cultura, é um bom exemplo do universo criado por Hélio Ziskind na produção musical infantil. Autor de uma série de vinhetas para programas e de cerca de cem músicas para o programa Cocoricó, Hélio consegue compor canções com teor educativo mantendo o seu aspecto lúdico, sem pender para o doutrinamento. Uma abordagem que pode ajudar a trabalhar grandes temas de educação, defende. “O que a música faz não é ensinar, mas criar um vínculo afetivo com determinado assunto”, explica. “Como a escola se propõe a estabelecer uma relação entre ensino e vida, a música é celebradora dessa passagem.”

A Carta Fundamental, o músico, que lançou recentemente um disco com a cantora Fortuna com versões para textos de Tatiana Belinky e um DVD com a turma do Cocoricó, fala sobre o ensino de música nas escolas e os rumos que o trabalho permite.

Carta Fundamental: Como o interesse por música se transformou em carreira? 

Hélio Ziskind: De criança, meu interesse sempre foi natural, e, curiosamente, nem era tanto com música para crianças. Os primeiros discos de que me lembro são Elis Regina e Jair Rodrigues, Wilson Simonal, Trini Lopez, Johnny Mathis... Quanto ao trabalho, aos 16, 17 anos, conheci Paulo Tatit, que me apresentou Luiz Tatit, o que levou à formação do Grupo Rumo. Fora isso, cheguei a fazer dois anos de Psicologia na faculdade, e, na época, a Escola de Comunicação e Artes da USP promovia, em janeiro, cursos para formar jovens músicos de vanguarda. Essa mistura do Grupo Rumo com a ECA me preparou para esse negócio de como se mexe com música, como se inventa. Me deu régua e compasso, como diz o Gilberto Gil. A oportunidade de trabalhar com criança surgiu, a princípio, com a oportunidade de dar aulas em conservatórios e escolas de arte. Já tinha feito algumas músicas com elas, mas nem dava muita bola para essa coisa especializada no universo infantil. Daí, na TV Cultura, começaram a surgir os pedidos de inventar aberturas de programas e canções, e a coisa começou a crescer por si só.

CF: Muitas das suas canções são conhecidas pelo teor educativo, que ensinam a tomar banho, a escovar os dentes etc. Como fazer para que o caráter lúdico das composições não se perca para questões mais doutrinárias?

HZ: É interessante observar que houve uma evolução na ideia do educativo. Na verdade, o que a música faz não é ensinar, mas criar um vínculo afetivo com determinado assunto. Tento combinar isso com a construção de uma postura de estudante, uma curiosidade de cientista que culmina também na exploração dos temas. É como se eu estivesse fazendo jingles sobre os assuntos, com a diferença de que não vamos vender nada, apenas queremos contaminar aquilo de um aspecto lúdico. Na TV Cultura, recebi muitas encomendas. Só para o Cocoricó fiz mais de cem músicas. A coisa funcionava assim: eles encomendavam músicas descrevendo o que ela deveria “fazer”, só que, às vezes, ela respondia de outra maneira quando perguntávamos o que vale a pena cantar naquela história. O caso de Tu Tu Tu Tupi é um bom exemplo. O pedido era para uma canção para fazer amizade com os índios. Eu falei que não dava para fazer, que era preciso achar outro gancho. E o que salva a gente de não ser doutrinarista é a busca por esse gancho. Não é uma decisão que acontece de modo pensado: vamos ser menos educativos e mais lúdicos agora. Você tem de encontrar o caminho pelo qual o assunto ganha certa força e acaba indo meio que a reboque. O mais interessante é que esse processo aconteceu com muita gente dentro da TV Cultura, e é por isso que acho que somos a ponta de lança dessa vertente do educativo para o lúdico. Não é bem para o lúdico, mas para a ideia de vínculo. Se formos ver, as músicas da Xuxa, da Eliana, também tinham o lúdico, mas com um grau baixo de vínculo com as coisas com a música, a poesia.

CF: Essa criação de vínculo com o assunto permite uma assimilação melhor por parte da criança? Assim sendo, uma educação pela música é possível?

HZ: Sem dúvida nenhuma. Vejo para mim esse caminho paro o meu futuro, abordar os grandes temas da educação, não no sentido de serem grandes temas da educação, mas por serem elementos formadores da nossa visão de mundo desde pequenos. Acho que a música pode ter um papel enorme para criar afeto em torno desses temas. Sem falar do fato de que as emoções também precisam ser nomeadas para ser mais bem conhecidas. Certamente, por trás desse boom do bullying está uma dificuldade em nomear sentimentos. E acho que essa ideia pode explorar coisas sobre como o mundo se formou, o quanto dentro do nosso corpo tem outros bichos, e temas não de campanhas, mas de crenças individuais.

CF: Como essas músicas entram na sala?

HZ: A utilização dentro da aula é difícil de enxergar porque o professor também precisa ter proximidade com a música para trabalhar aquilo, e isso às vezes é fora de contexto. Acho que a música vai acontecer em outros momentos, de maneira geral. Uma vez, peguei um artigo que saiu na revista Ciência Hoje que conta a história de um marimbondo que pica uma aranha e, assim, ela começa a fazer teias em forma de triângulo. Aí apresentamos o artigo que descreve toda essa história, as fotos das teias redondas e triangulares, e a música que eu fiz, que se chama Mistério na Teia. Quando mostro as duas coisas para professores e pergunto qual a diferença entre receber o assunto pelo texto da revista e pela música, eles reconhecem a força da canção de tornar o assunto muito mais interessante, e ao mesmo tempo ficam meio perplexos sobre como aquilo entraria em sala. Não tenho resposta para isso, acho que nem preciso ter. Com o tempo, esse entrosamento entre a música e a escola vai evoluir porque, principalmente nas crianças menores, o contato com a própria voz é muito formador. Para as menores, cantar é muito bom e, para as um pouquinho maiores, quando se coloca essa questão de elas ao cantar de fato dizerem alguma coisa, expressarem uma ideia, não cantar automaticamente uma música que é só uma diversão, quando são levadas a dizer alguma coisa isso se enraíza demais, são eixos de formação invisíveis. Acredito muito nesse elo e, como escola se propõe a estabelecer uma relação entre ensino e vida, a música é celebradora dessa passagem.

CF: Nesse sentido, você é a favor do ensino de música nas escolas?

HZ: Totalmente. Já passei por esse assunto com vários amigos que estão entranhados nele, e há uma questão difícil de resolver: como se deve ensinar música? Eu o reduzi atualmente a um problema menor: como fazer uma pessoa desafinada afinar? Muitos professores reclamam que é difícil lidar na classe com as crianças que não afinam, elas são muitas. Se a criança não canta, todo esse mundo de descobertas por meio da música não começa. Por isso, tem de afinar. Não sou daqueles que acham que começar por flauta doce é o melhor, acho que o ideal é começar pelo canto. Já participei de vários projetos que fornecem material para crianças e tive uma experiência na SM edições, em que trouxeram uma obra da Espanha, para crianças de 4 a 6 anos. Ele incluía alfabetização, escrita, ciências etc., e tinha um material musical que me pediram para adaptar. Nas instruções para o professor, eu dizia: sente as crianças em roda, não dance, não se movimente, essa ideia de que a criança precisa aprender as coisas pelo movimento é complicada. Quando se movimenta, a criança para de pensar na música. O que aprendem, no sentido de aprendizado mesmo? Dicção, talvez. O aprendizado é com a professora. O que a música vai acrescentar? Que aquele assunto que parecia estranho pode virar um desafio, uma história para eles cantarem. Dá uma luz no assunto e o cara quer seguir adiante, porque outros assuntos malucos podem ser tão interessantes como aquele. Muda totalmente o conceito de aprender por obrigação. Isso dá muito certo. Não é difícil fazer essas coisas, difícil é essas partes todas se reconhecerem, porque é um novo mercado.

CF: A educação musical, então, deve focar o trabalho de temas, instrumentos?

HZ: Não precisa ser exclusivo em nenhum desses focos. A escola ainda não vai conseguir fornecer todo o material específico da música. É difícil formar esse professor de música, essa não é uma questão resolvida, antes, ainda precisa ser desenvolvida. O que sabemos é que, em qualquer nível, se você criar vínculos, o ensino funciona. E quanto mais conviver com a música, mais para dentro dela você vai, você percebe as coisas. Nem todo mundo precisa de uma linguagem que descreva esse processo para entrar nisso, tem gente que já nasce sabendo. Então, você tem professores sem formação musical que adoram cantar com as crianças, e aí, o processo se desenvolve naturalmente. Por outro lado, se o professor não gosta da voz, se acha que ela é feia, o processo não se desenvolve nunca. Imagine ainda se ele for obrigado a fazer isso. Acho que o princípio da coisa se deve dar pelo canto e pela expressividade, fazer a música nascer e, além disso, permitir uma conexão mais imediata com outros setores. Dessa forma, a música vai ganhando função ali no meio da escola.