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Brasiliana

Uma nova classe rural

por Samantha Maia — publicado 19/11/2012 16h00, última modificação 01/05/2013 19h52
Jovens do sul da Bahia escolhem vivem na área rural e garantem: não querem ser assalariados, mas sim produtores
Valmir

"A vida de criança no campo é boa", diz Valmir, em sua plantação de alface. Foto: Gabriela Vasconcellos

De Presidente Tancredo Neves (BA)*

Eles são filhos do campo. Começaram a lavrar a terra quando ainda não diferenciavam a roça de seus brinquedos. Conhecimento antigo carregado por gerações, o trato da lavoura fez parte dos primeiros passos dos jovens estudantes da Casa Familiar Rural de Presidente Tancredo Neves, escola de ensino médio e técnico mantida há dez anos pela Cooperativa de Produtores Rurais locais, a Coopatan, pela Fundação Odebrecht e por empresas parceiras, no município do Baixo Sul da Bahia.

“A vida de criança no campo é boa”, diz Valmir Santos Miranda, 19 anos, a lembrar da infância em contato com a terra, das brincadeiras. “Até abrir a cabeça para o que o mundo é mesmo”, conclui o moço de fala pausada, quase didática, que sabe o que é vir de uma família de sete irmãos e parcos recursos.

Com a idade, vem a consciência da miséria, e a falta de perspectiva empurra muitos jovens para a vida urbana. A cidade de Presidente Tancredo Neves é paradisíaca em sua natureza, mas impiedosa com a maioria de seus 23 mil habitantes. A pobreza na região de economia agrícola contrasta a natureza e serviços desfrutados pelos turistas com o cotidiano duro da população, onde até 70% das famílias de agricultores dependem do programa federal Bolsa Família.

Foi no projeto de ensino de alternância da Casa Familiar, onde os alunos ficam uma semana na escola e duas em casa, que jovens tancredenses encontraram os primeiros matizes para esboçar uma nova realidade de enraizamento em suas terras. Eles não querem ser empregados, nem ir para a cidade. Buscam nos conhecimentos técnicos a estrutura que seus pais não tiveram para conseguir uma vida digna no campo. É o sonho de ser uma classe média rural.

“Eu não gosto da cidade, o ar me sufoca", diz Valmir, sem saudades das poucas visitas à capital Salvador. Trabalhador do campo desde os oito anos, hoje cursa o primeiro ano do ensino médio com técnico em agropecuária na Casa Familiar. Nos dias passados na escola, a rotina é apertada. As aulas começam às sete da manhã e vão até às dez da noite, numa grade que integra as disciplinas comuns com os ensinamentos de técnicas agrícolas. Há intervalos apenas para almoço e para uma pausa no fim da tarde.

Uma horta orgânica em forma de mandala, com um galinheiro ao centro, ocupa uma área na entrada da propriedade da família de Valmir. A iniciativa, desenvolvida no período de alternância, é incentivada pela Embrapa e pela Fundação Banco do Brasil. “É tudo com adubo orgânico, não vai química nenhuma.” As hortaliças fartas e as alfaces de verde vivo exibem o sucesso da empreitada que provou aos mais antigos que o controle de pragas pode trazer melhores resultados sem os fertilizantes químicos.

Para aplicar o que aprendem na escola, muitas vezes é preciso “bater de testa com os pais”, contam alguns alunos na gíria local. Diante da tradição carregada pela família no trabalho da roça, os alunos pedem passagem para as novas técnicas. Reservam para si uma parte da lavoura para usar o que aprenderam na escola e, ao longo do tempo, comparam resultados com a área plantada pelos pais. “Não adianta falar que o jeito que meu pai sempre fez é errado, é preciso mostrar na prática o que dá maior rendimento”, diz o aluno Ednaldo, da turma de Valmir.

Essas crianças amadurecidas cedo na lida têm o olhar duro, calejado. A capacitação técnica dos 150 jovens já formados na casa familiar, e dos mais 100 em formação, os tornou referência local. Um laboratório instalado na casa familiar realiza análise de solo para agricultores da região, indicando o tratamento adequado por 25 reais. Não raro os alunos são abordados por vizinhos para tirar dúvidas sobre o manejo das lavouras. Quando não sabem a resposta, procuram a orientação dos professores.

O resultado do trabalho nas propriedades dos alunos também chama atenção da população local. A aluna Maurícia, moradora de um assentamento do Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST) na região, desenvolveu, como Valmir, o sistema de horta em mandala e hoje vende produtos para a comunidade. “As pessoas comentam quando veem a gente passar com o uniforme. E pensam que não é só a zona urbana que dá retorno financeiro. Aqui também”, diz a menina contente em ver seu mundo pessoal valer a pena.

Convencer os pais de que era bom ficar numa escola que permite passar duas semanas seguidas em casa foi outra tarefa difícil. No caso de Andreza, colega de Maurícia no assentamento do MST, os monitores precisaram ir até a sua casa para explicar à família do que se tratava o inusitado projeto educacional. “Insisti no que eu queria. Hoje meu avô diz que eu sou o orgulho da família”, conta a menina com as botas sujas de terra.

Conseguir uma vaga na casa familiar não é uma tarefa simples. A equipe de monitores, sete engenheiros agrônomos com licenciatura, procuram um perfil certo de quem tem habilidade com agricultura e família com terra disponível para as atividades. No último processo seletivo, foram 323 inscritos para 38 vagas. Do total, apenas 120 foram selecionados para fazer as provas, após visitas dos monitores às casas. A avaliação escrita filtrou 60 dos candidatos para um período de três dias de experiência, e ao fim, 38 foram escolhidos. “Buscamos a história da pessoa, se ela tem o espírito de servir e viver em comunidade”, diz a monitora Rita Cardoso.

Juscelino Macedo, 30 anos, líder da Aliança Cooperativa Estratégica da Mandioca, que reúne a Coopetan e a Casa Familiar Rural de Presidente Tancredo Neves, já sabia o que era contestar as verdades tradicionais. Viu seu pai perder muito dinheiro com a quebra das safras de mandioca de 1997/1998, que atingiu toda a região, e defendeu a importância da criação de uma cooperativa para os produtores locais, apesar de seu pai ver a iniciativa com desconfiança. Aos 18 anos, Juscelino já era um cooperado. “Os produtores se uniram pela dor, para poder resolver os seus problemas”, conta o rapaz atarefado com as demandas da entidade.

A cooperativa foi além da mandioca. Cortou intermediários com o comércio e hoje beneficia a matéria-prima numa fábrica de farinha e de farelo de folha, construída com recursos do governo da Bahia. Os cooperados também começaram a plantar frutas e, com verbas do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), construíram uma unidade de pré-beneficiamento dos produtos, que permite estocá-los em área refrigerada.

A expectativa é que a cooperativa incremente cada vez mais a produção na cidade e alimente a Casa Familiar, que por sua vez receberá os filhos dos cooperados, que serão os próximos a manter essa estrutura. O desenvolvimento, além de econômico, passa pela reconstrução de valores como a modernidade, o progresso e a qualidade de vida como parte da vida no campo e não mais como atributos exclusivos das cidades. Valmir admite ter vida urbana por uns anos, porém, para fazer a faculdade de agronomia. Mas garante que volta. “Não quero ser assalariado, quero ser produtor.”

 

*A repórter viajou a convite da Fundação Odebrecht