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A revolução do microcrédito

por Redação Carta Capital — publicado 01/07/2010 19h32, última modificação 30/07/2010 16h02
700 mil empreendedores dos quatro cantos do País elevam lucro de seus negócios

Em dezembro de 2009, Maria Elisângela da Silva Amaral entrou pela primeira vez em um avião. Foi a São Paulo para receber o prêmio de melhor microempresária do Ceará, premiação nacional conferida por um banco sediado em São Paulo. Durante o voo de mais de três horas, ela precisou beliscar o braço para confirmar que não se tratava de um sonho. Aos 35 anos, tinha consciência de que não fora nada fácil chegar até ali. Filha de pequenos produtores rurais, Elisângela foi até a quarta série primária na pequena Sucupira, no oeste do Ceará, o último degrau oferecido pela escola.

Mas Geraldo Inácio e Maria Francisca, seus pais, queriam um destino diferente para a caçula de seus quatro filhos. Aos 9 anos, a saída foi deixar a casa da família e ir para o município vizinho de Limoeiro do Norte. Lá, a menina, empregada como babá de uma família com duas crianças da mesma idade dela, matriculou-se em uma escola e seguiu nos estudos. Tinha vontade de vencer na vida.

Determinada a fazer um curso superior, Elisângela sacrificou-se para conquistar o seu sonho. Perdeu muitas noites em claro, seguia estudando mesmo no ônibus: acordava às 3 da manhã para cursar a Faculdade de Educação Física na Universidade Estadual do Rio Grande do Norte.

Para pagar as despesas com transporte e moradia, trabalhou por cinco anos em uma academia de ginástica em Limoeiro. “Aí percebi que podia montar meu próprio negócio, com a minha marca e um relacionamento diferenciado, voltado exclusivamente às mulheres”, recorda, familiarizada com o vocabulário do mundo dos negócios.

Foi convidada por uma amiga a participar de um grupo que planejava tomar um empréstimo de crédito solidário. Resolveu arriscar: alugou uma sala em um prédio e pediu mil reais emprestados de um programa de microcrédito para comprar equipamentos como esteiras e colchonetes. Foi o primeiro de mais de uma dezena de pequenas operações de crédito.

O sucesso do negócio fez com que há dois anos a ex-professora de educação física desse um passo maior. Foi à agência do Banco do Nordeste do Brasil (BNB) e conseguiu um empréstimo de 60 mil reais para a construção de um prédio de dois andares que sediaria a sua Academia Ativa, hoje com 300 clientes, todas mulheres. Além de comandar aulas e iniciar um mestrado, a dona da academia continua a suar por outro motivo: financiou também a casa própria, onde mora com o marido, João Cláudio, e a filha, Dara, de 12 anos.

Distante do sertão cearense, na costeira Ilhéus (Bahia), Jonanthan Andrade da Silva conversava com um amigo sobre como expandir seu negócio quando ouviu falar pela primeira vez sobre o microcrédito. Ele resolveu correr atrás de informações, gostou do que ouviu e, como Elisângela, formou um grupo de crédito solidário com outras quatro pessoas.

O primeiro empréstimo, de 600 reais, foi usado para engordar o capital de giro da sua então modestíssima loja, que funcionava em um espaço de menos de 5 metros quadrados. Três anos e alguns empréstimos depois, o espaço comercial cresceu dez vezes e hoje vende brinquedos, material fotográfico e oferece revelações digitais de fotos.

“Antes do microcrédito, eu batia à porta dos bancos, mas conseguia pouco. Hoje meu faturamento dobrou e tenho um funcionário e três diaristas trabalhando comigo. A minha família compra hoje o que antes só ficava no desejo”, diz Silva.

Ele e Maria Elisângela engrossam as estatísticas do CrediAmigo, programa de microcrédito do BNB, a primeira instituição a investir maciçamente neste segmento do crédito bancário. De longe o mais importante player, com cerca de 65% do mercado, o BNB tem pouco mais de 500 mil clientes ativos e cerca de 2 mil agentes de crédito que vão atrás dos microempreendedores a oferecer empréstimos que variam de 100 a 15 mil reais. No embalo da renda crescente das camadas mais pobres da sociedade brasileira, a expectativa do banco é de que em dois anos o número de clientes dobre. “Estamos nos preparando para esse desafio, prevendo a contratação de outros 800 agentes. Nossa premissa é de que o programa tem de ser sustentável, por isso cada cliente precisa proporcionar um lucro anual de 50 reais”, diz a superintendente de microcrédito do BNB, Anadete Torres.

Região com maior potencial de crescimento, o Nordeste também conta com a contribuição de outros agentes. Em Alagoas, por exemplo, o pontapé inicial para a criação do Banco do Cidadão data de 2002 e entrou em operação a partir de janeiro de 2003. Em sete anos, 24 milhões de reais foram emprestados em mais de 24 mil operações, de 50 a 8 mil reais. Cerca de 95% dos clientes atuam na informalidade, segundo o BNB.

Ex-catadora de material reciclável, Rosineide Tomaz dos Santos é cliente do Banco do Cidadão há cinco anos. Ao fazer seu levantamento socioeconômico, o agente de crédito estipulou que ela poderia pegar 80 reais emprestados, não mais que isso. Dinheiro em mãos, Rosineide resolveu mudar de negócio, desistiu de vender roupas e sapatos usados, comprou uma leitoa, que, após alguns meses, pariu 18 filhotes. Em seguida, conseguiu vender quatro porquinhos por 200 reais e, com o dinheiro, comprou um macho. Em seis meses, produziu um rebanho que lhe possibilitou em uma única venda arrecadar 5 mil reais.

O Nordeste é hoje o principal foco de microcrédito no Brasil, concentrando mais de 50% do volume de empréstimos concedidos. Mas a experiência já se consolida em outras regiões e nas mãos de diversos agentes, estimulados por governos estaduais e municipais. O BNB, que já atendeu mais de 1,2 milhão de clientes desde o início das operações, está expandindo sua fronteira de atuação, chegando ao norte de Minas Gerais, ao Espírito Santo e a algumas comunidades carentes do Rio de Janeiro. Tem planos de entrar também em Niterói e São Gonçalo. No mercado carioca, em parceria com a prefeitura, chegou a favelas e comunidades carentes desde março de 2009. Já foram feitas mais de 2 mil operações, financiados mais de 5 milhões de reais, um valor bem superior ao previsto inicialmente.

Moradora do bairro de Jacarepaguá, Maria Elza de Lima Melino é coordenadora de um grupo solidário de quatro pessoas. Como a maioria dos agentes que atuam na área, o BNB opera por meio da metodologia de aval solidário, baseada na formação de um grupo de três a dez pessoas.

Se um não consegue pagar o empréstimo, o grupo assume a dívida e depois resolve entre si a pendência. Há reuniões periódicas acompanhando os negócios e o uso do crédito. No seu grupo, todos os participantes são comerciantes – Maria Elza vende gesso. “Nas reuniões, vemos se todos têm condições de pagar e tomamos cuidado para que ninguém prejudique os demais, aumentando a parcela dos que estão com dinheiro”, diz ela.

A responsabilidade partilhada tem demonstrado eficácia, como atesta o baixo índice de inadimplência. No BNB, a taxa está próxima de 1%. O microcrédito está contribuindo para mudar decisivamente a realidade de mais de 700 mil brasileiros, segundo estimativas dos próprios bancos que atuam nesse segmento. Segundo um estudo da Fundação Getulio Vargas, ao terem acesso a pequenos volumes de dinheiro a juros mais baixos que os do mercado, os microempreendedores conseguem incrementar seus negócios, melhoram o padrão de renda de suas famílias e consomem mais. Em suma, vivem melhor.

O estudo da FGV sugere que, entre os beneficiários do CrediAmigo do Banco do Nordeste do Brasil, o maior do País, constatou-se um aumento do consumo familiar da ordem de 15%. Mais: 61% dos tomadores de microcrédito que estavam abaixo da linha de pobreza (até 117 reais de renda mensal) saíram dessa condição.

Em São Paulo, onde há programas da prefeitura e do governo estadual, a situação não é diferente. Maria de Fátima Ferreira, de 50 anos, é cliente do programa municipal São Paulo Confia, voltado aos microempreendedores de baixa renda, que já atendeu mais de 30 mil pessoas em oito anos de funcionamento. Ela é cabeleireira e soube do programa por meio de uma amiga que vende roupas em domicílio e tinha obtido um empréstimo.

“Antes, eu não tinha acesso a crédito para melhorar o meu salão, porque não tinha fiador. Minha amiga descobriu o São Paulo Confia e me convidou para, com outros dois colegas, formarmos um grupo solidário. Pensei que fosse dar em nada”, explica Maria de Fátima. O primeiro empréstimo foi de 2.100 reais, 525 reais para cada componente do grupo. “Utilizei o dinheiro na compra e reposição do estoque de tinturas e artigos para cabelo.”

Com o apoio financeiro inicial, Maria de Fátima arrumou as cadeiras do salão, conseguiu comprar material de melhor qualidade e em maior quantidade, aumentando o número de clientes. Com a melhora de vida, espera ter mais dinheiro para realizar o seu sonho: submeter-se a uma cirurgia de redução do estômago.

Cliente do programa paulistano há cinco anos, Maria Aparecida de Souza Santos é coordenadora da sua equipe. Seu primeiro empréstimo foi de 300 ­reais, e ficou responsável por coletar o dinheiro das outras pessoas que formam o seu grupo de empréstimo. “Em cinco anos, só uma vez o grupo em que eu estava deu problema, quando uma pessoa disse que não tinha dinheiro e não pagou. Mas nas reuniões periódicas fico sempre atenta às dificuldades do grupo, para a inadimplência não assustar”, afirma.

No início, ela vendia apenas sorvete em sua garagem. Aos poucos, ampliou o seu comércio, passou a comercializar artigos de cama, mesa e banho, além de roupas. Viaja agora frequentemente para o sul de Minas, onde estão os seus fornecedores de roupas de frio. No início de fevereiro, quitou a última parcela de um empréstimo de 3.800 reais, mas já planeja o próximo. A intenção é ter material escolar para vender. “Tem uma demanda grande de mães que querem material para os filhos que estão entrando na escola.”

Em alguns casos, o microcrédito vira sinônimo de passo importante para os candidatos a empreendedor, a formalização do negócio. Há quatro anos, era este o caso de Douglas de Oliveira Zeferino: não conseguia chegar nem perto de um banco para pedir empréstimo para expandir a sua loja, a Disk Água Calu, que então vendia garrafões de 20 litros. Também pudera, com o nome sujo na praça, as chances de melhorar de vida eram reduzidas, para dizer o mínimo. Soube do programa paulistano e resolveu arriscar. E levou um susto quando percebeu que ter o nome sujo não seria obstáculo. Em março, Douglas quitará um empréstimo de 4.800 reais, dinheiro suficiente para expandir a sua loja – que hoje, além de garrafões de água, vende filtros e produtos de limpeza – e “limpar” o nome.

“As contas estão em ordem e atendo hoje mil clientes na região. Agora planejo um empréstimo de 7 mil reais para comprar um carro para distribuir meus produtos”, diz. Com as contas em dia, Douglas decidiu legalizar o seu negócio. Ouviu falar sobre a criação da figura do MEI (microempreendedor individual), instituída em julho do ano passado.

“Minha expectativa é começar a pagar impostos em pouco tempo, porque o processo de abertura de firma ainda está acontecendo. Aí também poderei ter acesso à Previdência, o que é impossível com a informalidade”, afirma Douglas. “O microcrédito, além de incluir socialmente, tem um grande estímulo na autoestima das pessoas”, diz Hugo Duarte, presidente do Conselho de Administração do São Paulo Confia, que em fevereiro inaugurará na Vila Prudente a 18ª agência na capital, com um total de empréstimos de mais de 130 milhões de reais desde 2001.

Em Sorocaba, no interior paulista, as jovens mulheres empreendedoras representam 90% dos pedidos de microcrédito feitos ao Banco Pérola. Cria de uma ONG local, hoje conta com 40 mil reais em recursos e negocia a ampliação do montante com a Caixa Econômica Federal e outros quatro bancos privados. Dos seis financiamentos já concedidos, todos têm como titulares uma mulher e como destino prioritário o bairro Habiteto, formado por conjuntos habitacionais em uma das regiões mais pobres da cidade, distante 70 quilômetros da capital paulista. A renda per capita no bairro é de 30 reais. “Com o crédito, muitos jovens poderão ter um futuro diferente”, diz a coor­denadora Alessandra França.