Você está aqui: Página Inicial / Economia / Varoufakis e a face teratológica da economia mundial

Economia

Resenha

Varoufakis e a face teratológica da economia mundial

por Edemilson Paraná* — publicado 23/08/2016 10h13
Em novo livro, ex-ministro das Finanças da Grécia analisa a trajetória da crise iniciada em 2008, que ainda mantém o mundo em estado de agonia
Aris Messinis / AFP
Yanis Varoufakis

Yanis Varoufakis comandou as finanças da Grécia por seis meses, entre janeiro e julho de 2015

Certa vez, o economista e ex-ministro das finanças grego Yanis Varoufakis definiu a si mesmo como um “marxista errático”. Ainda que uma regra básica do bom senso nos aconselhe a não aceitar sem exame crítico aquilo que alguém diz sobre si mesmo, poucos qualificativos poderiam resumir melhor o conteúdo de seu livro que acaba de ser publicado no Brasil. Do começo ao fim, O Minotauro Global é, de fato, em todas as suas muitas riquezas e poucas lacunas, a obra de um perspicaz e criativo “marxista errático”.

Em sua abertura, franqueza e desapego a dogmas, a boa heterodoxia econômica de Varoufakis mostra-se fecunda tanto na demonstração das graves deficiências das teorias neoclássicas (aqui chamadas “teorias tóxicas”, em estreita relação com o seu papel no surgimento dos “ativos tóxicos”), quanto na construção de uma sólida narrativa alternativa sobre as origens e causas do atoleiro em que se encontra a economia mundial pós-crise.

Buscando explicações sistêmicas, e equacionando sofisticada leitura macroeconômica às dinâmicas geopolíticas, o autor consegue, assim, traçar o caminho que nos trouxe até a crise sem escorar sua análise, como se tornou corrente, em algum anedotário moralizante sobre a ganância rentista ou em qualquer outro discurso ad hoc sobre a reprovação da ação do Estado nas economias.

Outro mérito: sua análise econômica não se furta a entrar no debate público. Sem com isso perder em profundidade, o texto é fluido e bem-humorado, recorrendo a potentes imagens da cultura pop e da mitologia grega para dissecar e apresentar, em inúmeros e elucidativos exemplos, cada um dos argumentos que mobiliza.

E é justamente uma destas alegorias que dá título à obra: o Minotauro de Creta. Metade homem, metade animal, o ser é produto da relação entre a mulher de Minos, rei de Creta, e um touro (um castigo dos deuses a Minos por este não ter atendido ordens divinas). De modo a conter a voracidade da besta, um labirinto foi construído como sua morada e, no interior deste, sua inusitada dieta se dava à base de seres humanos jovens. Para satisfazer sem maiores problemas o monstro, o rei Minos força os atenienses a enviarem anualmente rapazes e moças para serem devorados pelo Minotauro.

Historiadores tendem a relacionar o mito à real hegemonia política e econômica de Creta na região do Mar Egeu – a quem cidades-estados menos poderosas tinham de pagar tributos regulares em troca de proteção e manutenção da paz.

A imagem é aqui mobilizada como analogia ao papel político-econômico dos Estados Unidos no mundo pós-revogação do regime de Bretton Woods. O livro está encadeado, assim, pela descrição dos antecedentes que dão surgimento à besta ianque, passando pelo seu período áureo, até chegar a 2008, quando esta é praticamente ferida de morte.

Sua concisa e didática história do capitalismo mundial é aqui dividida em três grandes eras. Primeiro, da revolução industrial até 1945 – período que inclui a crise financeira mundial de 1929 e as duas grandes guerras. Em seguida, o boom do pós-guerra, ou os “anos gloriosos” do capitalismo mundial, período que vai de 1945 até 1971. A esse período dá o nome de “Plano Global”, quando os EUA se tornam a maior economia superavitária a ocupar o centro da ordem econômica internacional.

O Minotauro Global – A Verdadeira Origem Da Crise Financeira E O Futuro Da Economia GlobalFinalmente, aparece o “Minotauro Global”, a era das altas finanças, de 1971 a 2008, quando os EUA se tornam uma grande economia deficitária, mantendo, de forma renovada, sua mesma posição central.

O fio condutor ao longo deste verdadeiro tour de force é a tese de que o capitalismo não pode funcionar de maneira minimamente estável sem dispor de um Mecanismo Geral de Reciclagem de Excedentes (MGRE).

Partindo da ideia de que as economias tendem a observar diferenciais de produtividade inerentes às diferenças setoriais e regionais, o autor sustenta que, diante deste fato, e a bem de uma composição comercial mais ou menos equilibrada, faz-se necessário a construção de mecanismos que permitam investir lucrativamente os excedentes acumulados nas regiões e setores superavitários em suas contrapartes tendencialmente deficitárias (“das áreas urbanas para as rurais, das mais desenvolvidas para as menos desenvolvidas”, etc.).

No interior de uma economia nacional, isso é feito por meio de unidade fiscal, que possibilita a realização de transferências da União (em bens, serviços, infraestrutura, isenções, incentivos, sistemas de seguridade e saúde) em prol dos Estados e regiões menos vigorosas economicamente. Entre as economias nacionais, distintamente, as diferentes taxas de câmbio, a depender das condições, podem igualmente constituir um mecanismo natural de reciclagem.

Tanto o “Plano Global” quanto o “Minotauro”, pontos altos da narrativa, são, em verdade, arranjos sustentados em formas distintas de MGRE (o primeiro tendo nos EUA um imenso polo superavitário, o segundo, seu inverso, tendo neste um polo deficitário). Vejamos.

Tendo vivido e aprendido com a catástrofe econômica de 1929, que só seria plenamente debelada, de acordo com o autor, graças à enorme destruição produzida pela Segunda Guerra Mundial, os idealizadores estadunidenses do “Plano Global” aproveitaram a enorme oportunidade com a qual se depararam ao fim do conflito para desenhar uma nova ordem.

Esta deveria, ao mesmo tempo em que funcionasse de modo a impedir grandes desequilíbrios que levassem à eclosão de uma nova crise global, servir para cristalizar sua nova posição hegemônica no interior do “mundo livre”.

Assim, com base em muitas das prescrições keynesianas, a Conferência de Bretton Woods deu nascimento a um sistema de governança econômica global que levou à criação do Fundo Monetário Internacional (FMI), do Banco Internacional para Reconstrução e Desenvolvimento (BIRD), e a constituição de um sistema de administração cambial que fixava os percentuais de flutuação das taxas de câmbio dos demais países em relação ao dólar, e deste ao ouro – com a consequente conversibilidade direta do dólar em ouro.

No entanto, devido à oposição do novo hegemon, algumas das mais importantes (e ousadas) propostas de Keynes ficariam de fora do novo arranjo: a criação de uma União Internacional de Divisas, um Banco Central Internacional e uma moeda única a ser utilizada em transações comerciais entre nações (o Bancor), que objetivavam a constituição de uma governança econômica multilateral equilibrada, durável, e politicamente compartilhada. A razão da recusa não era nada ocasional: os EUA queriam eles mesmos, e através de sua própria moeda, coordenar a nova ordem econômica mundial.

Lehman Brothers
A antiga sede do Lehman Brothers na Times Square: a quebra do banco simbolizou a crise (Foto: David Shankbone / Wikimedia Commons)
Seguindo seu próprio “Plano Global”, a maior economia superavitária do planeta passou, a bem da garantia de sustentabilidade do novo arranjo, a investir seus enormes excedentes na reconstrução dos países arrasados pela guerra. Esse investimento permitia ainda sustentar a demanda por seus produtos e a lucratividade dos capitais invertidos.

De modo a constituir zonas regionais para o amortecimento de eventuais choques econômicos globais, os arrasados e humilhados Alemanha e Japão foram escolhidos como “pupilos” – destinos preferenciais do mais generoso suporte político e econômico americano.

Enquanto eram incentivados a fortalecer suas zonas econômicas e moedas regionais, estes dois países sustentavam a penetração e fortalecimento acelerado do dólar como dinheiro mundial. Um MGRE, sustentado no “privilégio exorbitante” do dólar, estava garantido e, com ele, a “idade de ouro” do capitalismo regulado nos países do capitalismo central.

Contudo, tal ordem de coisas só poderia permanecer inabalável sob uma condição: a de que os EUA seguissem indefinidamente como uma economia superavitária. Apesar de seus idealizadores não terem considerado a sério a insustentabilidade de tal prospecto, foi exatamente isso que ficou patente a partir do início da década de 1970: os déficits americanos crescentes passaram a atentar contra o próprio arranjo que o país havia ajudado a conceber em seu favor.

Entre outros aspectos, a expansão monetária vinculada ao aumento de gastos do governo americano redundou na desvalorização de sua moeda. Vinculada à exportação de dólares para outros países e à consequente valorização das moedas nacionais destes, emergiram questionamentos sobre a real garantia de convertibilidade ouro-dólar então vigente. O “Plano Global” estava sob ameaça.

Diante de novos e sonoros questionamentos a sua posição “privilegiada”, os Estados Unidos responderam com ações enérgicas e medidas drásticas, uma espécie de “desintegração planejada da economia mundial”: o rompimento unilateral do acordo de Bretton Woods, com a quebra da conversibilidade ouro/dólar.

A depreciação do dólar que se seguiu representou um duro golpe nas exportações japonesas e europeias. Mas dado que todos estavam a esta altura já presos ao dólar como moeda de reserva global, pouco restava a fazer. A posição que os americanos haviam construído estava garantida, e agora em bases renovadas. “A moeda é nossa. O problema é de vocês”. Começava, sob o tacão deste grande choque, a nova era do “Minotauro Global”.

Com seu nascimento, os EUA mostraram ao mundo que, contanto que fossem capazes de controlar a moeda mundial, que lhes permitiria continuar reciclando o excedente econômico global, ao mesmo tempo em que se mantivesse como a maior e mais importante força no comércio internacional, pouco importava ser uma economia superavitária ou deficitária. O que o mundo viu acontecer na era pós-1971 foi, então, uma reversão do fluxo comercial e dos excedentes de capital entre os Estados Unidos e os demais países.

Sob um sistema monetário e financeiro internacional hegemonizado pelo dólar flexível, os EUA converteram-se, assim, no grande polo de um novo MGRE às avessas: funcionando como uma espécie de “consumidor de primeira instância”, o enorme corpo gravitacional de seus déficits gêmeos (comercial e orçamentário) passou a servir como força de atração para o (re)investimento dos excedentes acumulados em outras regiões do globo. Para se ter uma ideia da dimensão deste movimento, no início dos anos 2000, pouco antes da crise, mais de 70% das saídas globais de capitais tinham os EUA como destino final.

Wall Street
Wall Street: ali a crise foi catalisada (Foto: Alex Proimos / Wikimedia Commons)

Somadas ao seu poder geopolítico e à manutenção do dólar como moeda de reserva mundial, duas tarefas foram necessárias ainda para que o movimento global de capitais se configurasse e se comportasse exatamente sob esse padrão: de um lado uma recuperação da competitividade das empresas americanas face, especialmente, às alemãs e japonesas, de outro a elevação da taxa de juros paga aos títulos de sua dívida soberana.

Como isso foi alcançado é de amplo conhecimento. À enorme redução dos custos do trabalho nos EUA somou-se a crise do petróleo (estimulada pelo próprio governo americano, segundo Varoufakis), que afetou de modo especial aos dependentes Japão e Alemanha, que não dispunham de produção própria significativa.

Na outra ponta, as taxas de juros foram paulatinamente elevadas ao longo da década, até alcançarem níveis recordes em 1979 – uma verdadeira catástrofe para países endividados em dólar, como os latino-americanos e europeus do leste. A metamorfose havia sido concluída.

Mas ao conseguir emplacar mais este feito notável, o sucesso trágico de Washington, ao mesmo tempo em que reforçou seu domínio, implantou as sementes de sua própria desgraça: uma expansão financeira sem precedentes. Sob a direção dos “serviçais do Minotauro” (as teorias tóxicas, Wall Street, o sistema Walmart e as políticas da trickle-down economics), as décadas de financeirização acelerada sob esse equilíbrio desequilibrado redundaram, por fim, na hecatombe de 2008.

Enquanto absorvia uma imensidão de capitais vindos de todas as partes, Wall Street, livre de regulamentações, barreiras e constrangimentos políticos de outrora, se encarregava de ativar uma verdadeira farra desvairada de criação de dinheiro privado por meio de ativos tóxicos.

Fusões e aquisições alavancadas por bolhas financeiras e a circulação de capital fictício em quantidade inimaginável encontram-se, especialmente ao longo das últimas duas décadas, com a concessão de hipotecas e a enorme expansão de crédito pessoal para aqueles mesmos trabalhadores que não percebiam aumento real em seus salários desde 1973. Ativado por essa espantosa criação, o consumo sustentado parecia indicar que tudo estava indo muito bem obrigado.

Até as vésperas da crise, Wall Street, com todas as suas gambiarras e “inovações financeiras”, atraiu capital mundial suficiente para reciclar a contento os excedentes obtidos pelos demais países. Enquanto isso, os desequilíbrios no comércio internacional seguiam se ampliando.

Quando a música parou, o número de cadeiras era pequeno demais diante daqueles que circulavam freneticamente em seu redor. O dinheiro privado evaporou, e o sistema bancário quebrou. O resto é história (descrita no livro, aliás, em minúcias).

Desde então agonizante, gravemente ferido, o Minotauro, avalia Varoufakis, não é mais capaz dos feitos de outrora: sua demanda por bens e serviços já não é mais a mesma, e tampouco Wall Street tem sido capaz, mesmo diante da astúcia em manter-se no comando, de gerar a enorme quantidade de dinheiro privado que outrora sustentou a escalada de consumo e investimento.

Em consequência, com Europa, Japão e China em marcha lenta, os exportadores de commodities e produtos primários são juntos arrastados para o rosário de agonias do mundo pós-2008, um mundo de desesperança e acelerada desagregação política e social.                 

*Edemilson Paraná é sociólogo, doutorando em sociologia pela Universidade de Brasília (UnB), autor do livro “A Finança Digitalizada: capitalismo financeiro e revolução informacional” (Ed. Insular, 2016).