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Carta Fundamental

Carta da Ana

Apossar-se de um tesouro

por Ana Maria Machado — publicado 13/02/2012 18h33, última modificação 14/02/2012 10h07
Ana Maria Machado fala sobre leitura na atualidade: "Além da inserção no contemporâneo, precisamos fincar raízes em uma linha de continuidade e ter a segurança de certa permanência, fixada na cultura da humanidade"

Precisamos fincar raízes em uma linha de continuidade e ter a segurança de certa permanência, fixada na cultura da humanidade

Caro professor,

Quando eu nasci, era filha única. Mas isso não durou muito e virei a mais velha de um monte de irmãos. Somos 11. E tínhamos uma quantidade de primos inacreditável: tanto meu pai como minha mãe tinham seis irmãos.

Alguns desses tios tiveram uma filharada, o que me deu 14 primos mineiros, 7 gaúchos, muitos fluminenses, outros tantos capixabas.

Fora os primos de segundo grau, sobretudo filhos dos primos de minha mãe, de convívio muito próximo e laços íntimos até hoje, que se prolongam já por nossos netos, por incrível que pareça.

De perder a conta e o fôlego. Principalmente porque nas férias de verão convivíamos pelos mesmos quintais numa praia do Espírito Santo, por onde a família se espalha desde 1916. Hoje, meus netos e sobrinhos-netos brincam por lá, em meio às novas gerações dessa primalhada e seus amigos.

É com alegria que a gente vai acompanhando as transformações e vendo como a garotada continua brincando na praia, correndo pelos gramados e subindo pelos galhos de goiabeiras, mas é capaz de ficar horas em torno de games, de tablets nas mãos. Ou de livro nas mãos, um mais velho lendo para os menores, como tantas vezes fizemos ou ouvimos na nossa infância.

Agora (como sempre) os recém-alfabetizados andam dando sua leitura em voz alta de presente aos pequeninos, fascinados com aquela mágica de transformar papel com manchinhas de tinta em histórias que fazem sonhar. Têm à sua disposição um excelente acervo que a literatura infantil brasileira foi construindo ao longo das últimas décadas. Uma variedade de alto nível, com uma riqueza de repertório de que muito poucas culturas podem se gabar em nossos dias.

Ao mesmo tempo, mesmo já lendo, não querem perder a alegria de escutar com atenção uma história lida. Começam a pedir aos pais que lhes contem outras, mais compridas, sem tanta figura para distrair. E vejo os pais deles, meus sobrinhos, em busca do repertório que os deliciava na infância – histórias tradicionais populares como a de Pedro Malasartes ou João Bobo, contos de fadas, a obra de Monteiro Lobato ou Cazuza, de Viriato Correia. Vivem uma experiência emocional gostosíssima, de descobertas conjuntas e encantos compartilhados. Ao mesmo tempo, têm a oportunidade de levantar dúvidas, medos, angústias e tentar aprender a conviver com as inevitáveis zonas de sombra que nos acompanham.

Além de todos esses aspectos positivos no terreno da afetividade, evidentes por si só, observo como esse processo vai construindo neles um embasamento humanista para o futuro, paralelo à aquisição de parte de um legado cultural milenar, que constitui um tesouro das civilizações.

Não vivemos apenas de tecnologia de ponta e modas passageiras. Além da inserção no contemporâneo, precisamos também fincar raízes em uma linha de continuidade e ter a segurança de certa permanência, fixada na cultura da humanidade que vem sendo construída há milênios. Sentir que coisas diferentes têm ritmos diferentes. Umas exigem resposta imediata, quase automática. Outras demandam um tempo de reflexão e entendimento -para amadurecer uma reação. Precisamos de ambas as experiências. Uma alimenta a outra. E nós nos nutrimos de todas.

Vários estudos demonstram que a aquisição desses repertórios na infância contribui enormemente para o desenvolvimento das capacidades próprias e estimula a imaginação tão necessária a cientistas, inventores, artistas e estadistas. Fundamental para sonhadores ou para empreendedores. Na Universidade de Cambridge, por exemplo, a professora Juliet Dusinberre pesquisou as leituras infantis de vários monstros sagrados das letras em língua inglesa no século XX e fez algumas descobertas interessantes.

Entre elas, a de que todos os que revolucionaram essa literatura no Modernismo, com suas experimentações radicais na linguagem ou na maneira de contar histórias (como James Joyce, Virginia -Woolf e -Ernest -Hemingway), -tinham tido intenso convívio, em criança, com a leitura de obras de autores sem condescendência com a facilitação no que escreviam, e sem -preo-cupação em insistir em dar lições.

Ou seja, autores como Lewis -Carroll, de Alice, Robert Louis- Stevenson, de A Ilha do Tesouro e O Médico e o Monstro, ou -Mark Twain, de As Aventuras de Huck.

Autores que não faziam a menor concessão a um linguajar simplificado ou a uma história paternalista de heróis e vilões claramente divididos, mas pelo contrário, erigiam desafios à leitura infantil e exigiam cumplicidade na decifração de significados mais profundos. Mas, ao mesmo tempo, foram capazes de criar enredos empolgantes e personagens atraentes.

Naquele tempo, sem a concorrência de outras tecnologias mais visuais e eletrônicas, as crianças desenvolviam muito cedo o fôlego de leitura que lhes permitia mergulhar nessas obras, logo que se alfabetizavam.

Hoje, provavelmente, os primeiros passos por esse território serão mais firmes se acompanhados por um adulto que leia junto e comente – ou a partir de leituras em voz alta ou em leituras paralelas que se reúnam depois numa conversa sobre um episódio lido. Em ambos os casos, será uma experiência deliciosa e enriquecedora para as duas partes.

Ana Maria Machado

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