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Carta Fundamental

Meu Primeiro Grande Livro

A atualidade de Crusoé

por Ignacio de Loyola Brandao — publicado 08/10/2010 17h26, última modificação 08/10/2010 17h37
O clássico de Daniel Defoe permite uma nova leitura a cada vez. Isso significa modernidade. Não seremos todos Robinson dentro desta sociedade?
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A leitura da obra de Defoe marcou a vida de um dos maiores escritores do País. Foto: André Conti/AE

O clássico de Daniel Defoe permite uma nova leitura a cada vez. Isso significa modernidade. Não seremos todos Robinson dentro desta sociedade?

Quando li Robinson Crusoé pela primeira vez, ainda criança, em uma edição adaptada da Editora Nacional, muito bem ilustrada (quem era o autor? Por que perdi esse livro maravilha?) tive três momentos de absoluto pânico. O naufrágio, o momento em que Robinson se descobre só numa ilha perdida no oceano imenso e quando, aterrorizado,  descobre as pegadas de Sexta-Feira na areia da praia. Lembro-me que parei de ler e precisei tomar fôlego. Em geral, lia o livro em cima da mangueira do meu quintal. Manga-rosa, uma espécie extinta. A mangueira também não existe mais em Araraquara, na Avenida Djalma Dutra. Ficou no meu imaginário. Encarapitado nos galhos mais altos, onde havia uma forquilha, passava horas. Lia e olhava a cidade. Para trás de minha rua era o campo, o Cerrado do São José, que se tornava o mar. Sentia-me Robinson nas primeiras páginas do livro, sentado no Porto de York olhando os navios que chegavam e partiam. As mamoneiras, praga natural, eram ondas imensas que podiam me atirar em uma ilha deserta. Eu tremia. Leituras foram fundamentais para descobrir minhas emoções.

Li, reli, treli Robinson. Não largava. A primeira grande descoberta foi que a solidão era dolorida, mas não destruidora. Um homem não podia se deixar dominar por ela, a ponto de se derrotar. A luta de Robinson para sobreviver era uma luta pela vida. Cada momento era uma lição. Nadar até o navio, recolher tudo o que seria útil, começar a construir uma casa, rodeá-la por uma cerca para se defender, iniciar uma plantação. Ele plantou milho e construiu um paiol para guardá-lo. Fez mesas e cadeiras. Fez velas de sebo. Lembro-me de que ele tinha mais do que uma cadeira. Para quem seria a outra?  Esperança de um dia chegar alguém? Teceu cestas, fez roupas. Para quê?  Podia andar pelado, na ilha não tinha mais ninguém. Sem querer vi como é o olhar do outro que forma a nossa moral. A cada fim do dia, Robinson, exausto, dormia sem tempo de pensar em seu problema, um irresolúvel problema naquele momento, o estar só. 

Mais tarde compreendi que a lição era: quem destrói é o ócio, o entregar-se a nada, o remoer pensamentos catastróficos, o sentir-se vencido. O homem vive em permanente combate com ele mesmo, ele é, conforme a atitude, seu pior inimigo. O homem só é vencido por ele próprio. Claro que eram coisas intuídas por uma criança. 

Aliás, uma criança que se sentia rejeitada (claro que meu livro de cabeceira era O Patinho Feio; quem não se identificou com ele?). Brincava sozinho, ia para a escola sozinho, tinha poucos amigos (o esquisito era eu, evidente), caminhava pelo campo brincando com meus personagens imaginários. Tornei-me Robinson e as terras ao redor do Largo do São José eram a minha ilha. Construí uma cabana com os galhos das árvores que eram podadas pelos funcionários da prefeitura. Tinha minha lança, meu arco e flecha, minha espingarda, um pedaço de vassoura ao qual meu avô colocou uma coronha. Ele divertia-se mais do que eu. Certa tarde disse a ele que tinha um índio na minha ilha. “E você tem medo dele?” Não sei, ainda não vi, mas índios são maus, não são? “Quem disse?” Está nos livros de escola. Matam, comem as pessoas, atacam os brancos. “Livros da escola? O que escrevem nesses livros, meu Deus!” Exclamou meu avô. Só mais tarde entendi que as lições que tivemos eram sempre sobre índios maus que matavam com tacapes, estourando cabeças, com flechadas, punham fogo nas casas e precisavam ser catequizados pelos jesuítas.

“Primeiro, procure conhecer esses índios. Não tenha medo. Quem sabe, ele também tem medo de você.” Conhecer. Outra lição dada por meu avô e por Robinson que conheceu Sexta-Feira e dele se tornou amigo. Um protegia o outro. Achei muito inteligente a maneira de Robinson marcar o tempo com um X na casca de uma árvore. Dessa maneira conseguiu saber os dias, meses, anos que passou na ilha. Foram 23. Quando voltou, sabia a data com incrível exatidão. Só que me perguntei: para quê? O que interessava o tempo? Ele não tinha compromisso com ninguém, a não ser com ele mesmo? Hoje questiono: o tempo não foi algo que inventamos para nos escravizar? Calendários, relógios, tudo o que existe poderia não existir? Não existindo, como seria nossa vida? Não criamos a contagem do tempo para nos angustiarmos?

A questão da alimentação de Robinson me provocava curiosidade e certo nojo. Preconceitos, claro.  Não entendia que ele pudesse comer carne de cabra. Para mim, as cabras e cabritas eram aqueles animais que, em Araraquara, ficavam soltos pelas ruas, comendo o que viam pela frente. Cabra cheirava mal (talvez por serem malcuidadas, selvagens quase) Carne de cabra? Devia feder. Mal podia a criança antecipar este homem que hoje come cabrito assado e que devora queijos de cabra, alguns de altíssima qualidade.

Anos mais tarde, quando reli Robinson em edições mais completas, e depois quando li uma tradução integral, questionei algumas coisas em torno dessa solidão. Não seria Robinson um misógino que odiava a companhia humana? Sexta-Feira não era um escravo dele, homem branco? E as ideias de moral e religiosidade que existiam dentro dele? Algo quase como um crente, ou um membro da Igreja Universal? A questão é: Robinson tornou-se um clássico da literatura, que permite uma nova leitura a cada vez. Isso significa modernidade. Uma narrativa que provoca eterna discussão. Não seremos nós todos Robinson dentro desta sociedade?

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