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Ditadura

Waldir, Darcy e o gorila

por Emiliano José — publicado 16/04/2008 15h54, última modificação 02/09/2010 15h56
Com o golpe em marcha, o governo de Goulart, ainda mantendo Brasília sob controle, havia ocupado as emissoras de rádio, as televisões, os correios, toda a área de comunicações. Waldir Pires e Darcy Ribeiro resolvem, então, ir a uma emissora de televisão falar à Nação.

Jango Goulart desembarca em Brasília, vindo do Rio de Janeiro, no dia 1º de abril de 1964. É começo de tarde. Reúne-se na Granja do Torto com Tancredo Neves, Doutel de Andrade, general Nicolau Fico, comandante militar de Brasília, e com o general Assis Brasil, chefe da Casa Militar, entre outros. Decide resistir a partir do Rio Grande do Sul, onde acreditava ter um esquema militar forte.

Com o golpe em marcha, o governo de Goulart, ainda mantendo Brasília sob controle, havia ocupado as emissoras de rádio, as televisões, os correios, toda a área de comunicações. Waldir Pires e Darcy Ribeiro resolvem, então, ir a uma emissora de televisão falar à Nação. Conclamam o povo brasileiro a defender a legalidade e denunciam a ação dos golpistas. Avisam que não haveria suicídio, como ocorrera com Vargas em 1954. Nem renúncia, como acontecera com Jânio em 1961. Haveria resistência.

Goulart iria para o Rio Grande do Sul no Coronado, um jato de Varig. Viajaria nele porque os caças da FAB não eram a jato e não poderiam voar na altura dele. O avião não levantou vôo, certamente já sabotado, e Goulart teve que viajar num Convair de dois motores, da presidência da República. Waldir e Darcy acompanharam todo o episódio e ficaram desconfiados de que o general Fico pudesse ter participação na sabotagem. Logo que o presidente embarcou, voltaram ao Planalto. Eram os dois mosqueteiros, os últimos a resistir no palácio.

Um, Darcy, chefe da Casa Civil, homem da mais absoluta confiança de Goulart. Outro, Waldir, Consultor Geral da República, também pessoa da confiança do presidente. Voltaram ao Planalto, dispostos a fazer de tudo para impedir o impeachment de Goulart, já em marcha. Ainda com o presidente em Brasília, havia sido acertado com o general Nicolau Fico que o Exército se manteria dentro dos quartéis.

Com os militares nos quartéis, a mobilização de centenas de pessoas, concentradas no Teatro Nacional com o objetivo de pressionar o Congresso Nacional contra a aprovação do impeachment, podia continuar sem atropelos. Se os parlamentares tentassem aprovar o impeachment, os manifestantes ocupariam o plenário e impediriam que a medida se efetivasse. Pelo menos, esse era o plano.

Foi com estupefação, mais do que surpresa, que Waldir e Darcy, ao se aproximarem da Esplanada dos Ministérios de volta do aeroporto, viram as tropas do Exército ocupando tudo, inclusive as imediações da Praça dos Três Poderes. As luzes do Congresso Nacional acesas denunciavam que a trama para derrubar o presidente andava celeremente, sob a proteção das baionetas.

O argumento dos golpistas era o de que Goulart deixara o País. Waldir redige, então, um comunicado, que seria assinado por Darcy, informando que o presidente encontrava-se em Porto Alegre, no uso pleno de suas atribuições constitucionais, disposto a defender a Constituição. O deputado Doutel de Andrade vai à tribuna e lê o comunicado e o entrega do senador Auro de Moura Andrade, presidente do Congresso.
Inútil. Auro de Moura Andrade convoca a sessão extraordinária do Congresso, aprova a vacância do cargo de presidente da República e convoca Ranieri Mazzili, presidente da Câmara para assumir o posto de Goulart. Era 1 hora da manhã do dia 2 de abril. Waldir e Darcy foram informados imediatamente da consumação do golpe.

Antes que a comitiva proveniente do Congresso chegasse ao Planalto para dar conseqüência ao golpe, Waldir vê o general Fico chegando e o interpela:
-Mas general, o senhor traiu o presidente? O senhor não ia manter o Exército nos quartéis?

Constrangido, sem dizer palavra, o general saca um papel do bolso e o entrega a Waldir. Um telegrama, assinado pelo general Costa e Silva, já autonomeado ministro da Guerra pelos golpistas, determina que o Exército em Brasília assegure o funcionamento normal dos poderes Executivo, Legislativo e Judiciário. Waldir lê e então olha para o general. Este, ainda sem dizer palavra, passa-lhe outro papel. Waldir lê: “Comunico prezado chefe que os vários poderes estão com seu funcionamento assegurado”.

-General, quero lhe dizer que com isso o senhor viabilizou o golpe. E que não foi leal com o presidente, a quem o senhor devia obediência.

Darcy chegava nesse exato momento, a ponto de ouvir o que Waldir dizia ao general. Ao receber os telegramas das mãos de Waldir, lê-los, lívido, Darcy encara o general, cheio de raiva e indignação, e então fala, como se tivesse feito uma grande descoberta:

-General, agora, olhando bem para o senhor, vejo que tinha de ser isso mesmo. Estou vendo a sua cara de gorila que obedece cegamente ao gorilão maior.

O general não deu uma palavra. Waldir e Darcy saíram rapidamente do Planalto, antes que Ranieri Mazzili viesse ocupá-lo. A partir dali, o deputado Rubens Paiva, que será mais tarde um dos assassinados na tortura pela ditadura e cujo corpo jamais foi encontrado, assume o comando das operações para tirar os dois de Brasília. O plano era que seguissem para o Rio Grande do Sul. Tiveram que mudar de rota, já que o presidente Goulart havia ido para o Uruguai, consciente de que não havia mais espaço para a resistência. Waldir e Darcy, nas asas de um teco-teco, descem no Uruguai, numa clareira no campo, no dia 5 de abril de 1964, depois de um vôo cheio de peripécias, para um longo período de exílio. Os dois bravos mosqueteiros.