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Teoria da conspiração

por Gianni Carta publicado 22/03/2011 16h38, última modificação 13/10/2011 11h13
A Justiça inocenta os executivos da Renault acusados de vender informações à China e expõe os absurdos de uma história rocambolesca sustentada pelo brasileiro Carlos Ghosn. Por Gianni Carta
Teoria da conspiração

A Justiça inocenta os executivos da Renault acusados de vender informações à China e expõe os absurdos de uma história rocambolesca sustentada pelo brasileiro Carlos Ghosn. Por Gianni Carta. Foto: Pierre Verdy/ AFP

A Justiça inocenta os executivos da Renault acusados de vender informações à China e expõe os absurdos de uma história rocambolesca sustentada pelo brasileiro Carlos Ghosn

A saga de espionagem industrial cuja aparente vítima no início parecia ser a Renault S.A. teve um desdobramento negativo para as imagens da montadora francesa e de seu principal executivo, o brasileiro Carlos Ghosn. E poderá ser ainda pior quando os nomes dos culpados pelo fiasco vierem à tona e a incompetência da direção em lidar com o caso se tornar ainda mais límpida.

Na segunda-feira 14, Jean-Claude Marin, procurador da República, inocentou os três executivos da Renault sob acusações de terem vendido dados sobre o programa de carros elétricos a uma empresa chinesa. Trata-se de um caso de “fraude em bando organizado”. O juiz de instrução já colocou atrás das grades Dominique Gevrey, do serviço de segurança da Renault. Gevrey, ex-militar da DPSD (segurança militar), 53 anos, e suspeito número 1, foi detido no Aeroporto Charles de Gaulle com um bilhete para a República da Guiné.

Maior acionista da Renault, com 15% do capital, o governo francês deixou clara sua irritação com a maneira como Ghosn se comportou nos últimos meses. Em entrevista à rede de tevê LCI, François Baroin, porta-voz do governo e ministro do Orçamento, disse: “Renúncias não são um tema de discussões por ora”. Contudo, emendou: “É preciso que haja consequências por esse incrível amadorismo e falta de dignidade nas acusações feitas contra esses homens”.

Com seu costumeiro ar estoico, Ghosn deu o ar da graça no jornal das 20 horas na rede de tevê TF1 e pediu desculpas aos três executivos de alto escalão despedidos pela Renault. “Eu me enganei, nós nos enganamos e, de acordo com as conclusões que ouvimos, parece que fomos enganados.”

O executivo disse ter recusado o pedido de renúncia de Patrick Pélata, diretor-geral de operações e principal porta-voz da Renault durante o fictício caso de espionagem corporativa. Ghosn ofereceu compensações e a reintegração dos executivos nos seus postos. E tanto ele, Ghosn, quanto Pélata abrirão mão de seus bônus de 2010 e stock options de 2011. Ghosn, chefe-executivo da Renault/Nissan, com salário de 9 milhões de euros ao ano (em 2009), deixará de ganhar 1,6 milhão de euros.

O público tomou conhecimento do caso de espionagem no fim de janeiro. Sempre em horário nobre da TF1, um solene Ghosn martelou: “Temos certezas e múltiplas provas”. Em miúdos, provas sobre a venda de informações tecnológicas por parte de executivos da Renault. A misteriosa firma de inteligência econômica contratada pela montadora em agosto do ano passado havia descoberto duas contas secretas, em Liechtenstein e na Suíça. Somas oriundas de uma gigante distribuidora elétrica com sede em Pequim fluíam para essas contas.

Entrou então em cena Eric Besson, ministro da Indústria, com a seguinte declaração para a rádio RTL: “A França está enfrentando uma guerra econômica”. O pronunciamento populista de Besson, ex-titular do extinto e infame Ministério da Identidade Nacional, não causou surpresas. Guerra econômica? “É apropriada”, rebateu Besson. A China refutou qualquer elo com o escândalo. Agora Besson passou a falar sobre o “amadorismo” da direção da Renault. À RTL, disse ser “positivo” o fato de o chefe-executivo da Renault ter se desculpado publicamente. E acrescentou: “Internamente o caso continua”.

A história teve início com uma carta anônima a denunciar os três executivos. Entrou em cena a firma privada de inteligência. Fundamental era lavar a roupa suja em casa e manter a DCRI (serviços de contraespionagem) longe. Se a direção da Renault não vê mal nenhum em receber subsídios públicos durante crises, Ghosn não aceita nenhuma intervenção do governo. Isso a despeito de o Estado deter 15% de seu capital.

O executivo parece ter acreditado na carta anônima e no seu autor, a “fonte”, cujo contato era Gevrey, número 2 do serviço de segurança da Renault agora atrás das grades. A montadora teria enviado 300 mil euros para essa tal “fonte” em troca de mais informações.

Segundo o semanário satírico Le Canard Enchaîné, em 26 de janeiro Gevrey teria concordado em levar um advogado da Renault a Bruxelas, onde seria apresentado à “fonte”. Enquanto era seguido por três homens, Gevrey recebeu um telefonema no celular. A “fonte” julgava arriscado ir adiante com o encontro.
Inexistem, é claro, contas de executi­vos da Renault em paraísos fiscais. Gevrey tem, porém, uma conta na Suíça, alega a DCRI. Segundo a rádio France Info, na conta teriam sido depositados cerca de 95 mil euros, parte dos 300 mil destinados à “fonte”. A soma teria antes passado por uma conta em Madri, para embaralhar as pistas. Outros 140 mil euros da Renault para a “fonte” teriam sido depositados em uma conta em Dubai, também aberta por Michel Luc, sob o nome de uma empresa de fachada, a Exor. Ex-paramilitar fiel a Gevrey, Luc levaria 10% em cada transação.

Anne Rosencher, do semanário Marianne, pergunta se o governo francês derrubará o “arrogante” Ghosn. Parece difícil, porque dele depende a aliança Renault-Nissan. Mais: a Nissan injeta 1 bilhão de euros ao ano na associada francesa. Ao mesmo tempo, motivos para dispensar o executivo não faltam. Em 2005, ao assumir a direção da Renault, ele dizia que em 2010 venderia 4 milhões de veículos. Vendeu 2,6 milhões. Segundo Rosencher, “o balanço de Ghosn na França é contestado”. O Estado teria convocado um conselho extraordinário para discutir sua remuneração.

Além disso, reina um clima de terror entre os funcionários na fábrica de Guyancourt, nos arredores de Paris. Após uma onda de suicídios em consequên­cia da reestruturação e de demasiada pressão sobre os funcionários, a Renault fez um esforço e reconheceu os sindicatos em 2008. Houve então a demissão de três executivos, graças a uma mera carta anônima. Agora é Ghosn quem experimenta os efeitos do estilo de gestão imposto por ele mesmo à Renault.