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Perigo imaginário?

Uribe quer cabeça do chefe das Farc no fim do mandato, vê especialista

por Paolo Manzo — publicado 04/08/2010 12h35, última modificação 05/08/2010 11h06
Em entrevista exclusiva, Guido Piccoli diz por que o Álvaro Uribe quer mostrar força contra a guerrilha no apagar das luzes
Uribe quer a cabeça do chefe das Farc no fim do mandato

CartaCapital conversou com o maior especialista no assunto na Europa, o escritor e jornalista italiano Guido Piccoli. Segundo ele, a força das Farc diminuiu substancialmente nos últimos tempos, mas a guerrilha ainda está viva e sob o comando de Alfonso Cano. Foto: Scott Dalton/AP

Em entrevista exclusiva, Guido Piccoli diz por que o Álvaro Uribe quer mostrar força contra a guerrilha no apagar das luzes

A “ameaça” das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia, as Farc, voltou a ser ventilada pelos ares da América do Sul. Mais perto da zona de batalha, a Venezuela rompeu relações com a Colômbia do presidente Álvaro Uribe, após ser acusada de abrigar acampamentos dos guerrilheiros. Mais distante, na guerra política brasileira, o candidato a vice-presidente da chapa do tucano José Serra, Índio da Costa, apelou para um suposto conhecimento universal de relações escusas de seus adversários: “Todo mundo sabe que o PT é ligado às Farc, ligado ao narcotráfico, ligado ao que há de pior”.

Mas, afinal, o que exatamente representam as Farc hoje? CartaCapital conversou com o maior especialista no assunto na Europa, o escritor e jornalista italiano Guido Piccoli. Segundo ele, a força das Farc diminuiu substancialmente nos últimos tempos, mas a guerrilha ainda está viva: “Houve derrotas clamorosas, como a libertação da Ingrid Betancourt, mas as Farc estão bem longe de ser consideradas acabadas”.

Quanto ao aumento da tensão entre Colômbia e Venezuela, o especialista italiano é taxativo: Uribe está com medo. Segundo Piccoli, o presidente colombiano, que deixa o cargo no próximo sábado 7, sabe que pode ser processado, assim como o ex-presidente iugoslavo Slobodan Milosevic, por estimular o surgimento dos grupos paramilitares no país e pelos crimes “falsos positivos”, cometidos pelo exército durante seu mandato.

A matéria completa você encontra na edição 607 de CartaCapital que está nas bancas. Aqui no site, leia a íntegra da entrevista com Piccoli:

CartaCapital: O senhor é o mais conceituado “expert” europeu sobre as Farc, e um dos maiores do mundo. Afinal, o que são “las Fuerzas Armadas Revolucionarias de Colombia”?
Guido Piccoli
: Apesar da campanha de desinformação feita pelo governo colombiano, e principalmente pelos Estados Unidos, é aceito universalmente que as Farc são um grupo rebelde que se reforçou no decorrer das décadas, tem mais de 45 anos de vida e se estabeleceu num país onde a democracia é apenas aparente, onde não há justiça social. A Colômbia é um dos quatro países com a maior injustiça social no mundo.

CC: Quantos são os membros “combatentes” das Farc?
GP:
Chegaram, no passado às 20 mil unidades. Agora, são muito menos, mas com toda a certeza são 10 mil elementos espalhados um pouco em todo o território.

CC: A guerrilha é financiada com dinheiro das drogas?
GP:
Para tornar apta ao combate esta massa de pessoas é necessário dinheiro que, obviamente, provém de várias atividades, todas ilícitas. Uma das atividades é o narcotráfico, relativo, porém, apenas ao controle da primeira fase da cocaína. Apesar de tudo o que se fala, as grandes operações do narcotráfico nunca tiveram as Farc envolvidas, enquanto havia os paramilitares.

CC: Além do narcotráfico, quais são hoje as principais fontes de financiamento das Farc?
GP:
Os meios de financiamento das Farc são todos ilícitos. Não vale pensar que haja um meio lícito para a guerrilha, já que aquelas que as Farc chamam de ‘taxas revolucionária’ são na realidade quantias relacionadas ao furto de gado e ao sequestro de pessoas.

CC: Quando as Farc alcançaram o ápice?
GP:
O fortalecimento alcançou o seu ponto mais alto antes do governo Uribe, quando aconteceram três anos de negociações bem pouco sinceras entre as duas partes, aqueles com [Andrés] Pastrana entre 1999 e 2002.

CC: Em seguida, com Uribe, o que aconteceu?
GP:
Começou a contenção, que se deu principalmente pelo fato de uma guerra de guerrilha ser sempre uma guerra assimétrica. De um lado, há a potência militar e, do outro, há a tática de guerrilha. Com Uribe houve um aumento despropositado das despesas militares e foram utilizadas novas tecnologias de interceptação das telecomunicações, fundamentais para um grupo que é tão espalhado em todo o território nacional. Também entrou em cena a tecnologia aérea, obrigando as Farc a retirar-se para territórios mais isolados, longe das cidades, não conseguindo mais realizar aquelas demonstrações de forças feitas até dez anos atrás. Nas últimas vezes que isso se deu, os aviões em poucos minutos apareceram, exterminando muitos membros das Farc. No entanto, não se deve pensar que eles estejam para ser extintos. Houve derrotas clamorosas, como a libertação da Ingrid Betancourt, mas as Farc estão bem longe de ser consideradas acabadas.

CC: O que o senhor pensa sobre as declarações do comandante em chefe das tropas americanas na América Latina, para quem “as Farc são um ex-problema”?
GP:
Uma estupidez. Que houve uma retirada, não existe dúvida. As guerras não são vencidas, que eu saiba, com os bombardeios de precisão. As guerras são vencidas no território, conquistando o coração e as mentes das populações, como diz um manual do Pentágono. O problema é que para os corações e as mentes da população, assim como no Afeganistão, é evidente também na Colômbia que o exército é o maior violador dos direitos humanos. É um exercito acostumado a uma forma de agir criminosa. Por isso nunca poderá vencer, porque os camponeses têm mais pavor do exército do que das Farc. Para confirmar isso, basta lembrar os últimos crimes, aqueles dos “falsos positivos”.

CC: Do que se trataram?
GP:
Os falsos positivos representam um crime absoluto do exército colombiano sobre o qual ninguém ou quase ninguém escreve no Brasil. Foram mortas milhares e milhares de pessoas, mesmo sabendo de sua inocência.

CC: Porque foram mortas?
GP:
Porque seus cadáveres serviam para receber prêmios, licenças-prêmio ou porque serviam a Uribe para dizer que estava vencendo a guerra. Eles os mataram para fazê-los passar como combatentes da Farc, mortos no decorrer de combates com o exército.

CC: Como funcionava?
GP:
O militar mata 15 camponeses. Em seguida, no seu relatório, afirma que eram combatentes das Farc e automaticamente é promovido. Tudo nasce do alto, porque existiam indicações de que seriam recompensados pelos cadáveres para incentivar a luta contra a subversão. Ou seja, era oferecida uma certa quantia para cada cadáver. Obviamente, se você não consegue ter um cadáver de um guerrilheiro da Farc, você finge que o seja, para obter a recompensa. Existe um documentário bastante interessante que saiu este ano e que se chama “Falsos positivos”. É impressionante e explica bem o caso.

CC: Há um problema de liderança nas Farc?
GP:
Não. Parece-me que Cano substituiu Marulanda e Reyes, e é uma figura que talvez tenha menos carisma, mas que em relação a Tirofijo é mais lúcido em procurar compreender a estrada sem saída na qual se enfiaram. Se as Farc não encontram uma relação com algo que se movimenta no plano político, podem resistir por séculos e séculos, mas não incomodarão mais tanto o poder. Também por isso diminuiu o número de sequestros.

CC: Mas a diminuição dos sequestros não se deu por uma maior ação do governo?
GP:
Também, mas foi principalmente por uma decisão deles. É um pouco como em Israel, onde o Hamas não realiza mais tantos atentados suicidas. É também pelo muro, mas principalmente porque o grupo assim decidiu.

CC: O que acontecerá até o dia 7 de agosto, quando Uribe dará lugar a Santos?
GP:
É um período perigosíssimo, mas não pelo risco de guerra entre Venezuela e Colômbia. Perigoso porque Uribe irá querer mostrar a sua força. Quando assumiu a presidência em 2002, ele prometeu que acabaria com as Farc em poucos meses. Depois de 8 anos, ainda estão aí. É claro que houve alguns sucessos, porém, substancialmente, se mostrasse a cabeça de Cano seria para ele uma grande vitória.

CC: Por que Uribe aumentou o nível do choque com a Venezuela alguns dias antes de deixar a presidência?
GP:
Os dois têm histórias diferentes. Santos representa os interesses da oligarquia, a sua família é uma das mais poderosas do país, enquanto a de Uribe pertence aos novos ricos, os chamados “parvenu” mafiosos colombianos. Uribe aumentou o nível do choque com a Venezuela porque, substancialmente, enxerga que está em perigo. Sabe que pelas coisas que realizou pode ser processado pelo Tribunal Penal Internacional, como Slobodan Milosevic [ex-presidente da antiga Iugoslávia].

CC: Afinal, quem é Uribe?
GP:
É o propulsor da privatização do uso da força. Desde sempre procurou envolver a população, organizando os carrascos privados em cooperativas reconhecidas e facilitando o paramilitarismo. Em seguida, depois de usá-los, procurou colocar um fim, mas, como sempre nestes casos, abriram-se as contradições entre o servo e o patrão. Os servos se rebelaram, porque aspiravam a uma total impunidade. Uribe, no fim, a teria concedido, mas não foi possível e ele enviou os chefes paramilitares acusados de narcotráfico aos Estado Unidos,  contanto que não falassem. O problema para ele é que começaram a falar e apareceu uma parte dos crimes cometidos por vários políticos, incluindo Uribe, seus parentes, um primo e um irmão.