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Um gás a mais no contracheque

por Luiz Antonio Cintra — publicado 20/10/2010 16h45, última modificação 20/10/2010 17h16
O desemprego em queda e o ritmo acelerado do mercado interno abrem espaço para os reajustes acima da inflação. Por Luiz Antonio Cintra
Um gás a mais no contracheque

O desemprego em queda e o ritmo acelerado do mercado interno abrem espaço para os ajustes acima da inflação. Por Luiz Antonio Cintra. Foto: Antonio Scroza/AFP

O desemprego em queda e o ritmo acelerado do mercado interno abrem espaço para os reajustes acima da inflação

Como bem sabem os sindicalistas, uma conjuntura econômica favorável é o caminho mais certeiro para uma campanha salarial bem-sucedida. Na quarta-feira 13, foi a vez de os bancários comprovarem essa antiga premissa dos movimentos sindicais. Eles fecharam com a Federação Nacional dos Bancos (Fenaban) um acordo que reajustará em 7,5% os salários de quem ganha até 5,3 mil reais, após 13 dias de paralisação difusa e de impacto modesto na vida dos brasileiros.

Com efeito, os 3% de aumento acima da inflação foram devidamente festejados pela coordenação do movimento. Em 2009, ainda no rescaldo da crise global, o resultado da campanha salarial foi bem mais modesto: os bancários conseguiram apenas 1,5% de reajuste real, mesmo após uma das greves mais longas em duas- décadas, de quase um mês.

Baixo em termos internacionais, o salário brasileiro é apontado pelas empresas multinacionais como um dos atrativos para os investimentos no mercado nacional, além da perspectiva de crescimento doméstico acima da média global, sustentado também pelos investimentos, mas principalmente pela massa salarial em alta. Responsável por mais de 85% do PIB, o mercado interno em ebulição, segundo os economistas, foi um fator decisivo para o Brasil se recupe-rar da crise eclodida em setembro de 2008. E os salários mais robustos, por sua vez, funcionaram como um colchão para garantir a recuperação acelerada do nível de atividade econômica

De acordo com alguns economistas, no caso dos reajustes salariais entra em questão o fato de o acordo coletivo dos bancários ter ocorrido em meio a outras campanhas de peso e com resultados igualmente positivos para os trabalhadores. Os metalúrgicos de São Paulo, incluindo os trabalhadores do ABC e os de Campinas e região, arrancaram, como os sindicalistas preferem dizer, 10,8% em setembro, reajuste superior à inflação em mais de 5 pontos porcentuais e a melhor negociação em uma década, segundo o sindicato. Conseguiram ainda um abono de 2,2 mil reais por trabalhador. Com 250 mil metalúrgicos sindicalizados no estado de São Paulo, a categoria é referência a muitas, igual a químicos e petroleiros. Funcionam como termômetro para as demais categorias calibrarem as campanhas

Segundo o Departamento Intersindical de Estatísticas e Estudos Socioeconômicos (Dieese), esse movimento já era perceptível entre janeiro e junho deste ano. Das quase 300 campanhas salariais monitoradas pelo Dieese no primeiro semestre, 97% conseguiram ao menos recuperar o poder de compra perdido com a inflação, ou seja, obtiveram no mínimo 4,5% de reajuste nominal. Nas rodadas de negociação salarial de 2009 e 2008, o porcentual com reajuste ao menos igual à inflação foi, respectivamente, de 87% e 93%

O impacto macroeconômico dos reajustes é o que preocupa uma parcela dos especialistas, incluindo alguns da equipe econômica, especialmente aqueles ligados ao Banco Central de Henrique Meirelles. O conjunto dos reajustes negociados, segundo esses especialistas, colocaria em xeque o bom andamento dos índices de inflação, os quais deverão fechar em 2010 e 2011 próximos à meta anual de 4,5%, segundo estima o mercado financeiro

“Aumentos salariais são importantes porque elevam o consumo e o crescimento econômico. Mas, do ponto de vista macroeconômico, é importante que aconteça em linha com os ganhos de produtividade. Caso contrário, a tendência é de que eventuais excessos sejam repassados aos preços”, diz Carlos Hamilton, diretor de Política Econômica do BC. Pondera, porém, que não é possível para o BC estimar os efeitos dos reajustes concedidos sobre setores específicos da economia, já que, nessa perspectiva, o ritmo da inflação é dado pelo conjunto dos setores

Poucos dias antes, representantes da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) haviam se manifestado no mesmo sentido, com o detalhe de que são parte nas negociações, sentados, por sinal, do lado oposto das mesas de negociações. “Acho que essa questão salarial será bomba de efeito retardado”, afirmou o empresário Benjamin Steinbruch, presidente em exercício da Fiesp. “Se nós não cuidarmos, teremos grandes problemas no curtíssimo prazo. Se essa massa salarial fosse usada para prestigiar a produção brasileira, ainda se poderia conviver por algum tempo essa distorção. Mas aumentar os salários no ritmo que estamos vendo para o consumo de produtos importados não faz sentido nenhum.”

A avaliação dos empresários é no mínimo precipitada, senão puramente alarmista, avalia o Dieese e outros economistas que apontam o crescimento da produtividade como sinal de que os acordos selados são parte da “recuperação virtuosa” do poder de compra dos assalariados

Os técnicos do Dieese argumentam que o peso do salário no Brasil ainda é baixo, comparado à realidade dos países desenvolvidos. Enquanto aqui a massa salarial representa cerca de 40% do PIB, nos países ricos essa participação é de aproximadamente 65%, resultando em um mercado doméstico muito mais robusto. Além disso, registra-se uma redução salarial média de 16%, em valores reais, na comparação com dez anos atrás. E, no caso da indústria, as pressões salariais são minimizadas pelo fato de o nível de emprego no setor ainda ser menor que o registrado em agosto de 2008, ou seja, antes do estouro da crise norte-americana. Na ponta do lápis, a Fiesp calcula que faltam criar 16 mil vagas para voltar ao nível anterior

Alguns números divulgados recentemente reforçam a sensação de que os sindicatos continuarão a obter bons resultados. Segundo pesquisa divulgada pela Confederação Nacional da Indústria (CNI), o receio de os trabalhadores do setor perderem o emprego é menor, segundo uma série histórica iniciada em 1996. A CNI estima que o medo do desemprego caiu 9,1% em comparação a setembro de 2009.

A confiança dos trabalhadores tem razão de ser. Neste ano, o País registrará recorde na geração de postos de trabalho com carteira assinada. Nos primeiros sete meses do ano, 1,9 milhão de vagas foram criadas – e a expectativa oficial é chegar aos 2,5 milhões até dezembro, índice que provavelmente será alcançado.