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Um novo ciclo democrático incerto

por Rui Daher publicado 13/03/2015 11h23, última modificação 17/06/2015 17h12
Não comparecerei aos protestos, mas dei alguma contribuição às panelas
Elza Fiúza / Agência Brasil

Escrevo a coluna na quinta-feira, 12 de março. À minha frente, vejo um imenso canavial. A gramínea, finalmente rediviva com as chuvas recentes, quando pronta para o corte, não decidirá sobre o que irá ser, açúcar ou álcool. Sem tal responsabilidade, resta-lhe a certeza de proporcionar boas ou más energias a quem vaticinar seu destino.

Lembro o estigma do setor canavieiro, desde o Proálcool, ora mal acostumado pela proteção do Estado, ora por ele impiedosamente massacrado. Uma montanha-russa de sucessos e fracassos que levaram da riqueza à ruína famílias tradicionais.

É como pressinto o meu destino e o do País nos amanhãs 13, 15 ou 45, quando começar a conflagração e este texto tiver “subido” ao site de CartaCapital, como é uso falar no jargão digital.

Como a cana-de-açúcar, estaremos mais uma vez fadados às incertezas dos ciclos democráticos ceifados por golpes de Estado. Alguém já escreveu que a história se repete, primeiro como tragédia e depois como farsa.

Antes, porém, da catástrofe nacional preconizada pelo mau hálito das folhas e telas cotidianas, o vento do entardecer faz o som da lavoura moderna chegar à varanda da casa de um amigo agrônomo, esalquiano orgânico roxo, de onde escrevo.

Vem ao papo o almoço caipira, comido a quilo com um grupo de agro negociadores, e a idosa dona do estabelecimento que, sorriso aberto, pesa o meu prato e sussurra para mim: “não deixe de experimentar a cachaça artesanal que sai daqui”. Devo ter-me entregado e, sem arrependimento ou medo à exposição, provecto e sério que a idade me faz parecer, aceito a provocação.

O olhar triste e tímido, mas não desalentado, de outro agrônomo, baita técnico, formado em Pinhal, com quem conversáramos num shopping da cidade.

Curioso. Hoje em dia, esses encontros ocorrem não mais em escritórios simples ou suntuosos, mas em cafés, lanchonetes e restaurantes desses templos do consumo espalhados pelas cidades brasileiras. Um olho no computador outro nas meninas que passam.

Passamos pelos custos de produção na agropecuária, tema da semana passada, que a cotação da moeda verde aterroriza, fazendo passar despercebidas tecnologias completamente nacionais, não dolarizadas, capazes de substituir com vantagens os insumos importados.

Rimos dos velhos barões da indústria nacional de fertilizantes, nossos antigos patrões, absorvidos ou assassinados em guilhotinas globalizadas.

Naquela varanda, somente quando a noite já se fazia madrugada e uma garrafa da preciosidade do almoço chegava ao final, lembramos o absurdo de nosso sossego. Afinal, não viveríamos num país conflagrado?

Não estaríamos voltando ao dia 13 de março de 1964, quando no Rio de Janeiro uma multidão de 150 mil pessoas se reuniu em frente à Estação da Central do Brasil para ouvir o presidente João Goulart anunciar reformas sociais que ameaçariam o acordo secular de elites que manda na Federação de Corporações?

Seis dias depois, essas mesmas elites, organizadas pelos atores de sempre, não revidariam e marchariam, com medo de perder seus anéis paulistas, com a Família, Deus (que não sei se soube disso) pela Liberdade, duas semanas depois suprimida por 21 anos?

Poucas diferenças nas farsas: de reaças para coxas; de Vandré para Racionais MC´s.

Eu, o amigo, a varanda e o canavial não compareceremos aos atos. Não deixarei, no entanto, de enviar a minha contribuição às panelas.

Depois de dois anos, hoje, eu e uma bonita equipe completamos a reestruturação de uma empresa de adubos alternativos à beira da falência. Anunciamos seu retorno operacional aos 12 empregados que haviam ficado sem emprego.

A isso deveriam servir os panelaços, senhoras e senhores. Não às alegrias dissimuladas que percebo no rosto de empresários quando lamentam a crise atual, suas eternas amásias.

Não se diz que por trás de um grande homem há sempre uma grande mulher? Quem sabe essas poderosas Dorothy Crises não lhes prestam inestimáveis serviços de alcova, no 15º andar do Edifício Cayman Royal Bank?

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