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Carta Fundamental

Conto

Ana e Mia

por Carta na Escola — publicado 13/12/2011 15h44, última modificação 05/01/2012 15h11
Em conto de Leo Cunha, menina confessa suas angústias para duas amigas especiais.
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Com medo de pisar na balança e de olhar para o próprio reflexo distorcido, a menina confessa suas angústias para duas amigas especiais. Ilustração: Odilon Moraes

Queridas amigas, o que seria de mim sem vocês? Com quem eu conversaria aqui em casa, no prédio, na escola? Todas as garotas da turma só sabem repetir uma coisa: que estou fazendo mal à saúde, que não posso continuar assim, que vou acabar com a minha vida. Mas o que elas sabem da minha vida?

Quando as pessoas me olham, eu sei que é pra me julgar, pra ter dó, pra apontar o dedo, rir baixinho pelas costas e agradecer a Deus por não serem assim.

Ninguém entende o que eu vejo quando me olho no espelho. Ah, se eu pudesse arrancaria todos os espelhos da casa, do elevador, do prédio, da escola! Mas como não dá, fecho os olhos diante deles, feito uma vampira amedrontada com o próprio reflexo.

Ninguém sente o que eu sinto quando olho minhas fotos. Graças a Deus sobraram poucas, agora que já rasguei quase todas, para desespero da minha mãe. Outro dia pedi emprestado um álbum da Tatiana e roubei todas as fotos onde eu aparecia. A Tati ficou pê da vida comigo, mas fazer o quê? Semana que vem vou pedir emprestado um álbum da Ju e aí vou fazer a mesma coisa.

Ninguém imagina o pavor que eu tenho da minha própria sombra. Nenhum fantasma me assusta, nenhum espírito me atormenta, mas que medo a minha sombra me provoca! Mal posso olhar para ela, roliça, pesada, disforme, desengonçada, deselegante, como eu. Respondam, amigas: por que não posso ser como o Peter Pan, que perdeu a sombra? Por que não posso ser transparente?

Quando a gente se encontra na casa da Ju, ou da Tati, as meninas ficam se -admirando no espelho, comentam como estão mudando, ficando adolescentes, virando moças. Todas radiantes. Menos eu, é claro. Não acredito que alguém possa sorrir para o espelho, feito elas. Passar meses sem pisar na balança, feito a Ju. Ela me olha com aquele jeito de pena e diz: “Mas você é muito mais magra do que eu!” Será mesmo? Às vezes nem sei mais no que eu acredito.

Semana passada, na casa da Ju, eu espiei disfarçado a calça jeans dela e vi que a bandida é tamanho 38. Como pode, se a minha é 36? Será que ela trocou a etiqueta, só pra me enganar? Será que estão todos me enganando? Será um complô pra eu não emagrecer? Pra nunca me verem esbelta?

E os garotos? Estes são piores ainda. Antigamente vários me paqueravam, me olhavam de cima a baixo, sorriam pra mim. O Lucas, mesmo, vivia me mandando bilhetinhos, chamando pra sair, pra ir no cinema. Dizia que eu era linda, queria me namorar de qualquer jeito. Ainda bem que eu resisti, porque a esta altura do campeonato ele já teria terminado comigo. É, porque agora ele nem olha mais pra mim. Também, gorda desse jeito... que menino vai querer me paquerar?
É por isso que eu não posso bobear, não posso maneirar na dieta, tenho que controlar cada caloria, cada gordurinha. Absolutamente tudo. Hoje eu entendo perfeitamente que a comida é minha inimiga. Inimiga, sim! De que mais eu poderia chamar? Ela nunca me põe pra cima, nunca me alivia, nunca me consola, feito vocês. Ela faz de tudo pra chamar minha atenção, pra desviar meus pensamentos de coisas boas. Mas eu garanto a vocês: ela não vai me derrubar, ah, mas não vai mesmo! Sempre que eu fraquejo, perco o controle, cometo qualquer abuso, logo logo dou um jeito de compensar.

Mas sabem de uma coisa, amigas? Tenho certeza de que o corpo se acostuma com tudo. Cada vez menos calorias, cada vez mais ginástica, uma pequena vitória a cada dia. Até que finalmente, tenho certeza, meu corpo vai aprender a não sentir falta da comida.

No fundo, a culpa não é minha, a culpa é desse mundo. É ele que me persegue, que me tortura, que me embrulha o estômago, que me faz vomitar. Se o mundo fosse outro, quem sabe eu não precisaria fugir das fotos, da sombra, dos espelhos?

Se o mundo fosse outro eu não teria que ouvir estas palavras de nojo: anoréxica!, bulímica! Eles não têm vergonha de lançar tanto desprezo sobre o meu corpo e minha alma?

Anorexia, bulimia. Se eles apenas conhecessem vocês duas como eu conheço, se conhecessem seus segredos, sua intimidade, seus apelidos... Sempre tenho vocês, Ana e Mia, para desabafar.

Leo Cunha é jornalista, escritor e tradutor.