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A ciência da Juju

por Ana Maria Machado — publicado 21/11/2010 08h32, última modificação 21/11/2010 08h32
É uma pena que, no centenário de Noel Rosa, a marchinha do poeta continue tão atual: nossas aulas de Ciências não desenvolvem a percepção isenta

É uma pena que, no centenário de Noel Rosa, a marchinha do poeta continue tão atual: nossas aulas de Ciências não desenvolvem a percepção isenta

Já comentei aqui que acho muito salutar que ultimamente as pessoas estejam começando a discutir a qualidade da educação brasileira. Claro que há muito palpite de quem não entende nada do assunto, ou de quem o encara a partir de ângulos tão inusitados e discutíveis que a discussão acaba não levando a lugar nenhum. Mas tem havido também ponderações equilibradas e um bom número de argumentos pertinentes, que merecem ser pensados por todos nós. Por vezes fica difícil separar o joio do trigo.

Mas algumas dessas manifestações merecem atenção. Muitas não partem de especialistas. Talvez por isso mesmo apontem carências bem concretas e visíveis para quem não está vivenciando nosso ensino no cotidiano, em sala de aula ou em gabinetes administrativos. Por exemplo, o cineasta Walter Salles Jr., em entrevista há pouco tempo, trouxe à baila um aspecto importante, ao lembrar que tendemos a ter muito mais alunos na área de ciências humanas, considerada “facilzinha”, do que na de exatas. Mas sem esta, todo o setor de ciência e tecnologia fica paralisado e nosso desenvolvimento se vê comprometido.

Sabemos que essa distorção tem raízes que se plantam ainda na fase do Ensino Fundamental. E não ignoramos que os problemas ligados a ela não vêm de hoje. Trata-se de um fenômeno que vem se processando aos poucos, de maneira constante.

Bartolomeu Campos de Queirós publicou há alguns anos um belo livro inspirado em memórias de sua infância no interior de Minas Gerais. O título sintetizava o que era a característica do ensino que a sociedade esperava da então chamada escola primária: Ler, escrever e fazer conta de cabeça.

De cabeça? Como assim? Num tempo de calculadoras ainda tem sentido falar nisso? Que coisa mais jurássica… Essa passou a ser a reação mais frequente. Mas se é perfeitamente compreensível que a pura decoreba seja banida de sua velha condição de objetivo desejável no ensino, não deixa de ser também preocupante que quantidades cada vez maiores de estudantes sejam incapazes de saber de cor a mais elementar tabuada de multiplicar ou dividir. Para não falar do conhecimento de raciocínios matemáticos elementares para o dia a dia – como, por exemplo, montar uma regra de três simples, fazer cálculo de juros, ou ter a noção de quantos metros quadrados de piso serão necessários para revestir um cômodo.
Diante dessa negação em relação aos números, não é de admirar que tantas vezes as pessoas não consigam enxergar o óbvio. E se deixem enganar e manipular. No comércio ou nas eleições. Assim, com frequência, muita gente acredita que uma compra a longo prazo pode ser sem juros ou que estes não fazem diferença no preço. Ou imaginam que as aposentadorias saem de um saco de bondades ou de maldades do governo, sem qualquer relação com o que foi arrecadado, por quanto tempo, e para dividir com quantas pessoas. Mecanismos semelhantes ocorrem em relação ao seguro-saúde. Ou se mesclam com a questão dos impostos, alimentando a incapacidade de relacionar o que é arrecadado com o que é devolvido ao contribuinte sob a forma de serviços públicos e o que é canalizado para despesas de custeio. Dessa confusão resultam a incompreensão em relação a quem tem responsabilidade fiscal e um comportamento infantil semelhante a acreditar em Papai Noel, esperando tudo de graça e alimentando clientelismo e populismo.

Tão grave quanto esses equívocos no plano da cidadania e no exercício político são as consequências econômicas dessa carência, lembrada por Walter Sales Jr. Ou, como se costuma dizer, o efeito dessa debilidade educacional no nosso esforço para o desenvolvimento econômico. Na área da tecnologia e da ciência, de um modo geral e ressalvadas as honrosas exceções de praxe, deixamos muito a desejar. As escolas se ressentem da falta de professores de Física, Química, Biologia, Matemática. Temos poucas patentes de invenções brasileiras. Fazemos pouquíssima pesquisa digna desse nome.

No Ensino Básico, que é o que nos interessa mais diretamente nesta revista, é fácil constatar que não damos atenção ao desenvolvimento do espírito científico nas crianças. Nossas aulas de Ciências – quando as temos – tendem mais à repetição, ao continuísmo histórico do que ao desenvolvimento da percepção isenta. No máximo, entupimos os alunos de teoria. Não damos ênfase à experimentação, à observação dos fatos, à comparação de resultados, à sua análise por meio de um raciocínio lógico desprovido de emoções, ao rigor metodológico.

Na maior parte das vezes, mal conseguimos descrever os fatos como eles são, sem confundi-los com o que desejaríamos que fossem. Falta a nosso ensino um treinamento na objetividade e na impessoalidade.

Este ano celebramos o centenário de Noel Rosa. É uma pena que continue tão atual a atitude da Juju que ele canta numa marchinha: A Juju já sabe ler/ a Juju sabe escrever/ mas na divisão se enrasca. /Outro dia fez um feio/ pois partiu um queijo ao meio/ e quis me dar somente a casca.

Um abraço,
Ana Maria Machado

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