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Um mar de etanol

por Gerson Freitas Jr — publicado 06/09/2010 16h43, última modificação 14/09/2010 17h33
A ETH, da Odebrecht, inaugura usina de 1 bilhão de reais para gerar, além do álcool, energia capaz de abastecer uma cidade de 600 mil habitantes
Um mar de etanol

A ETH, da Odebrecht, inaugura usina de 1 bilhão de reais para gerar, além do álcool, energia capaz de abastecer uma cidade de 600 mil habitantes. Por Gérson Freitas Jr., de Mineiros (GO). Foto: Olga Vlahou

Os imensos canaviais entrecortados por estradas estreitas de terra vermelha são novidade na paisagem da cidade- de Mineiros, município a sudoeste de Goiás,- a 420 quilômetros da capital. Até três anos atrás, o cenário era dominado preponderantemente pelas pastagens. Em uma dessas plantações, Evandro de Carvalho, 23 anos, conduz uma colheitadeira de alta precisão, capaz de cortar até 900 toneladas de cana por dia, cujo valor gira em torno de 800 mil reais.

Baiano de Baianópolis, um município com menos de 15 mil habitantes no oeste do estado, o ex-servente de pedreiro chegou a Mineiros em 2007. Veio em busca de emprego, trabalhou no plantio, no “veneno” – como chama a pulverização de defensivos agrícolas – e no corte da primeira safra de cana cultivada na região. Treinado pela usina, tornou-se operador de colheita mecanizada, profissão que lhe rende um pagamento superior a 1,2 mil reais por mês. “É bom demais. Tenho emprego, salário, plano de saúde”, celebra o baiano, um sorriso largo no rosto.

A história de Evandro ajuda a ilustrar as transformações pelas quais passa o setor sucroalcooleiro, à medida que a indústria cresce, se moderniza e avança sobre novas fronteiras no Centro-Oeste do País. Em Mineiros, a mudança é recente, começou com a instalação da Usina Morro Vermelho, que entrou em funcionamento no último dia 15 e foi inaugurada na sexta--feira 27, pela ETH Bioenergia, empresa controlada pelo Grupo Odebrecht.

A destilaria, uma das mais modernas e eficientes do País, possui capacidade para processar até 3,8 milhões de toneladas de cana-de-açúcar por ano, volume suficiente para produzir 360 milhões de litros de etanol e 380 gigawatts-hora (GWh) de eletricidade – energia capaz para abastecer uma cidade de 600 mil habitantes – a partir da queima do bagaço da cana em suas duas caldeiras de alta pressão. A previsão é de que, ainda na safra 2010-2011, a Morro Vermelho produza 90 milhões de litros de etanol.

A usina é a primeira unidade da região, batizada pela ETH de “Polo Araguaia”, uma área que se espalha pelos estados de Goiás, Mato Grosso e Mato Grosso do Sul. Em novembro, a companhia vai inaugurar a segunda usina do polo em Alto Taquari (MT), com igual capacidade- de produção. O projeto prevê a instalação de mais duas destilarias, em Costa Rica (MS) e Perolândia (GO), até meados de 2012. Ao todo, o Polo Araguaia- terá -capacidade para processar mais de 15 milhões de toneladas de cana, produzir 1,4 bilhão de litros de etanol e fornecer 1,6 mil GWh de energia elétrica ao ano. Cada destilaria vai demandar uma área plantada de aproximadamente 50 mil hectares de cana. Cerca de 68 mil hectares já foram plantados. “Nossa intenção é avançar 50 mil hectares por ano até 2012”, afirma o superintendente do polo, Fabiano Zillo.

Cerca de 60% da área será operada diretamente pela ETH, em terras próprias e, principalmente, arrendadas. O restante será fornecido diretamente por produtores locais. “Para a ETH, não faz sentido imobilizar capital em terras. Por isso, fazemos um trabalho muito intenso para fomentar o plantio nessas regiões”, afirma Luiz Pereira de Araújo, diretor de pessoas e sustentabilidade da ETH. O executivo afirma que, apesar do forte ritmo de expansão, a cana-de-açúcar não vai ocupar áreas destinadas à produção de alimentos, como soja e milho. “Estamos avançando sobre pastagens degradadas de baixíssima produtividade. Fixamos contratos de 12 anos com os donos da terra, melhoramos a qualidade do solo e aumentamos a produtividade da região”, argumenta.

A nova usina deve gerar, aproximadamente, 1,5 mil empregos diretos, grande parte deles na operação agrícola. Ao todo, o polo deve empregar em torno de 6 mil trabalhadores. Apenas na próxima safra, a ETH estima que vai precisar contratar mais 1,2 mil operadores de máquinas agrícolas. Uma parcela da mão de obra terá de ser formada, projeto que já saiu do papel há alguns meses. Apenas em 2010, a companhia gastou quase 590 mil reais com capacitação e treinamento de pessoal. A empresa negocia ainda a instalação de uma unidade permanente do Senai em Mineiros, a exemplo do que fez em outras três unidades da companhia. “Vamos formar mão de obra qualificada, isso vai atrair mais empresas para esta região”, afirma Araújo.

Ao contrário de grande número de usinas do País, com dimensões mais modestas e planejadas para produzir açúcar e álcool, as novas plantas da ETH estão entre as maiores e foram concebidas para produzir apenas etanol, um mercado muito mais promissor. “O consumo mundial de açúcar cresce apenas marginalmente. Em compensação, o País vai precisar dobrar sua produção de etanol nos próximos anos”, afirma Araújo. Além disso, todas as unidades já possuem caldeiras de alta pressão com o objetivo de produzir energia elétrica excedente. A ETH já tem contratos para fornecer 1,6 mil GWh de eletricidade ao ano a partir de 2012, durante um período de 13 anos. “Trata-se de uma energia a ser gerada durante as estações secas, quando os reservatórios das hidrelétricas ficam pressionados”, destaca Araújo.

Ao concentrar suas unidades industriais em grandes polos de produção, como o do Araguaia, a ETH procura assegurar ganhos de escala. Além disso, pretende reduzir custos com o compartilhamento das estruturas de colheita e transporte. “Conseguimos criar sinergias importantes numa atividade em que o diferencial está no custo de produção”, explica Zillo.

Dois terços do custo de produção da cana-de-açúcar decorrem das atividades de corte e colheita. A ETH também se beneficia pelas características da região, amplamente favoráveis ao cultivo de cana. “Temos um clima muito bem definido, com chuvas concentradas na época do plantio e baixa umidade durante a colheita. Esperamos obter até 100 litros de etanol por tonelada de cana, nos picos de produtividade.” Na média, esse número oscila entre 85 e 90 litros.

As unidades do Polo Araguaia foram projetadas pela Brenco, empresa de bio-energia criada em 2007 por um grupo de investidores célebres, como o ex-presidente do Banco Mundial James Wolfensohn e o indiano Vinod Khosla, da Sun Microsystems, além do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES).

Com a crise nos países desenvolvidos em 2008 e problemas de gestão, a Brenco enfrentou dificuldades financeiras e não conseguiu entregar nenhuma unidade. Em abril deste ano, a companhia foi absorvida em uma fusão com a ETH, que se comprometeu a fazer os aportes necessários para concluir os projetos. Ao todo, serão investidos 3,5 bilhões de reais no polo. Apenas Morro Vermelho consumiu 1 bilhão. “Os projetos da Brenco tinham muita similaridade com os nossos”, afirma Araújo. Hoje, os acionistas da Brenco possuem, aproximadamente, 35% do capital da ETH. O BNDES mantém uma participação de 16%.

Até a inauguração da unidade em Mineiros, a ETH possuía cinco usinas. A empresa, constituída em 2007, começou a produzir com a compra de uma usina em Teodoro Sampaio (SP), naquele mesmo ano, e em Rio Brilhante (MS), em 2008. Em 13 meses, a empresa construiu mais três destilarias, em Nova Alvorada do Sul (MS), Mirante do Paranapanema (SP) e Caçu (GO). Com a instalação das quatro usinas no Araguaia, a ETH terá nove unidades de produção a partir de 2012.

Com isso, sua capacidade de processamento vai saltar de, aproximadamente, 12 milhões para 40 milhões de toneladas de cana-de-açúcar ao ano. A fabricação de etanol, de 920 milhões, deverá atingir a marca de 3 bilhões de litros – aproximadamente 10% de toda a produção brasileira. Além disso, o fornecimento de energia deverá alcançar 2,7 mil GWh disponíveis para venda, descontada a parcela para consumo próprio. “Vamos ser os maiores produtores de etanol e energia elétrica de biomassa do Brasil”, festeja Araújo.

Com a concretização dos planos, o faturamento da ETH deverá praticamente quadruplicar nos próximos anos, alcançando a cifra de 4 bilhões de reais em 2012. Confirmado o prognóstico, o grupo deverá chegar a uma participação de, aproximadamente, 10% no faturamento do Grupo Odebrecht, salto considerável. Hoje, essa proporção é inferior a 2%. Concluído o atual ciclo de investimentos, a empresa deverá ir à Bolsa de Valores para abrir o seu capital. “Cumprida essa etapa, a ETH terá ativos suficientes para se alavancar e dar partida a um novo ciclo de expansão.”