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Carta Fundamental

Conto

A ideia que se esquecia...

por Jorge Miguel Marinho — publicado 15/09/2010 21h17, última modificação 16/09/2010 16h11
Ninguém sabia que ela existia, até que encontrou outras três amigas e saíram por aí com uma ideia na cabeça que não era mais uma ideia sozinha
conto

Ilustração: Odilon Moraes

Ninguém sabia que ela existia, até que ela encontrou outras três amigas e, juntas, as quatro saíram por aí com uma ideia na cabeça que não era mais uma ideia sozinha

"Caramba, eu estou sumindo!” – quem disse isto foi uma ideia.

Isto mesmo, uma ideia. Uma dessas ideias que moram no pensamento da gente.

Só que esta ideia ainda não estava na cabeça de ninguém. Era uma ideia completamente sozinha.

Nesse dia ela estava se olhando no espelho. De repente levou um tremendo susto, chegou até a perder o ar, ficou muito apavorada mesmo. E não era para menos. Acontece que um pedaço da sua orelha esquerda tinha sumido. Sumido bem ali, naquela dobrinha da orelha. Justamente ali onde ela tinha feito uma tatuagem bem forte com a primeira letra do seu nome dentro de um quadradinho que parecia um livro.

“Que droga, ontem foi a unha do dedão do pé, hoje a orelha. Ainda bem que o furinho do meu brinco ficou”, a Ideia procurou se conformar um pouco. Afinal o seu problema era sério demais e ela precisava agir bem depressa: “Se eu não encontrar logo alguém pra tomar conta de mim, eu vou acabar desaparecendo pra sempre”, a Ideia dizia bem dramática e com toda a razão. E o pior é que a Ideia já tinha feito de tudo para ser conhecida, para ser de alguém, ter uma autoria, e nada.

Ela era uma ideia mais que solitária, esquecida, desamparada. Não havia nem gente, nem bicho, nem qualquer coisa neste mundo que fizesse um carinho. Ou dissesse uma palavra. Ou até brigasse com ela para ela saber que era uma ideia como tantas outras.

“Mas eu já tentei tantas coisas e até agora ninguém sabe nem meu nome!”, a Ideia pensava magoada. Era muito carente como toda ideia sem amparo. Só queria uma coisa: entrar na cabeça de uma pessoa, pouco importava quem, só precisava ser alguém e pronto.

Por isso mesmo não era nada difícil a Ideia dizer umas mentirinhas. Chegou a confessar com lágrimas nos olhos que Platão, um filósofo muito antigo e famoso, que vivia no mundo das ideias, era o pai dela. Ainda bem que ninguém escutava.

O mais grave foi contar aos quatro cantos do mundo que ela era uma das sete ideias mais sábias e maravilhosas do mundo porque estava escrita
na Bíblia, o Livro dos Livros. Era só procurar lá. E tem mais: uma outra vez ela resolveu falar com o presidente que havia tanta ideia na ideia dela que ela podia salvar o meio ambiente.

Ninguém dava a menor atenção e foi mais uma, mais outra e mais outra decepção. É..., não dava para a Ideia se iludir: o mundo estava muito ocupado com outras ideias, com outros acontecimentos, com outras coisas.

Numa certa tarde notou que a língua estava diminuindo de tamanho e que ela podia perder a voz, e isto nem pensar!

Ela andava demais de cansada, nervosa, nem palavra cruzada, que ela fazer sozinha, ela fazia mais. Nunca mais tinha ido ao cinema, nem saltado de paraquedas, nem pintado as unhas de azul, que era a sua cor predileta. Ainda mais agora que mais outra unha tinha caído.

E o calcanhar direito que estava esfarelando todo e a Ideia nunca mais ia usar sapatilha de balé.

Esquecida assim dessa maneira, sem ter com quem conversar, alguém para trocar uma ideia, todo dia a Ideia tinha uma crise de amnésia e nessas horas, nem ela, a Ideia, lembrava que ideia ela era.

Ela foi ficando uma ideia desmemoriada, mais anêmica, muito magra, raquítica.

“Hoje eu não estou sentindo a minha perna direita, nem minha mão esquerda, parece até que meus cabelos estão caindo”, ela se apavorava toda.

De manhã, quando ela escovava os dentes e se olhava no espelho, às vezes ela nem se reconhecia.

“O que mais eu posso fazer pro mundo saber que eu existo?”, a Ideia se perguntava noite e dia.

“Já andei até de perna de pau, com óculos escuros e uma peruca vermelha que ia até as pernas, aqui mesmo no parque da minha rua, e ninguém deu
a mínima!”, a Ideia, ela mesma, se respondia.

Deu de ficar largada, coçando a cabeça, firmando o pensamento com bastante força para achar um jeito de ser encontrada por alguém ou por alguma coisa, um bicho, uma flor, uma pedra, se sentir olhada, se sentir querida, se sentir sentida.

Ficou durante sete dias trancada no quarto e não houve uma mosca que pousasse na cabeça dela.

“Será que não existe um ser humano, um dinossauro, uma estátua que me ponha dentro da cabeça deles pra eu ser uma ideia de verdade e não ficar invisível”, a Ideia resmungava, às vezes, com raiva.

Mas esta ideia tinha um sonho e deste sonho ela não “abria mão” – era uma ideia fixa.

E, se a Ideia não tinha lugar neste mundo, ainda restava a fantasia.

“Ei, você aí, olha como eu posso mudar de cor”, a Ideia implorava para as estrelas, para os duendes, para os seres do outro mundo, quase sem fôlego, fazendo bastante força para ficar vermelha.

Como já deu para ver, a Ideia desta história também não tinha mãe, nem pai, nem irmãos, nem amigos porque nem ela sabia de onde tinha vindo. Mas, se tivesse família ou algum conhecido, um dia alguém ia dizer:

“Mas que ideia mais desmiolada! É uma cabeça de vento! É uma ideia sem pé nem cabeça! Está sempre com a cabeça na lua!”

Ela já estava quase transparente, a tatuagem havia sumido, os brincos também.

“Deixa pra lá – eu um dia ainda vou encontrar minha fada madrinha”, a Ideia sonhava e, mesmo com tanto problema, era uma ideia otimista.

E foi então que um dia aconteceu...

Quando menos ela esperava, a Bia apareceu e a Ideia viu que a Bia existia.

Era uma menina que andava atrás de uma ideia para escrever um livro e esta nossa Ideia tão abandonada era uma ideia que dava uma história e tanto.

“Agora que eu achei a Bia, como eu vou me mostrar pra ela?”, a Ideia ficou demais de preocupada.

“Ora bolas, dorme com ela na cama dela que é o melhor lugar pra se descobrir ou ter uma ideia”, a Ideia gritou com palavras que vinham lá de dentro dela.

Difícil foi pôr a cabeça no travesseiro da Bia que adorava perfume de jasmim e a Ideia também era completamente alérgica.

Mas têm males que vêm para o bem, uma outra ideia já dizia: foi só a Ideia espirrar e a Bia achou a ideia do livro que, por acaso, era a Ideia que vivia sozinha.

“Até que enfim eu tive uma ideia e já estou até sentindo a história do meu livro”, Bia falou para as paredes, imaginando que seu quarto estava cheio de gente.

“Eu sou a ideia do seu livro, menina, mas faz tanto tempo que eu estou esperando que nem me lembro mais que Ideia eu sou”, a Ideia falou também para as paredes porque nem a Bia estava ouvindo.

“É uma ideia e tanto”, Bia exclamou com ares de escritora.

“Então me diz que ideia é esta que eu sou e diz isto bem depressa, senão eu vou acabar sumindo de uma vez”, a Ideia implorou quase sem ar e tossindo bastante.

“Vou comprar um caderno de capa azul... pra ficar bem inspirada!”, Bia sussurrou e saiu correndo...

Foi nessa hora que a Ideia desmaiou de cansaço, de solidão e de desespero e sonhou que estava morrendo sem saber que Ideia era ela. Mas, mesmo dentro do sonho, ela continuou lutando de verdade e vai daí que a Ideia dessa história teve uma bela ideia.

Ainda dormindo, ela resolveu pedir ajuda para três outras ideias e, no mundo dos sonhos, todas as ideias se escutam e se ajudam.

Uma se chamava Eu Sou uma Página em Branco. A outra, Eu Sou um Abridor de Palavra. E a outra, Eu Sou uma Caneta-Tinteiro.

Juntando uma ideia com a outra, a Ideia se lembrou de que o nome dela era “Eu Quero Ser um livro”, e as quatro decidiram entrar de uma vez na cabeça da Bia e bem juntas.

Quando a Bia entrou no quarto, a primeira coisa que ela viu foi uma frase quase apagada no travesseiro que apareceu como mágica na cabeça dela:

“Eu sou uma caneta que quer abrir uma história numa página branca que vai virar um livro”.

De verdade mesmo, não foi assim que aconteceu nem as quatro ideias escreveram esta frase com palavras, mas dá na mesma. Elas colocaram delicadamente sobre o travesseiro uma caneta preta, uma página em branco, um abridor de garrafa e só a capa de um livro. E a Bia, que era muito imaginosa, descobriu que aquelas coisas estavam ali porque elas tinham muito para contar e foi assim que ela começou a história:

“Era uma vez uma Ideia que vivia num país onde ninguém sabia que ela existia, mas ela encontrou mais outras três ideias que ficaram amigas dela e as quatro juntas, de mãos dadas e com as unhas pintadas de azul, saíram por aí com uma ideia na cabeça que não era mais uma Ideia sozinha.”

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