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A educação como justiça social

por Renata Lopes Costa Prado — publicado 10/02/2011 20h25, última modificação 10/02/2011 20h28
Pensar no saber como alternativa para deixar a miséria foi o grande legado de Darcy Ribeiro, criador dos Cieps
A educação como justiça social

Pensar no saber como alternativa para deixar a miséria foi o grande legado de Darcy Ribeiro, criador dos Cieps. Por Renata Lopes Costa Prado. Foto: Luciana Whitaker/Folhapress

Escritor, etnólogo, educador, reitor, ministro, vice-governador, senador... Darcy Ribeiro, sem dúvida, foi, como o define o escritor Eric Nepomuceno, um “brasileiro múltiplo e absolutamente único”. Nascido em 1922, em Montes Claros (MG), Darcy formou-se etnólogo pela Escola Livre de Sociologia e Política de São Paulo e foi trabalhar no Serviço de Proteção aos Índios, onde criou o Museu do Índio, no Rio de Janeiro, com o primeiro curso de Pós-Graduação em Antropologia Cultural do Brasil.

Esses foram, segundo ele, os dez melhores anos de sua vida (1946-1955), anos que passou nas aldeias indígenas da Amazônia e do Brasil Central, ao mesmo tempo que assessorava o Marechal Cândido Rondon no Rio de Janeiro.

Seu encantamento devia-se, em parte, à convivência cordial que ele identificava no índio como vindo, talvez, “do fato de não ter experimentado jamais as agruras da estratificação social. Não tendo senhores ou subalternos a quem obedecer ou dominar, todos ali são igualmente pessoas humanas, assim se veem e se tratam, sem nunca se olhar ou se ver, ou se vendo com desprezo”. E continua: “Creio mesmo que o socialismo a que aspiramos será, talvez, a recuperação daquela convivialidade perdida, num nível civilizatório de altíssimo avanço”.

Darcy conta que os índios foram o “desasnando”, pois a princípio olhava para eles com um olhar de fora, servindo-se deles para estudar o homem. Eles eram, para Darcy, por força da visão acadêmica que trazia, mostras de concepções arcaicas de cultura. Aos poucos, pôde descobrir que se tratava de uma “gente que sofria a dor extrema de ser índio num mundo hostil, mas ainda assim guardava no peito um louco orgulho de si mesma como índio. Gente muito mais capaz do que nós de compor existências livres e solidárias”.

Nessa época, conviveu e trabalhou com quem chamava de seu primeiro alter ego: Rondon, que, segundo ele, lhe ensinou a ser gente. Mais tarde, encontrou aquele que seria o seu segundo alter ego, Anísio Teixeira, responsável pela aproximação com a sua outra grande causa, além da proteção dos índios, a educação do povo. De tão importante que Anísio foi para Darcy, ele, certa vez, disse ao educador baiano: “Se me perguntassem pelo encontro mais importante de minha vida, eu diria que foi o nosso”.

Mas a admiração mútua não aconteceu a princípio. “Para Anísio, eu, como intelectual, era um cara desprezível! Um homem metido com índios, enrolado com gentes bizarras (...) Para mim, Anísio era o oposto, um homem urbano, letrado, alienado”. Aos poucos e por intermédio de um amigo comum, Charles Wagley, que sempre quis aproximá-los, os dois foram descobrindo o tanto que tinham para compartilhar. Anísio inspirou Darcy com sua luta contra a desigualdade socioeducacional, a bandeira da laicidade na escola pública e a busca pela escola aberta e ativa, capaz de formar pessoas identificadas com a democracia. Darcy, por outro lado, convencido de que o papel do intelectual implica intervenção, levou a Anísio fervor militante para o desenvolvimento dos projetos que o pioneiro da Escola Nova mantinha em pauta desde a década de 1920, além de colocar seu talento para a pesquisa empírica a serviço da educação brasileira. Para Anísio, seu amigo tinha a “coragem dos insistentes”.

A principal bandeira de Darcy Ribeiro era a escola pública: a maior invenção
do mundo, como dizia. Através dela, todos os homens podiam ser herdeiros das bases do patrimônio mundial. O etnólogo via a educação como sendo a transmissão do saber da gente madura que já sabe para a gente imatura que ainda não sabe. Uma educação que deve ser capaz de ensinar as pessoas ao mesmo tempo sobre o mundo, sobre o seu país e sobre si mesmas. Em suas palavras: “Uma educação pública honesta e boa”.

Sua luta era por uma combinação de educação universal, cosmopolita, moderna, técnica, com conteúdo popular na sociedade de massa. Entre seus maiores opositores nessa luta estavam Dom Helder Câmara e Carlos Lacerda. Eles defendiam, com a Igreja, o fortalecimento da rede privada, que incluía as escolas confessionais, e a garantia da obrigatoriedade do ensino religioso em todo o sistema educacional. Segundo Darcy, “não nos opusemos jamais à liberdade de ensino no sentido do direito, de quem quer que seja, a criar qualquer tipo de escola às suas expensas, para dar educação do colorido ideológico que deseja. Nos opúnhamos, isto sim, é que, em nome dessa liberdade, o privatismo se apropriasse como o fez dos recursos públicos para subsidiar escolas confessionais”.

Na legenda do Partido Democrático Trabalhista (PDT), ao lado de Leonel Brizola, como vice-governador do Rio  de Janeiro e secretário de Cultura, Darcy Ribeiro buscou implementar as propostas dos pioneiros da Escola Nova, tendo como cerne a educação pública, laica e integral. Nesse período, foram implementados, dentro do Programa Especial de Educação (PEE), os Centros Integrados de Educação Pública (Cieps), projetados por Oscar Niemeyer e programados para atender 600 crianças em turno único, além de 400 à noite, na educação juvenil. Durante o dia, os alunos deveriam ter, além das aulas curriculares, orientação no estudo dirigido, atividades esportivas e recreativas, acesso à leitura de livros e revistas na biblioteca, de vídeos em salas específicas, participação em eventos culturais, atendimento médico e odontológico, refeições e banhos diários. A ideia era oferecer às crianças pobres uma escola como a dos ricos. A fundamentação do projeto de educação integral nos Cieps originou-se dos  argumentos que levaram Anísio Teixeira a inaugurar, em 1950, o Centro Educacional Carneiro Ribeiro, chamado de Escola-Parque, em Salvador, quando era secretário de Educação baiano.

O Programa Especial de Educação era visto por Darcy Ribeiro como “a experiência pedagógica mais complexa, mais democrática e participativa, além de ser a mais bem-sucedida que tivemos no Brasil”. Como exemplo de participação, vale lembrar que o programa contou, em sua implantação, com consultas a todos os professores do estado e com a participação ativa na construção de suas diretrizes de 300 delegados eleitos por eles.

Como, por um lado, a ênfase nos discursos sobre os Cieps era a prioridade do programa para as classes populares e, por outro, pesava a identificação dos Cieps com um político polêmico como era Brizola, um efeito perverso não previsto, destacado pela educadora Helena Bomeny, foi que “os Cieps acabaram sendo estigmatizados como escolas de pobres, o que os tornou motivo de rejeição pelos pobres, e escola de Brizola, o que provocava a ira dos governantes seguintes, desmobilizando recursos e interditando, muitas vezes de forma criminosa, o curso do programa especial”.

É difícil avaliar hoje o programa como um todo, pois há dificuldades quanto à precariedade dos dados oficiais, o forte conteúdo político partidário que envolve esse conjunto de escolas e, principalmente, a diversidade entre os diferentes Cieps, das redes estadual e municipal.

Até o fim de sua vida, porém, Darcy teve o Programa Especial de Educação do Rio de Janeiro como o seu maior orgulho. “Ele foi e é o mais amplo e ambicioso empreendimento educacional do Brasil”, dizia.
Foram, portanto, muitas as lutas desse incansável e esperançoso brasileiro: a salvação dos índios, a educação popular, a universidade necessária, o desenvolvimento nacional, a democracia, a liberdade. A que mais o ocupou, certamente, foi a educação.

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