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Economia

Norte do Equador

Um espetáculo de dança e festa

por Rota Inca — publicado 28/07/2010 15h06, última modificação 10/08/2010 15h15
A dança se converte em uma das principais expressões culturais encontradas na viagem pela Rota Inca. A gente é simples como os passos tradicionais. Por Vitor Taveira

A dança se converte em uma das principais expressões culturais encontradas na viagem pela Rota Inca. A gente é simples como os passos tradicionais. Por Vitor Taveira

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A dança se converte na principal expressão cultural dessa viagem pelos caminhos de nossos antepassados sul-americanos. Talvez pela facilidade de organizar em uma pequena comunidade alguns passos que possam representar sua cultura, através da música, da expressão corporal, das roupas típicas e das cores. Talvez porque a dança faça parte de suas festas e as festas são parte irrevogável da vida camponesa.

Alguns desses jovens estrangeiros possivelmente aplaudissem de pé em seus países espetáculos folclóricos apresentados em luxuosos espaços e que representassem a cultura latino-americana. Mas seria difícil imaginar que poderiam estar ali em uma comunidade anônima ao mundo e contemplar a dança espontânea e genuína exibir-se especialmente para eles como os grandes convidados especiais. E o mais incrível seria a oportunidade de ao final de cada espetáculo popular- e podiam chegar a mais de cinco em um mesmo dia- receberem a honra do convite de dançar com os bailarinos e se fazerem também protagonistas.

Dançar com o corpo duro, errar o passo e aprender aos poucos com a generosidade do companheiro, seja criança, jovem, adulto ou idoso, que cresceram ou ainda crescem bailando sua cultura com a mesma naturalidade com que lhe presenteavam um sorriso.

Um baile de senhores vestidos de mulher

A gente é simples como a dança. As histórias se perdem no tempo mas a cultura segue viva. Um exemplo é a Mojiganga, um baile que mistura a cultura indígena e católica no município de Funes, no sul da Colômbia. Trata-se de uma festa em comemoração ao dia de São Pedro, celebrada durante quase uma semana e culminando nos festejos do dia 29 de junho. A passagem da Rota Inca pelo município proporcionou uma simulação dessa festa aos expedicionários pelas ruas do local.

O curioso é que apenas homens com mais de 60 anos de idade dançam. Metade deles se veste com trajes masculinos e a outra metade se veste de mulher, levando roupas e um pano pintado com rosto feminino. O ritmo é dado por uma banda formada por diferentes músicos, que tocam desde tambores e instrumentos de sopro até uma simples folha de árvore. Os dançarinos idosos levam com alegria os passos lentos com “suas companheiras”, tudo coordenado por um inusitado maestro. Seu Segundo, analfabeto, é quem comanda o ritmo do grupo, vestido de mulher, com a cara pintada de negro e levando um chicote em punho. Seria uma ironia proposital, a mulher negra, escravizada e tão explorada agora carregando o chicote da opressão? O próprio Seu Segundo não sabe explicar o que representa historicamente seu personagem nessa trama colorida. “Minha função é coordenar o ritmo, se alguém erra o passo dou umas chicotadas”.

Perguntado por que só os homens dançavam um dos bailarinos responderia que é porque as mulheres não são fisicamente capazes de fazer isso durante os oito dias seguidos de ensaios e festa. Alguma mulher da platéia explicava a alguns dos visitantes que o monopólio masculino é reflexo do machismo que sempre existiu e continua existindo até hoje. Outras vozes alegam que esse aspecto se refere aos tempos da chegada dos espanhóis, que cometiam muitos estupros contra as indígenas. Os homens locais, então, haveriam começado a vestirem-se de mulher como forma de enganar aos colonizadores.

A história se perde entre versões e suposições mas a dança continua viva e fiel à tradição. Dona Carmen, governadora do cabildo (organização autonomia indígena) de Funes nos explica de outra maneira o baile a que assistimos. Segundo ela, nos tempos da chegada dos espanhóis os homens indígenas foram obrigados a ajudar na construção da igreja na cidade. Por isso, tinham que trabalhar durante todo o dia limpando o terreno e levavam sempre grande quantidade de “chicha”, uma tradicional bebida fermentada de milho com baixo teor alcoólico. Ao final do dia, terminavam todos embreagados e dançando entre homens num baile tipicamente indígena.

Logo, um padre se interessou pelo ato e decidiu colocá-lo em favor da fé cristã: organizou para que os indígenas apresentassem a dança durante as festas religiosas de São Pedro, o padroeiro da cidade. A tradição persiste até hoje num típico exemplo da mistura entre a cultura católica e indígena.

No meio do caminho tinha uma festa

Os integrantes da Rota Inca 2009 voltavam à instalação militar onde estavam hospedados no município de Ibarra, norte do Equador. A três quadras antes de chegar havia uma pequena mas atrativa festa popular. O coordenador pediu então que se parasse o ônibus e que quem quisesse descesse para curtir essa atividade não planejada pela organização. O lugar era a paróquia de La Esperanza, bairro de San Marianita.

A maioria dos expedicionários foi com curiosidade explorar esse evento. O estranho é que, ao contrário das outras festas que haviam participado, ali ninguém os esperava. Não havia faixas ou referências desde o palco para a chegada de uma expedição que trazia visitantes de 15 países àquela comunidade que talvez nunca houvesse recebido um estrangeiro sequer. Tudo isso porque estavam ali por acaso, e pela primeira vez puderam sentir a verdadeira plenitude de uma festa popular.

Ninguém parecia muito interessado em saber o que faziam ali essas pessoas que certamente não pertenciam à comunidade. Ou talvez simplesmente deduzissem que se estavam ali era pra festejar com eles, e assim vinham os convites para danças e bebidas alcoólicas. Uma festa de interior é um universo em uma casca de noz. Nesse pontinho de planeta chamado La Esperanza, os olhos alheios não conseguiam fixarem-se entre músicas, danças, bebidas, galinhas, roupas coloridas, chapéus, crianças, idosos e adultos, muitos destes totalmente embriagados.

Instigado em entender tudo aquilo que passava, o jornalista que lhes escreve vai ao palco buscar alguém da organização. Um dos homens bêbados que comandam o microfone perguntam de onde sou e logo avisa seu amigo que o visitante brasileiro quer falar. Pego de surpresa me resta explicar que fazemos nós como expedicionários da Rota Inca. A essa hora eram apenas oito os integrantes da expedição que ainda estavam no lugar mas todos absolutamente maravilhados. Me lembro que meus companheiros aplaudiram mas não sei muito bem se a população local me escutou. E pouco importa, já que nesse dia eles é que nos falavam em bailes e nós escutávamos seguindo os passos. Ao final consegui a entrevista que queria. Falei rapidamente com Elena Ipaz que não só era organizadora do evento como líder comunitária e camponesa. “Estamos organizando essa festa porque representa a união da cultura indígena com a cultura mestiça. O Equador é pluri-étnico e pluri-cultural e o que nós queremos é resgatar esses valores, costumes e tradições de nossos antepassados”, explica ela. O evento que presenciamos celebra conjuntamente as festas católicas de São Pedro que ocorrem em julho com as comemorações indígenas do solstício de verão, que acontecem no final de junho.

O arco-íris, que representa a cultura indígena e sempre esteve presente nas coloridas roupas de baile dessa festa, também reluzia no céu de La Esperanza nesse dia especial. As galinhas amarradas em pedaços de pau ou carregadas de ponta-cabeça durante as danças eram uma espécie de tradição entre membros da comunidade; um ajudava o outro mais necessitado, que no ano seguinte teria que pagá-lo presenteando em dobro o número de galinhas ganho do compadre ou comadre.

Difícil foi ir embora. As três quadras e alguns minutos que nos separavam do militar horário da janta se tornaram um longo caminho. A cada poucos metros, grupos de familiares e amigos nos paravam para compartir juntos um pequeno momento de celebração com violão, dança e muita chicha e outros tragos tradicionais. Ou então, encantados com a beleza de sua filha vestida com roupa tradicional para festa, paramos conversar com uma simpática e jovem moradora local que nos explicava sobre as tradições dessa festa.

Chegaram ao refeitório oito expedicionários com o baile que não saía do corpo e o sorriso que não cabia no rosto. Haviam atrasado dez minutos para a janta, mas adiantado anos no entendimento do que é a cultura popular.