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Virtudes perdidas

por Thomaz Wood Jr. publicado 15/11/2011 09h38, última modificação 06/06/2015 18h57
As escolas de negócios abandonaram o propósito de consolidar uma nova profissão, formando gestores, deixando-se pautar apenas pelas forças de mercado

Vivemos em uma sociedade de grandes organizações. Elas podem ser empresas privadas, estatais ou configurações híbridas. Qualquer que seja o tipo, nós dependemos delas para nascer, estudar, trabalhar, comer, beber, envelhecer e morrer. No centro do nosso sistema social existe um poder invisível: o poder exercido pelos exércitos anônimos de executivos e gestores. Exceto por algumas estrelas fugazes, eles não chamam muito a atenção. No entanto, a forma como pensam, tomam decisões e agem pode afetar, de forma sutil ou dramática, o destino de cada um de nós.

No livro From Higher Aims to Hired Hands: The social transformation of American business schools and the unfulfilled promise of management as a profession (Princenton University Press), o professor e pesquisador de Harvard, Rakesh Khurana, analisa a história centenária das instituições que formam esses exércitos. Seu argumento é que, com o passar do tempo, as escolas de negócios abandonaram seu propósito original, de consolidar uma nova profissão, formando gestores, e perderam o rumo, deixando-se pautar exclusivamente pelas forças de mercado.

Profissões, explica Khurana, ocupam um lugar de destaque na hierarquia do mundo do trabalho. Elas carregam valores culturais e respondem a demandas sociais. Um médico, por exemplo, é mais do que um trabalhador da saúde. Sua profissão deve refletir valores humanos e éticos, e sua prática deve responder às necessidades da sociedade na qual está inserido. Além de responderem às demandas sociais, as profissões também interferem e ajudam a criar a ordem social. As profissões mais emblemáticas tornam-se referências de valores e seus profissionais tornam-se modelos de conduta: médicos, bombeiros e professores carregam símbolos positivos; políticos têm se constituído sua antítese.

Em suas primeiras décadas, as escolas de negócios, especialmente aquelas surgidas no seio das universidades, assumiram a missão de formar administradores, como as escolas de medicina formavam médicos: profissionais íntegros e éticos, capazes de preservar os mais altos valores e responder às demandas sociais. Entretanto, a partir da década de 1970, mudanças no ambiente econômico e educacional desvirtuaram essa missão.

A primeira mudança foi uma orientação para pesquisa científica, que, apesar das boas intenções, afastou as escolas da prática empresarial e as transformou em torres de marfim, voltadas para o próprio umbigo. A segunda mudança envolveu a crescente prevalência de certas perspectivas econômicas e financeiras, transformando o administrador em um operador da “mão invisível”, um instrumento a serviço da obtenção de resultados de curto prazo. A terceira mudança relacionou-se ao crescente processo de comercialização do ensino da administração. De fato, o ensino da gestão deixou de ser uma atividade educacional para se transformar em uma indústria, capaz de movimentar vastos recursos e gerar invejáveis margens de lucro. Com isso, as próprias escolas passaram a ser geridas como empresas, sempre buscando polir sua imagem, atender seus clientes, racionalizar o uso de suas instalações e maximizar seus resultados. O Brasil seguiu, com algum atraso e adicionando peculiaridades, o processo norte-americano.

Hoje, a educação em gestão é um negócio global, complexo e ainda em transformação. Até a década de 2000, a indústria foi dominada pelos MBAs norte-americanos, vistos por jovens ambiciosos de todo o mundo como passaporte para o sucesso. Sua fama foi alavancada pela proliferação dos rankings, muitos deles enfatizando explicitamente o retorno sobre o investimento, ou seja, quanto o salário aumenta depois de uma passagem por um MBA.

Nos últimos anos, o modelo MBA perdeu fôlego e ganhou concorrentes. Surgiram os Masters in Management, para profissionais em início de carreira, e ganharam popularidade os Executive MBAs, mais curtos que os MBAs e destinados a profissionais mais experientes. Os próprios MBAs, antes essencialmente generalistas, passaram a ser oferecidos como programas especializados em finanças, marketing e grande variedade de cores e sabores.

Ao norte, como ao sul do Equador, as mudanças distorceram as boas intenções originais, de fazer da administração uma profissão reconhecida e socialmente relevante. A crítica de Khurana foca exclusivamente a administração e as escolas de negócios. Entretanto, os processos apontados pelo autor ocorreram em outras profissões. Se persistirem as tendências, talvez o próprio conceito de profissional seja uma ideia com os dias contados, a ser sepultada por coveiros nostálgicos no cemitério da força de trabalho.