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Economia

Taxa de juros é principal desafio do governo Dilma, dizem economistas

por Brasil de Fato — publicado 25/11/2010 17h01, última modificação 25/11/2010 17h01
Para manter crescimento econômico e impulsionar índices sociais e aumentar a capacidade de compra da população, o governo Dilma Rousseff terá que lidar com as taxas de juros, as mais altas do mundo

Por Igor Natusch*

Para manter o crescimento econômico, que impulsiona os índices sociais e aumenta a capacidade de compra da população, o governo de Dilma Rousseff terá que lidar com um grande problema: as taxas de juro do país, que estão entre as mais altas do mundo. O diagnóstico é dos economistas André Scherer, Carlos Paiva e Enéas de Souza, durante palestra promovida na sede da Federação de Economia e Estatística do RS (FEE), nesta quarta-feira (24). Para uma plateia formada por estudiosos da área, os estudiosos listaram os desafios, em escala nacional e internacional, que Dilma terá que enfrentar para administrar a economia brasileira.

O economista André Scherer, ainda que otimista, identifica o Brasil como envolto pelo clima de incerteza da economia internacional. “Não se sabe quais serão os desdobramentos da crise”, diz Scherer, apontando um cenário externo “complexo” para o governo Dilma. Para manter a economia brasileira forte, Scherer acredita que Dilma irá ampliar os investimentos em infraestrutura e habitação, além de adotar um modelo de “protecionismo seletivo”, como uma alternativa para evitar o retorno da inflação.

Na opinião de André Scherer, o Brasil deve voltar-se de forma mais explícita ao neo-desenvolvimentismo. Ele prevê também a adoção de um projeto nacional uno – semelhante, “guardadas as devidas proporções”, ao adotado atualmente na China. “A tendência é de que a presidência estabeleça um controle maior sobre o Banco Central, unindo as políticas macro e micro no seu programa econômico”, disse, durante sua exposição.

Enéas de Souza, colunista do Sul21, concorda com essa visão. Mas acrescenta que Dilma Rousseff terá que trabalhar dentro de um projeto que resguarde a democracia. “A política é uma ostra grudada na economia. São coisas interligadas. Para que o governo de Dilma tenha sucesso, terá que manter tanto a estabilidade econômica quanto a política”.
Nesse sentido, Enéas de Souza defende a necessidade de recuperar o capital estatal, mantendo um processo iniciado nos oito anos de governo Lula. A Petrobras, com sua capitalização recorde e grandes promessas de lucro do pré-sal, deverá centralizar esses investimentos. “Mas a Petrobras, sozinha, não salva a lavoura”, ressalva, defendendo a aplicação de recursos na geração de energia eólica e solar, além de investimentos em nanotecnologia.

Carlos Paiva, por sua vez, vê o futuro econômico do Brasil com menos otimismo. “A equação fiscal do Brasil é boa atualmente, mas a da Irlanda também era”, disse, lembrando o momento de crise vivido pelo país europeu. O economista acredita que o país está “amarrado” a uma taxa de juros crescente, o que pode prejudicar as exportações e aumentar o desemprego.

De acordo com Paiva, o consumo autônomo vai bem, os investimentos crescem, e a participação dos salários na renda nacional amplia-se de forma constante. “Nesse sentido, a economia agradece”, comentou. Mas, ao mesmo tempo que a balança de serviços apresenta déficit, as exportações crescem timidamente, em percentuais cada vez menores de ano a ano. Na leitura de Carlos Paiva, isso mostra que o consumo brasileiro está se canalizando para fora do país. “Temos o pior saldo de transações correntes da história, ainda que o ingresso de capital seja ainda maior e gere valorização da moeda. No poder de compra da nossa moeda, somos praticamente um país escandinavo. E, com nossa alta taxa de juros, o mundo inteiro manda dinheiro para cá”, lembrou.

Segundo Carlos Paiva, levando em conta a alta taxa de juros e a valorização do Real, o Brasil já deveria estar vivendo um fenômeno de deflação. No entanto, ainda registra índices de inflação, apesar de esses percentuais estarem sob controle. “A estratégia de aumento de juros foi eficiente a curto prazo, gerando paridade da nossa moeda com o dólar. O problema é que nos tornamos viciados nessa tática”, critica. Para ele, Dilma Rousseff precisa encontrar um meio alternativo de combater a inflação. “O Brasil não controla mais a taxa de câmbio porque é o câmbio que controla a inflação. Se adotarmos uma postura do tipo baixar juros para ver o que acontece, a inflação voltará”, adverte.

Enéas de Souza lembra que Dilma Rousseff já deu declarações apontando que o Estado voltará a ser uma unidade em seu governo. No caso, Banco Central e Ministério da Fazenda voltariam a ser submetidos à influência da Presidência da República, ao invés de serem poderes quase separados, como no governo de Fernando Henrique Cardoso. “Dilma precisa promover a retomada de uma política econômica global, que inclua os setores produtivos do país”, afirmou.

“Estamos vendo o surgimento de uma nova ordem geopolítica, na qual a economia mundial passa a ter mais de um polo”, continua Enéas de Souza. “Dilma precisa ter um bom desempenho no modelo atual, mas ao mesmo tempo deve ser capaz de preparar o Brasil para essa transição. Mais do que a estabilidade econômica do nosso próprio país, estamos definindo qual será o papel econômico e político do Brasil no mundo”, assegura.

*Publicada originalmente no Sul 21