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Língua Portuguesa

Ambiguidade

por Sírio Possenti — publicado 23/07/2012 10h33, última modificação 23/07/2012 10h35
Os casos de interpretação ambígua em textos jornalísticos ocorrem muitas vezes porque o leitor só lê a manchete, não o texto total

A maioria dos que falam de língua normativamente detestam a ambiguidade. A tradição diz que é um vício de linguagem. A ser evitado, portanto. Um exemplo típico é “Pedro disse a Paulo que ele está doente”. Já que “ele” pode referir-se tanto Pedro quanto Paulo, a sequência é viciada, dizem eles.

Mas evitar ambiguidades não é uma questão da sintaxe ou do ensino de gramática. A tarefa está na alçada dos gêneros. Eles é que podem ou não podem ser ambíguos, dada sua função social. Se o texto for uma receita ou uma bula, é melhor que seja claro e que cada parte tenha um só sentido. O mesmo se pode esperar de um artigo científico.

No fundo, a ideologia da clareza se baseia na tese – falsa – de que a única função da língua é expressar (comunicar?) o conhecimento. Supostamente, o jornalismo deve seguir esta regra de perto, porque é informação.

Mas por que um verso deve ser unívoco? E como “fazer” uma piada sem ambiguidades? Um comediante diz que fala muito de si nos seus shows, e que está chateado porque seus colegas não fazem o mesmo. A plateia ri. Como acharia graça se o comediante evitasse este texto ambíguo, que tanto pode significar que seus colegas não falam dele quanto que não falam de si mesmos? Não haveria humor. Ninguém iria aos bares em que “comediantes em pé” recitam seus textos.

Claro que a reclamação geral não se deve à rejeição dos textos humorísticos. Os que reclamam da ambiguidade nem pensam nisso.

Muitas reclamações recentes se devem a manchetes como “Um caminhão para o trânsito”. Eles reclamam porque não ficam sabendo, sem ler toda a notícia, se o caminhão é destinado ao trânsito da cidade ou se fez com que o trânsito parasse. Sim, eles reclamam, não perdoam o acordo ortográfico por ter eliminado o acento da forma verbal “para”.

O que não entendo é por que eles querem ler só a manchete. Além disso, quando as manchetes não têm esse tipo de “problema”, são claras? Há muitas maneiras de a manchete ser obscura. A saída óbvia, neste e em outros casos, é ler a matéria. Que, muitas vezes, de fato, só é clara para quem lê sobre o assunto há meses ou mesmo anos... É que o sentido de uma frase (manchete ou não), e mesmo de muitos textos, deriva de muitos outros textos. Sem eles, há muito mais “obscuridades” do que pode imaginar nossa vã filosofia.