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As armadilhas da pobreza

por Denise Ribeiro — publicado 17/08/2010 16h45, última modificação 17/08/2010 16h45
Bernardo Kliksberg, assessor do Pnud, fala dos efeitos perversos da desigualdade
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Foto: Daniel Garcia/AFP

Bernardo Kliksberg, assessor do Pnud, fala dos efeitos perversos da desigualdade

Todos os anos, 18 milhões de seres humanos morrem por causas relacionadas à pobreza. Desse total, 10 milhões são crianças. Em 2008, o mundo comemorou sua segunda maior safra agrícola da história. Mesmo assim, 5 milhões de crianças morreram de fome por falta de acesso à comida. Esses tipos de dados balizam os estudos do economista argentino Bernardo Kliksberg, que assessora o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud) e outros tantos organismos multilaterais, como o Unicef e a Unesco. Criador de uma nova disciplina, a gerência social, o argentino é um dos pioneiros na disseminação do conceito de ética para o desenvolvimento, o capital social e a responsabilidade social empresarial. Autor de 47 obras, seu livro mais recente, As Pessoas em Primeiro Lugar, foi escrito em parceria com Amartya Sen, prêmio Nobel de Economia em 1998. Um dos palestrantes da conferência internacional do Instituto Ethos, que acontece em São Paulo entre a terça-feira 11 e a sexta 14, Kliksberg concedeu a seguinte entrevista a CartaCapital. Segundo ele, o círculo perverso da iniquidade só será rompido quando enxergarmos a pobreza como uma violação dos direitos humanos, contra a qual é preciso lutar diariamente.

CartaCapital: No livro As Pessoas em Primeiro Lugar, escrito com Amartya Sen, o senhor reflete sobre ética e desenvolvimento. No mundo, esses conceitos realmente já são associados?

Bernardo Kliksberg: O mundo tem gerado excepcionais avanços tecnológicos nas últimas décadas e aumentado drasticamente sua capacidade de produzir bens e serviços. Ao mesmo tempo, convivemos com 3 bilhões de pobres, dos quais 1,2 bilhão são extremamente pobres e 2,6 bilhões não têm sequer banheiro. Uma em cada seis pessoas passa fome em um mundo que pode fornecer alimentos para uma população maior do que a atual. A crise econômica mundial agravou esses problemas. A cidadania exige modelos econômicos que incluam a todos e existe uma demanda ativa e crescente em muitos países nesse sentido. A sociedade civil está cada vez mais articulada e parte da juventude se organiza na internet rapidamente, pressionando a governança global por mudanças e pela adoção de novas regras. A ética e a economia têm de estar a serviço de políticas públicas inclusivas. Nos países nórdicos, no Canadá e na pequena, mas muito ativa eticamente, Costa Rica está comprovado que práticas éticas fazem bem à economia, geram maior expectativa de vida e criam coesão social.

CC: Por que a América Latina é a região de maior desigualdade do planeta?

BK: O fato de a América Latina ser a região mais desigual do mundo é a chave para entender a intensidade da pobreza na região. Não é que haja pobreza e desigualdade. Há pobreza por causa dos altos níveis de desigualdade. E, sem dúvida, as políticas ortodoxas são responsáveis por aumentar ainda mais a distância entre ricos e pobres. Na Argentina, por exemplo, que foi um verdadeiro laboratório de políticas econômicas ortodoxas nos anos 90, o fosso social aumentou 225% entre os governos Alfonsín (1986) e Menem (2000). A pobreza triplicou, o desemprego atingiu picos históricos, a base econômica de amplos setores de pequenos e médios empresários e profissionais liberais foi destruída, 8 milhões deixaram de ser classe média para se tornar novos pobres, o coeficiente de Gini (que mede a distribuição de renda) piorou drasticamente. A distância entre os 10% mais ricos e os 10% mais pobres passou de 12 vezes em 1986 para 22 vezes em 1995,  26 vezes em 2000 e 28,7 vezes em 2001. Essa política se revelou simplesmente má economia.

CC: Como o senhor analisa os atuais governos da região, que tentam implementar políticas sociais mais inclusivas para seus habitantes?

BK: Novos ventos históricos sopram na América Latina. Os cidadãos buscam, por diferentes caminhos, uma economia de rosto humano, o que tem gerado significativas mudanças geopolíticas na região. O reflexo disso é uma nova geração de políticas sociais com maior destinação de recursos, mais ativa, com melhor gestão, e buscando a participação das comunidades atendidas. Se não fosse por elas, o impacto da crise teria sido ainda maior. Programas como o Fome Zero e o Bolsa Família, implementados no Brasil pelo presidente Lula, ganharam respeito e se transformaram em referência internacional por vários motivos. Têm a maior escala jamais conhecida em matéria de política social no continente, conseguem maior redistribuição progressiva de renda para os mais pobres, melhoram a sua situação e envolvem os pais nas responsabilidades relacionadas a educação e saúde para com seus filhos. E também conseguem conectar os pobres aos serviços do Estado. Quanto mais se avance em dar pleno acesso à educação e à saúde, e em ver as comunidades a que se quer atender como sujeitos ativos, e não como beneficiários passivos, crescerá o “empoderamento” da população. Há progressos em toda a América Latina, mas é preciso redobrar os esforços. Ainda há 190 milhões de pobres nessa região tão rica potencialmente. Mais de um em cada três latino-americanos carecem do essencial. O motor é impulsionar a participação cidadã. Quanto maior ela for, melhor qualidade terão as políticas públicas.

CC: O senhor poderia explicar um pouco melhor o seu conceito de gerência social?

BK: A ênfase está na distribuição de renda, mas na América Latina a desigualdade se dá também no acesso a ativos produtivos, tais como a terra e uma boa educação. Mais de 50% dos jovens em muitos países da região não terminam o ensino médio (entre os jovens 20% mais pobres, apenas um entre três conseguem). Há também a desigualdade no acesso à saúde e as assimetrias em poder ingressar no mundo das tecnologias, a chamada brecha digital. Todas essas dimensões da desigualdade interagem e se reforçam mutuamente. Existe desigualdade até no direito de formar uma família. Muitos casais jovens se abstêm de fazê-lo porque não têm garantia de habitação, de emprego ou de entrada de recursos mínimos. Todos esses fatores juntos criam “armadilhas de pobreza”, ou seja, crianças que, por nascer na pobreza, têm problemas de saúde, enfrentam trabalho precoce, não conseguem concluir o secundário e, portanto, estão destinadas a ficar fora da economia formal. Uma gestão social eficiente deve atuar sobre o conjunto de causas, somando-se políticas públicas ativas à responsabilidade social das empresas privadas e à mobilização da sociedade civil. A mídia pode dar uma grande contribuição, tornando visível o invisível (os pobres), mostrando as boas práticas sociais, divulgando experiências comparativas e elevando o nível de qualidade do debate social. Quanto mais próximos estiverem dos problemas reais da população, como a pobreza, mais êxito os meios de comunicação terão.