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Sozinhos no pedaço

por Delfim Netto publicado 01/12/2010 11h08, última modificação 02/12/2010 19h33
Não podemos mais contar com ventos a favor, interna ou externamente. Os desarranjos da economia mundial não vão ser resolvidos em dois ou três anos.Por Antonio Delfim Netto
Sozinhos no pedaço

'A financeirização vem acompanhada de conflitos sociais, à medida que aqueles que são prejudicados por ela protestam'

Acredito que a sociedade brasileira está consciente de que o desenvolvimento robusto que experimentamos nesses últimos anos foi muito ajudado pelo crescimento da economia mundial. Desde o início do século, e até 2007/2008, quando veio a crise financeira mundial, o Brasil soube aproveitar as oportunidades que a rápida expansão do comércio e dos negócios proporcionava, resolvendo o seu problema externo e acumulando reservas de quase 300 bilhões de dólares. Hoje somos um país com uma situação absolutamente tranquila em relação ao exterior.
É certo que estamos com um câmbio supervalorizado por conta do diferencial de taxas de juros internas e externas, um problema que naturalmente vai exigir atenção especial da nova administração a partir de janeiro.
A própria presidente Dilma Rousseff já indicou que pretende coordenar as políticas fiscal e monetária para ir reduzindo de maneira inteligente a taxa de juro real, até encontrar o nível compatível com o que é praticado no resto do mundo, algo como 2% ou 3%.
Isso reflete o entendimento de que não podemos mais contar com os ventos a favor interna ou externamente. Muito pelo contrário, os ventos são contra especialmente do exterior. Quanto à situação interna, há problemas que decorrem das próprias medidas absolutamente necessárias que adotamos para enfrentar a crise externa. Elas nos livraram dos piores efeitos da crise, não foi propriamente um programa anticíclico, deu resultados porque nos tirou da crise com rapidez, mas deixou alguns resíduos que precisam ser afastados.
No capítulo das despesas, vai ser necessário obter do novo Congresso a compreensão necessária para as novas exigências da política fiscal. Neste final de sessão legislativa estão acumuladas propostas de gastos que atingiram números extraordinários e não poderão ser executados, porque a sociedade brasileira não está disposta a aceitar mais aumentos de impostos. Nós já temos um nível de carga tributária que, a exemplo da taxa de juros, é a maior do mundo para países de renda per capita semelhante à que temos hoje.
É fato que a tributação atende em parte aos desejos revelados pela sociedade e inscritos na Constituição, como a melhora na distribuição da renda e a superação da pobreza, mas é evidente que a carga de impostos atingiu o limite superior. Não é apenas o Executivo que terá de se conformar com isso, mas todos os poderes deverão se submeter, pois não é possível que qualquer um deles se julgue capaz de agir como se fosse independente.
Quanto aos ventos externos, é claro que os desarranjos da economia mundial não vão ser resolvidos em dois ou três anos apenas, como até há pouco tempo podíamos sonhar. A situação americana é muito delicada e na Europa as coisas se complicaram ainda mais. A cada momento se percebe que as patifarias praticadas no sistema financeiro internacional foram mais profundas, muito além do que vinha sendo exposto publicamente. A realidade é que o sistema financeiro deixou de servir à produção e tinha se transformado em senhor do sistema de economia real. Colocou-a a seu serviço, produzindo uma enorme destruição nos setores produtivos.
No enfrentamento da crise, os Estados Unidos mostraram uma enorme miopia, ao privilegiar o socorro aos que a produziram. Não conseguiram salvar os empregos nem no setor financeiro nem no imobiliário e hoje estão com o grave problema da perda de confiança dos cidadãos, que não consomem porque não acreditam na volta de seus empregos.
 A ineficácia da política monetária está evidente na resposta que deram ao governo: mesmo tendo renda, crédito barato e recursos em caixa, os consumidores se recusam a consumir porque têm medo de perder os empregos e os investidores se recu sam a investir porque não veem sinais da demanda futura.
 A questão que nos diz respeito é a seguinte: na medida em que a liderança americana for incapaz de restabelecer a confiança no circuito econômico interno e o consumidor continuar arredio, eles terão de buscar a saída nas exportações, com políticas de estímulo agressivas, a começar pelo câmbio, com mais desvalorização do dólar. Significa que devemos nos preparar para aguentar uma competição ainda mais dura para as nossas exportações.