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Sobre pombos e raposas

por André Siqueira — publicado 23/03/2011 09h37, última modificação 24/03/2011 17h27
O Banco Central estuda mudar a pesquisa Focus, cogita reavaliar o aperto monetário e colhe críticas do mercadopor
Sobre pombos e raposas

O Banco Central estuda mudar a pesquisa Focus, cogita reavaliar o aperto monetário e colhe críticas do mercado. Por André Siqueira. Foto: André Lessa/AE

O Banco Central estuda mudar a pesquisa Focus, cogita reavaliar o aperto monetário e colhe críticas do mercado

Otermo autonomia começa, aos poucos, a adquirir conotação nova no Banco Central, sob a gestão de Alexandre Tombini. Nada a ser comemorado pelos entusiastas de uma autoridade monetária livre de quaisquer influências de fora do mercado financeiro. Numa atitude inédita, a instituição admite estudar a ampliação do número de opiniões colhidas pela pesquisa Focus, um dos principais balisadores das decisões dos diretores que compõem o Comitê de Política Monetária (Copom). A mudança não afetará a metodologia do levantamento, mas abre espaço para que instituições de ensino, empresas e associações de classe passem a colaborar na composição dos cenários captados semanalmente pelo BC.

Outro sinal de independência em relação aos palpites de sempre foi dado por escrito, na última ata da reunião do Copom, divulgada no dia 10. O item 31 do documento trata de um “cenário alternativo”, no qual a previsão é de inflação acima da meta em 2011 e “ligeiramente abaixo” em 2012. São consideradas também a “desaceleração da atividade doméstica” e a “complexidade” do ambiente internacional. Diante dessa leitura, prossegue a ata, “a eventual introdução de ações macroprudenciais pode ensejar oportunidades para que a estratégia de política monetária seja reavaliada”.

Era tudo o que os agentes do mercado não queriam ouvir. As queixas não tardaram a brotar, não só na mídia, mas também no levantamento do BC, fechado no dia seguinte à publicação da ata. As previsões para os principais índices de inflação continuaram a subir, e a sugerir mais aperto monetário. A sugestão de nova dose de ações macroprudenciais, como são chamadas as medidas adotadas desde o fim do mandato de Henrique Meirelles, em dezembro, para conter a expansão do crédito acertou um calo dos economistas ortodoxos.

Entre as ações do BC que surtiram efeito imediato sobre a oferta de empréstimos estão os aumentos dos depósitos compulsórios dos bancos e o das exigências de capital em financiamentos de prazo mais longo voltados ao consumo. Até então, as tentativas de conter a expansão da demanda esbarravam justamente na ampliação do crédito. O elevado spread embutido nas operações permitia aos bancos driblar os aumentos na Selic e manter as taxas, ou simplesmente esticar os prazos das operações, de modo a reduzir as prestações.

Ao alterar a trajetória de expansão do crédito, o BC não só tirou dos bancos parte da receita esperada, como bagunçou os cálculos dos analistas. Daí ter-se tornado comum aos funcionários do BC ouvir de analistas consultados para a Focus, nos últimos meses, que as expectativas de inflação embutem um “prêmio” relacionado à dificuldade de previsão. Ou seja, parte do pessimismo do mercado diz respeito mais ao desnorteamento provocado pelas intervenções do que aos dados palpáveis.

O chefe do departamento econômico do Santander, Maurício Molan, lembrou que o próprio BC conduziu uma pesquisa para tentar avaliar o impacto das medidas macroprudenciais, e obteve as mais diversas respostas. “O fato é que trabalhamos com modelos econométricos que são aperfeiçoados na medida em que acumulamos dados históricos. Qualquer incerteza adicionada às previsões leva a um conservadorismo maior.”
Molan se diz favorável à inclusão de outros setores da sociedade na base do levantamento da Focus, e ressalta que o Fed (banco central americano) utiliza em suas análises uma pesquisa realizada pela Universidade de Michigan com cidadãos comuns, instados a responder se esperam queda ou alta dos preços. O economista discorda, entretanto, da avaliação de que interesses particulares de bancos e gestores de fundos influenciam os resultados da pesquisa Focus. “O objetivo é acertar. Aparecer entre os Top 5 dá prestígio ao departamento econômico e ao autor da previsão, que comumente recebe uma remuneração extra pelo acerto.”

O fato é que as críticas de alguns analistas econômicos, antes focadas no ministro da Fazenda, Guido Mantega – tachado de “gastador” –, passaram a incluir Tombini. Com direito a carona no anglicismo dovish, usado para rotular autoridades tidas como tolerantes à alta dos preços, numa atitude de pombo (dove), em contraposição ao adjetivo hawkish, dedicado aos que agem como falcões (hawk) e golpeiam a economia com juros mais altos a cada soluço dos índices de preços.

No sistema de metas de inflação, seguido à risca no Brasil nos oito anos da gestão de Meirelles, o boletim Focus é responsável por revelar as chamadas expectativas do mercado, que servem de parâmetro para a atuação do Copom na fixação da taxa básica de juros. Em outras palavras, se o relatório aponta inflação acima do centro da meta à frente, o BC teria por obrigação agir preventivamente para conter a alta de preços.

Para a média dos consultados pela Focus, de nada bastaram as mais recentes elevações da taxa Selic, até 11,75% ao ano, o reiterado discurso de ajuste fiscal do governo ou a desaceleração do ritmo de crescimento do PIB no último trimestre de 2010, confirmada pelo IBGE há duas semanas. Tampouco pesou nas avaliações o arrefecimento das pressões de alguns dos principais vilões da inflação recente, como os alimentos.

A ameaça da inflação não é desprezível, como mostram alguns indicadores, que ainda soam contraditórios com a tese do desaquecimento. Vale citar o surpreendente recorde na geração de empregos formais registrado em fevereiro pelo IBGE, ou a aceleração de 0,71% no ritmo da economia em janeiro, apontada pelo índice do BC, o IBC-BR. Mas o Copom procurou mostrar que dispõe de outras métricas e ferramentas para lidar com o dragão.

O especialista em finanças públicas Amir Khair, ferrenho defensor do uso de medidas alternativas à elevação dos juros no combate à inflação, cita a indicação de diretores oriundos dos quadros técnicos do governo, em vez dos nomes ventilados na mídia pelo mercado financeiro, como mais um indício de que o BC busca ficar menos sujeito às pressões do setor privado em suas decisões. Consta que, nos últimos encontros informais de diretores do BC com economistas, estes interlocutores saíram desapontados pela falta de informação da parte das autoridades, que deixaram claro estar lá apenas para ouvir.

Khair argumenta que o momento é favorável a uma mudança de direcionamento do BC, seja pelo fato de vários indicadores econômicos apontarem em direções opostas, seja porque o cenário internacional começa a dar indícios de trégua no ciclo de alta das commodities, como efeito imediato da crise no Japão. “O pessoal que especula está pisando em ovos.”

As críticas ao atual formato da pesquisa do BC começam pela base de respondentes. Segundo o banco, são ouvidas em torno de uma centena de instituições. A lista completa não é aberta, apenas os nomes das cinco instituições que mais acertaram em cada categoria de previsões. Uma análise dos rankings dos últimos dois anos indica que a quase totalidade dos consultados – ou daqueles que acertam – pertence ao setor financeiro ou administra recursos de terceiros, como os fundos de pensão Funcef (dos funcionários da Caixa Econômica Federal) e Petros (dos empregados da Petrobras). As poucas exceções são os bancos ligados a conglomerados industriais, como os da Votorantim e da JBS Friboi.

O professor de finanças da USP Alberto Borges Matias espera que a ampliação da Focus seja acompanhada de mais transparência nos resultados, de modo a permitir comparar as previsões das empresas financeiras com as da chamada economia real. “O pessoal da área atacadista, por exemplo, tem uma noção exata do que vai acontecer com os preços nos períodos posteriores”, diz. “Essa é uma abertura que já deveria ter sido feita.”
Uma constatação de Matias, ao acompanhar a série histórica das expectativas captadas pela Focus, é que há baixo nível de discordância nas respostas. “É quase um consenso. Só ocorre um descolamento quando há choques externos que impactam o mercado cambial e exigem um ajuste nos juros.” O professor diz que o aumento do peso do setor financeiro sobre as decisões econômicas do País vem da década de 1980, quando a inflação acelerada desarticulou as organizações industriais.

Antes de tomar conhecimento da intenção do BC de ampliar seu levantamento, o presidente da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), Paulo Skaf, afirmou a CartaCapital que a entidade estudava a criação de uma pesquisa para servir de contraponto ao relatório do mercado. “Os resultados (da Focus) hoje têm uma única visão, que é normalmente mais pessimista do que a realidade. E isso acaba por influenciar o aumento da taxa de juros.”

Para a mudança dar resultado, Skaf defende a inclusão do mais amplo leque possível de participantes, e cita sindicatos, profissionais liberais e até mesmo cidadãos comuns. Sobre a possibilidade de Tombini ser mais aberto ao setor produtivo do que seu antecessor no cargo, o presidente da Fiesp diz ser cedo para avaliar. “De um lado, o que vemos é uma boa iniciativa (a mudança na Focus), mas do outro tivemos dois aumentos dos juros, apesar de as previsões de crescimento do PIB estarem em queda e de o mundo continuar em crise.”
O diretor do Departamento de Pesquisas e Estudos Econômicos da Fiesp, Paulo Francini, garante que a organização é capaz de gerar dados para abastecer o relatório Focus. “Enxergamos com bons olhos esse interesse do BC em ampliar o leque da pesquisa. É um pensamento que esconde uma indagação do tipo ‘estarei conduzindo as expectativas ou apenas sendo conduzido?’”