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Carta Fundamental

Entrevista

A “bola” da vez

por Lívia Perozim — publicado 29/03/2011 10h00, última modificação 29/03/2011 10h35
Para Lino Macedo, o construtivismo se tornou uma prática “salvadora” do sistema educacinal brasileiro, por tantos anos excludente

Para Lino Macedo, o construtivismo  se tornou uma prática “salvadora” do sistema educacinal brasileiro, por tantos anos excludente

Para o professor do Instituto de Psicologia da USP Lino Macedo, a história é bem conhecida: estamos atrás de uma prática “salvadora”, para logo em seguida nos sentirmos decepcionados por ela. A prática, no caso, é a teoria construtivista de conhecimento, que, desde o começo da década de 80, ganha espaço nas escolas brasileiras. Um de seus propósitos é justamente o de ser uma escola para “todos” – não para uma elite –, em contraponto ao modelo da escola tradicional e conteudista do século passado. A decepção vem do fato de as crianças terem acesso à escola, mas não aprenderem. Nesta entrevista realizada, por e-mail, Macedo, especialista na Teoria de Piaget, explica as concepções construtivistas e fala sobre as distorções mais comuns relacionadas à sua teoria e prática.

Carta Fundamental: Por que o construtivismo vem sendo responsabilizado pelo fracasso da educação brasileira?
Lino Macedo: Penso que uma das razões é de ordem política e econômica. É que importantes movimentos educacionais estão ligados ao PSDB, nos âmbitos federal (governo FHC) e estadual (estado de São Paulo). Esses movimentos se referem, por exemplo, a políticas de avaliação externa (Enem, Saresp), programas de formação dos professores, reformas curriculares, produção de materiais. Muitos dos participantes dessa iniciativa, e eu me incluo dentre eles, são simpatizantes de uma visão construtivista da educação. O que seria essa visão? Reconhecer que, em uma educação para todos, é necessário considerar características psicológicas, sociais e culturais das crianças e dos jovens que, agora, estão na escola e precisam aprender. Reconhecer que é necessária uma boa formação dos professores, agora em número muito maior do que na antiga e “inesquecível” escola tradicional. Esses professores precisam de uma formação demorada, difícil, artesanal e cara. Do ponto de vista econômico, se as secretarias de Educação “dispõem” de muito dinheiro em relação às outras, o gasto é muito grande e diversificado, insuficiente às expectativas sociais e familiares. Assim, de modo geral, pode-se dizer que o “construtivismo” está sendo criticado porque é a “bola da vez”; fosse outra abordagem teórica e metodológica, talvez as críticas seriam as mesmas, ou até piores. Há quantos séculos as crianças e os jovens do Brasil estão excluídos das coisas da escola? Fazer um milagre de superação em poucos anos ou décadas é muito difícil.

CF: Quais as principais dificuldades dos educadores brasileiros de transpor as teorias construtivistas à prática em sala de aula?
LM:
A educação em nossa cultura sempre foi pensada como processo de intervenção dos adultos sobre crianças e jovens em relação ao que deveriam aprender, como conteúdo, saber, como valor ou forma de ser. Os adultos têm o poder e o dever de transmitir de modo informal, no cotidiano da casa ou da vida, ou formal, no contexto da escola, o que crianças e jovens necessitam aprender. A visão construtivista
reconhece, por meio de pesquisas e teorias, que o processo de desenvolvimento e aprendizagem das crianças e dos jovens é diferente dos adultos. Em outras palavras, como -articular intervenção e desenvolvimento? Crianças e jovens necessitam da intervenção educacional dos adultos, mas só podem aprender e se desenvolver a partir de seus recursos físicos, cognitivos, afetivos e sociais. Nos livros didáticos ou apostilas temos exposições, explicações, exercícios, atividades ou projetos indicados para os alunos. Mas os alunos só podem aprender com e a partir de suas próprias atividades. Quero insistir nisso: limite dos professores – dar atividades para; limite dos alunos – aprender com suas próprias atividades. Daí que, muitas vezes, o que chamamos de atividades de ensino são muito mais atividades de avaliação, ou seja, observação de como os alunos entendem ou reagem ao que foi proposto. Daí o sofrimento do professor – quer ensinar, mas não sabe como.

CF: Por trás desse rótulo do construtivismo há práticas muito diferentes?
LM:
Há, sim, felizmente. Construtivismo é uma visão do conhecimento, que se opõe a um modo positivista (é possível, por uma adequada intervenção, ensinar a todos) ou inatista (os limites do aprender são determinados por uma condição genética que o meio não pode superar, só pode, quando muito, prejudicar) de pensar. Para o construtivismo, intervenções do meio e condições hereditárias são fatores muito importantes, mas interagem com a qualidade da experiência, e, mais ainda, estão subordinados a um processo de autorregulação que integra os três, mas que não pode ser substituída ou determinada por um deles, isoladamente. Construtivismo é uma proposta teórica e metodológica que pode e deve ser praticada de muitos e muitos modos. Se não tivéssemos essa obsessão por resultados imediatos e positivos, se não tivéssemos essa pretensão de que podemos e devemos controlar tudo, talvez pudéssemos observar que há muitas e maravilhosas experiências de ensino e aprendizagem acontecendo Brasil afora, de diferentes modos.

CF: Por que então é difícil, no Brasil, aproximar dos resultados de pesquisas desenvolvidas por outros paradigmas?
LM:
Se em outros países, utilizando outros paradigmas, os resultados são positivos, seria um erro não “importar” tais paradigmas! O construtivismo, é bom lembrar, não é uma invenção nacional. Na segunda metade do século passado, tínhamos não só aqui, mas na Europa e nos Estados Unidos, dois tipos de escola. A escola tradicional e a chamada “escola nova” ou inovadora. A escola tradicional era reconhecida por ser forte – professores, alunos e conteúdos disciplinares, bem como o comportamento exigido, deveriam ser os melhores possíveis. Não por acaso, essa escola, mesmo pública, abrigava e preparava a futura elite do País, como já comentamos. O preço a pagar era a exclusão ou a reprovação da imensa maioria de alunos “fracos”, que não tinham recursos cognitivos, físicos e sociais para isso. Estes só podiam, quando muito, frequentar a “escola nova”, a escola dos filhos dos trabalhadores, das crianças abandonadas, com dificuldades para aprender. Nessa escola, a ênfase recaía sobre os processos de aprendizagem e desenvolvimento, sobre os limites insuficientes para a convivência escolar. O construtivismo, por valorizar processos de desenvolvimento e aprendizagem, por valorizar o sujeito que aprende, está associado muitas vezes a essa escola. Esquece-se, nesse caso, que o construtivismo de Piaget se relaciona aos modos como crianças e jovens desenvolvem recursos cognitivos e sociais para aprender conceitos e métodos científicos, justamente os mais caros na escola tradicional.

CF: O que separa, definitivamente, o construtivismo do não construtivismo?
LM:
Como afirmei, o que separa é uma visão traduzida em uma prática de conhecimento. O construtivismo acredita que os processos de conhecimento e desenvolvimento se realizam por uma qualidade de interação interdependente. Aquele que se desenvolve ou aprende influencia e é influenciado pelas pessoas e coisas com as quais interage. Ele, as outras pessoas e as coisas são irredutíveis entre si, são complementares e indissociáveis. Nas visões não construtivistas pensa-se que as variáveis podem ser controladas de fora, que um fator de desenvolvimento pode ser mais importante que outro, que intervenção é superior a desenvolvimento, que o sujeito pode ser submetido a processos externos, heterônomos. Por exemplo, que o fracasso ou o sucesso escolar se devem apenas ao aluno, ao professor, ao dar muito dinheiro para a escola ou para o professor, que basta exigir para que o aluno aprenda. Fazem parte também da visão não construtivista o desânimo, a descrença, o sentimento de que não tem jeito, de que se está “jogando dinheiro fora”, de que é impossível ensinar e aprender a todas as crianças, não importa o nível. Nessas visões, as coisas não são pensadas em um contexto de relação mútua e autodeterminada, nem se acredita na possibilidade, ainda que vagarosa e cheia de “recaídas”, de aperfeiçoamento. O construtivismo é otimista e positivo, mas realista. Daí o encanto com que apressadamente nos agarramos a ele como salvação nacional e daí o desencanto que ora nos abate, porque ele não cumpriu, nem poderia cumprir tão cedo, tão rápido, e tão bem nossas expectativas.

Lino Macedo é professor do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo. Especializou-se no construtivismo do suíço Jean Piaget (1896-1980), na psicologia aplicada à educação e nos jogos infantis. Coordena um laboratório de pesquisas e elaboração de atividades relacionadas às brincadeiras e voltadas para a escola. É autor, entre outros, de Ensaios Construtivistas (Casa do Psicólogo) e Ensaios Pedagógicos (Artmed).