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Vá plantar batatas!

por Rui Daher publicado 08/11/2013 11h24
No campo de plantio, em Mococa, vejo dezenas de trabalhadores com panos ou camisetas enrolados sob os bonés. Espalham-se por 200 mil hectares do Brasil

Já mandaram você plantar batatas, recitar “batatinha quando nasce”, ou numa cerimônia anunciarem: “ao vencedor, as batatas”? Penso que não.

Se agricultores fossem, teria certeza que sim, e nem se negariam aos penosos desafios. Veriam beleza no verso da vida nascendo. Valorizariam os prêmios que Machado de Assis (1839-1908) personalizou em “Quincas Borba”, por saberem estar ajudando à sobrevivência humana.

Atravesso campo de plantio de batatas, perto de Mococa (SP). Lá, dezenas de homens e mulheres em estilo fashion. Panos ou camisetas enrolados sob os bonés, calças batidas, botinas desgastadas, perfume essência suor.

Aceitaram a provocação de quem os mandou plantar batatas. Muitos fazem o mesmo em mais de 200 mil hectares brasileiros.

Naquele dia, já tinham decidido entre Ágata, Asterix ou Monalisa. Lutariam cerca de 150 dias para alimentá-las, protegê-las de pragas, doenças e seguirem os manejos e tratos culturais mais adequados.

Ao final, colheriam parte dos 4 milhões de toneladas que o Brasil produz e, talvez, vendessem os tubérculos, no atacado, a R$ 100,00 o saco de 50 kg. Fariam William e Patrícia, no Jornal Nacional, arregalarem os olhos para a inflação “da batata”.

Na minha primeira coluna em CartaCapital, dispus-me tratar as nuances da agropecuária. Ofereci imagem de sambas de dois gênios: Paulinho da Viola “vista assim do alto, mais parece um céu no chão”; Zé Kéti “acender as velas já é profissão, quando não tem samba, tem desilusão”.

Maravilhas e mazelas, pois. Penso que o fiz, ao tatear conquistas excepcionais e deficiências esdrúxulas.

Nesses helicópteros sem asas e microscópios de lente nublada, no entanto, acho que falei pouco dos homens e mulheres que vivem disso. Talvez, eles nem precisem. Ainda mais se para reproduzir os equívocos como as folhas e telas cotidianas os classificam.

Fazem o agro chorar e “pedir ajuda aos publicitários”, e de situações comuns e consolidadas, cavalos de batalhas conjunturais que atendem apenas interesses corporativos.

Insisto: há uma coexistência benéfica na diversidade de escolhas feitas pela agropecuária. Isto é erroneamente visto como falta de planejamento e mal comparados a países de secular poder industrial e diferentes matrizes de tecnologia. Mais: exclusivamente dirigidos aos ganhos econômicos, poderes armamentistas e destruição do meio ambiente.

Atores de pequenas propriedades em busca de subsistência, movimentos dos sem terra, arrendatários médios, assentados rurais, empresários do agronegócio, mesmo quando em refregas pontuais ou pressionando para baratear seus fatores de produção, nos deixaram uma regionalização autóctone, não caótica, que constituiu defesas comuns diante de imperiais vendedores de insumos e compradores de produtos da cadeia primária.

Essa cadeia, apesar de ainda desequilibrada em suas forças, repele esparrelas, antes tão comuns, como fossem tiriricas.

Nas duas últimas semanas vi disso tudo, em estados como São Paulo, Minas Gerais e Paraná.

Os plantios, já bastante adiantados correm muito bem, o que prenuncia safra e receita gorda, fato já confirmado por CONAB e IBGE.

Vi mulheres sendo treinadas e contratadas para operar plantadeiras e colheitadeiras de grande porte. Estudos mostram que elas ampliam o desempenho do maquinário e cuidam mais da manutenção e gastos de pneus.

Vi pequenos agricultores passarem 14 horas manejando suas lavouras e, banho tomado cabelo penteado, seguirem à noite, para lotarem cursos e palestras sobre novas tecnologias e práticas de agricultura de baixo impacto. Ainda que o churrasco e a cerveja, no final, fosse motivador da grande presença.

Vi área de 400 hectares de soja ser trabalhada pelo proprietário, seus filhos e dois sobrinhos. Não seria agricultura familiar?

Vi outros 300 hectares de soja e feijão tocados por um só arrendatário. Não temos aí um sem-terra?

Enfim, essas diversidades e ginásticas, cumpridas para sobreviver, é que fizeram a produção agrícola brasileira chegar ao estágio atual.

Tá tudo bem, então? O chatinho deixou de reclamar para ver tudo com óculos de lente cor-de-rosa? Resolveu aderir à Federação de Corporações Brasil? Ser convidado para cargo na próxima diretoria da CNA?

Nada disso. Apenas reconheço no campo uma efervescência do bem que, exceto os ciclos eternos e específicos das culturas bola da vez, tem dado um jeito no país.

Claro que falta muito.

Não de pode manter um proletariado junto aos principais polos da agropecuária, desassistido por governo e iniciativa privada.

Não se pode entender pesquisa e desenvolvimento de inovação tecnológica como número de trabalhos publicados que atendem apenas vaidades pessoais.

Não é possível gerir leis essenciais para a atividade baseados em organizações de governo anacrônicas, medrosas, pautadas pelo comodismo e aparelhadas pela política.

Logo volto a mandar pau em tudo isso. Mas hoje escrevi feliz.

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