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Delfim Netto

Trilhões do desemprego

por Delfim Netto publicado 02/11/2011 16h59, última modificação 02/11/2011 16h59
Nos últimos três anos, a Europa registrou aumento de 2% de desocupados e deixou de produzir cerca de 2 trilhões de euros, mais que o PIB brasileiro em 2010

A conta do prejuízo é simplesmente devastadora, de acordo com estimativa do presidente da Comissão Europeia, João Durão Barroso, revelada no encontro dos líderes em Bruxelas, esta semana, na tentativa de encontrar saídas para a crise financeira na Zona do Euro. O PIB encolheu 1,9% e o índice do desemprego passou de 8% para 10%, de 2008 aos nossos dias. O que a Europa deixou de produzir nesses últimos três anos ultrapassa a soma de 2 trilhões de euros, disse Barroso. Valor maior que o PIB brasileiro em 2010.

Os resultados conhecidos da reunião até a noite de -quarta-feira mostraram que se alcançara finalmente o acordo para a recapitalização dos bancos europeus, aos quais se concedeu um prazo de oito meses para “elevarem seu capital de forma a manter em caixa 9% do que emprestarem”. A decisão mais importante só foi obtida na madrugada de quinta-- feira- 27, após mais de 14 horas de reunião, com a concordância de todos (governos da UE, bancos e demais detentores privados de bônus) em reduzir 50% do valor dos papéis da dívida da Grécia. Algo próximo de 400 bilhões de euros.


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Desde o início sabia-se que uma substancial redução no valor da dívida grega era fator fundamental para torná-la administrável. Até pouco antes da histórica reunião ainda persistia uma divergência de posições entre franceses e alemães: o presidente Nicolas Sarkozy defendia um corte de 40%, enquanto a chanceler Angela Merkel se inclinava por um corte maior, entre 50% e 60%, fiel aos cálculos- da equipe de finanças de seu governo.

As demais deliberações, sobre fontes de recursos públicos, os valores necessários e as condições para possibilitar a recapitalização dos bancos estavam na dependência dos porcentuais de redução da dívida grega que os mercados financeiros terão de absorver. Não havia segurança se um acordo seria alcançado agora ou teria de esperar nova reunião de cúpula no início de novembro.

Foi o próprio presidente francês, no entanto, quem finalmente fez a comunicação dos termos do acordo, no início da manhã da quinta-feira 27: uma decisão que tem as características de um grande feito político, na medida em que recria as condições de construção de uma duradoura união dos povos da Europa.

Simultaneamente ao encontro de Bruxelas, o primeiro-ministro italianao Silvio Berlusconi, entregou um -documento à Comissão Europeia, no qual seu governo se compromete a promover mudanças no sistema previdenciário de seu país- (aumentar a idade mínima da aposentadoria de 65 para 67 anos) e apresentar em 15 dias um programa consistente de redução da dívida e de estímulos à retomada do crescimento da economia, privilegiando investimentos na infraestrutura.

Enquanto isso, do outro lado do Atlântico, também às voltascom as manifestações de indignação popular contra a ajuda ao sistema financeiro em detrimento da promoção dos investimentos no setor real da economia, o presidente Barack -Obama deslanchou o seu programa de retomada do desenvolvimento, em especial em obras de infraestrutura. Ele finalmente despertou, ao ser confrontado com os resultados de pesquisas em que 64% dos americanos culpam o governo federal por não ter agido para proteger os empregos das pessoas que nada tinham a ver com as patifarias praticadas livremente nos mercados financeiros. O mesmo levantamento mostrou que 30% das pessoas consultadas atribuíam as dificuldades que estavam sofrendo ao comportamento do sistema financeiro.

Obama, com índices de popularidade em queda, certamente vai enfrentar uma senhora “barra” na campanha eleitoral  no ano que vem, devido à incapacidade de seu governo em promover políticas que aliviem o peso da tragédia social que se aprofundou durante seu mandato. Pode-se argumentar que não é justo que a ele se atribua toda a responsabilidade pelos efeitos da crise, já que ela foi “construída” ao longo de vários governos republicanos, como os de Bush e até de democratas, como o de Bill Clinton. Veio se formando desde que se iniciou a demolição dos mecanismos de regulagem do sistema financeiro, com a recuperação da “doutrina” (no fundo uma desculpa de cunho ideológico) segundo a qual os mercados eram eficientes e se autocontrolavam.

Na Europa em crise, em 2012 e 2013, quase todos os atuais líderes vão enfrentar eleições muito difíceis. Já nos Estados Unidos, apesar de dois terços dos americanos acharem que Obama é responsável pela crise, as pesquisas indicam que ele mantém probabilidade razoável de se reeleger, em virtude principalmente da absoluta carência de bons -candidatos republicanos.