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Sob fogo cerrado

por André Siqueira — publicado 31/08/2010 11h13, última modificação 14/09/2010 17h37
Entre a especulação financeira e a disputa eleitoral, a Petrobras perde 80 bilhões de reais em valor de mercado, enquanto aguarda a capitalização
Sob o fogo cerrado

Entre a especulação financeira e a disputa eleitoral, a Petrobras perde 80 bilhões de reais em valor de mercado, enquanto aguarda a capitalização. Por André Siqueira. Foto: Ricardo Stuckert/PR

Perto de realizar a maior oferta de ações do mundo, a Petrobras assiste a uma desvalorização de suas ações em escala igualmente superlativa, à mercê da boataria que envolve o processo de capitalização da companhia e a sua participação na exploração das reservas petrolíferas do pré-sal. Por trás da cortina de especulações, vislumbram-se os interesses de acionistas, investidores e multinacionais, além do incontornável debate eleitoral, uma vez que governo e oposição defendem visões radicalmente diferentes sobre os rumos da maior estatal brasileira.

Além disso, Dilma Rousseff, líder nas pesquisas, tem fortes ligações com a empresa. A capitalização da Petrobras envolve um aporte de recursos do governo, sob a modalidade de cessão onerosa de 5 bilhões
de barris das reservas da União, e de investidores privados. No total, estima-se que a operação poderá alcançar 60 bilhões de reais.Numa comparação recente, a oferta inicial de ações do AgBank, o banco agrícola da China, bateu o recorde mundial ao arrecadar o equivalente a 39 bilhões de reais.

Prevista para ocorrer até o fim de julho, a operação teve de ser adiada, por conta de atrasos na certificação do petróleo a ser cedido à Petrobras. A Agência Nacional de Petróleo (ANP) contratou a empresa Gaffney, Cline & Associates para determinar o volume, a qualidade e a localização das reservas da União. Esses dados são fundamentais para determinar o preço dos barris usados na capitalização. Quanto maior o valor, melhor para o governo, que poderá assumir posições maiores na companhia com a mesma quantidade de barris. Do lado do investidor, a quem a Petrobras vai ofertar novas ações, o mais interessante é que os papéis estejam em patamares baixos, portanto, mais baratos, no momento da capitalização. Em junho, a companhia aprovou, em assembleia, uma ampliação no limite para emissões de ações, elevado de 60 bilhões para 150 bilhões de reais.

Na quinta-feira 19, a certificadora entregou à ANP uma versão preliminar do estudo da Gaffney, repassada ao Ministério da Fazenda, que representará a União nas negociações com a direção da Petrobras. De acordo com o diretor-geral da agência, Haroldo Lima, os números do relatório ainda não são definitivos, e poderão mudar até o fim do mês, dentro do prazo para a conclusão do trabalho (entrevista à pág. 23). As cifras preliminares, segundo Lima, servirão de base para a elaboração de um modelo do contrato de cessão onerosa – uma corrida paralela à da definição dos montantes envolvidos, para garantir que a capitalização seja concluída ainda em setembro.

O diretor da ANP disse esperar que uma primeira versão do contrato, que deverá passar pelo crivo da agência, fosse finalizada até a sexta-feira 20. Dois dias antes, o presidente da Petrobras, José Sergio Gabrielli, reuniu-se com o ministro da Fazenda, Guido Mantega, e com representantes da ANP e do Ministério do Planejamento para discutir os termos da cessão onerosa. Também em Brasília discutiu com representantes da indústria os termos da proposta de uso de máquinas e equipamentos nacionais na exploração do pré-sal. Segundo auxiliares próximos, embora tenha deixado as últimas reuniões ainda confiante na possibilidade de realizar a capitalização até o fim de setembro, Gabrielli se mostrou disposto a concentrar esforços para evitar que disputas judiciais atrasem a operação. Quanto ao valor a ser estipulado para os barris de petróleo incluídos na cessão onerosa, teria afirmado apenas que não há uma cifra capaz de satisfazer de imediato todos os lados envolvidos na operação. Pelos cálculos da ANP, o preço de 5 a 6 dólares por barril, como apontado por analistas, acarretaria prejuízo à União.

Valores acima de 10 dólares, como se tem especulado ser a vontade do governo, correriam o risco de contrariar não só os investidores como a direção da Petrobras, que apresentará seus próprios números ao governo. Diante da possibilidade de impasse, surgiram boatos de que o Ministério da Fazenda preferiria adiar a operação mais uma vez, para depois das eleições. A preocupação do governo com a proximidade da disputa presidencial deve-se a mais de um fator. O mais visível é a sangria sofrida pelos papéis da Petrobras na Bolsa. Até a quarta-feira 18, a perda de valor de mercado acumulada desde o início do ano bateu em 80 bilhões de reais, de acordo com um levantamento feito pela consultoria Economática para CartaCapital. O estudo comparou o desempenho de 38 companhias de capital aberto que atuam no setor de petróleo nas Américas e situou a brasileira na décima posição entre as maiores quedas, com menos 23,11%. Em valores absolutos, por seu grande porte, a Petrobras é de longe a mais afetada pela volatilidade.

Por mais assustadora que possa parecer, a cifra reflete a soma do valor individual de todas as ações da companhia, ou seja, pode ser revertida em poucos pregões, desde que os investidores recuperem a confiança nos planos da companhia. Um dos principais temores é o de que a operação não seja fechada até o fim de setembro, de modo a ser atropelada por um eventual, ainda que cada vez menos provável, segundo turno das eleições, que prolongaria a viacrúcis da companhia no mercado.

Outro fator em jogo é o possível impacto da operação nas urnas. O sucesso da operação representaria um aval ao modelo de exploração dos recursos do pré-sal defendido pelo governo. Dilma Rousseff participou diretamente da elaboração da política petrolífera em discussão no Congresso, que inclui o modelo de partilha da produção e a criação de uma estatal para gerir as reservas.
Além disso, ela ocupou a presidência do Conselho de Administração da Petrobras do início de 2003, quando ainda era ministra de Minas e Energia, até março deste ano, quando deixou o cargo de ministra-chefe da Casa Civil para se candidatar.

Na chapa do candidato tucano à Presidência, José Serra, o consultor para a área de energia é David Zylberzstajn, diretorgeral da ANP no governo de Fernando Henrique Cardoso e crítico contumaz do que chama de privilégios à Petrobras no pré-sal. O executivo classificou como “um desastre” a proposta de criar uma estatal para comercializar o petróleo descoberto. Enquanto esteve à frente da ANP, Zylberzstajn foi defensor ativo da redução do peso da Petrobras no setor petrolífero. Conduziu a licitação a grupos privados de áreas devolvidas pela estatal – sob o argumento de que, à época, a companhia não teria condições de desenvolver as reservas – e sugeriu a venda de uma série de refinarias para acelerar a abertura do mercado.

Sob o governo Lula, e especialmente após as descobertas de petróleo na camada pré-sal, a Petrobras acelerou os investimentos e passou a apostar pesadamente em novos negócios, como a produção de biocombustíveis. No primeiro semestre, a companhia registrou uma geração de caixa de 31 bilhões de reais e investiu 38,1 bilhões de reais. O plano de investimentos da companhia prevê o desembolso de 240 bilhões de reais de 2010 a 2014. O resultado dessa política, no curto prazo, foi o aumento do endividamento (gráfico à pág. 22). A pedido de CartaCapital, o professor de finanças da Fipecafi, Antonio Carlos Colângelo Luz, procurou analisar a queda da cotação das ações da Petrobras estritamente sob a ótica do investidor e concluiu que há exagero na perda de valor recente. “Os resultados dos últimos anos mostram, de fato, uma piora nos balanços em termos relativos”, explica. “O retorno sobre o patrimônio chegou a 39,8% em 2000, um número fantástico. No segundo trimestre de 2010, caiu para 18,1%. Não é baixo, mas é menor.” O especialista ressalta o fato de os dividendos terem caído de 4,67 reais por ação, em 2003, para os atuais 83 centavos. Após listar os indicadores capazes de afugentar investidores, o professor da Fipecafiponderou o fato de a companhia bater recordes sucessivos de produção e receita e as perspectivas de ampliação da produção com as operações no pré-sal. “Um dividendo menor é justificável tecnicamente se empregado na obtenção de maior lucro futuro, assim como o aumento do endividamento, que não implica rebaixamento imediato na nota das agências de risco”, diz. “Além disso, qualquer análise de mercado pode cair por terra após uma operação nos volumes previstos na capitalização.” Outro sinal de que as ações da Petrobras estão depreciadas, de acordo com Colângelo, é o preço-alvo dos papéis preferenciais apontado pelos analistas e destacado no próprio site da companhia, de 46,90 reais – bem distante dos 27,68 reais do fechamento da quinta-feira 19. “A base de acionistas minoritários da companhia comporta muitos pequenos investidores, mais avessos ao risco e suscetíveis a boatos. Eles tendem a vender seus papéis logo que começam a ouvir muito falatório sobre a empresa.”

Como se não bastassem as discussões no plano financeiro, outro foco dos ataques recentes à gestão da Petrobras passou a ser a segurança das operações. Motivada, até certo ponto compreensivelmente, pela catástrofe da British Petroleum no Golfo do México, a mídia voltou as atenções para as ações fiscalizatórias da ANP. Recomendações e exigências feitas em caráter cautelar – ou seja, para prevenir a ocorrência de acidentes – ganharam as manchetes, com uma força que não se via desde que ocorreu uma das piores tragédias da história da Petrobras, o naufrágio da plataforma P-33,ocorrido quando era Zylberzstajn quem estava à frente da agência fiscalizadora. Alexandre Szklo, professor do Programa de Planejamento Energético da Coppe-UFRJ, busca explicações para a queda das ações da Petrobras nas incertezas existentes dentro e fora do Brasil.

No exterior, as discussões concentram-se na demanda futura por petróleo e nos impactos do acidente do poço da BP no Golfo do México sobre os custos da extração em águas profundas. “A visão de que grandes reservas de petróleo virariam um mico só é válida num horizonte de 30 a 50 anos. Até lá, teremos um crescimento menos acelerado no consumo, mas sobre uma base muito maior, e com a produção dos grandes campos de petróleo mundiais em declínio”, avalia o professor. “Essa perspectiva deve motivar a exploração de áreas de difícil extração, como o pré-sal, mesmo que novos protocolos de segurança encareçam a atividade.” Esses fatores seriam os responsáveis pelas perdas registradas pelas produtoras de petróleo internacionais e seus fornecedores. “Nossas próprias interrogações, sobre a capitalização e as regras para o pré-sal, se somam às lá de fora”, diz Szklo.

De acordo com o professor da UFRJ, o Brasil possui reservas estimadas em 50 bilhões a 100 bilhões de barris de petróleo. “O consumo atual dos Estados Unidos chega a 25 bilhões de barris ao ano e a China continua a crescer. Dificilmente vai sobrar petróleo no mundo”, diz. “O único risco é produzirmos derivados sem aceitação, o que leva analistas a questionarem se a Petrobras deveria investir agora em refino ou aguardar as tendências de consumo futuras.”

Deixadas de fora as dúvidas de longo prazo, Szklo não vê razões para a desvalorização da companhia brasileira no mercado de capitais. “A Petrobras tem uma situação singular. É capaz de repor suas reservas enquanto as concorrentes assistem à decadência de seus campos e, para manter a produção, são obrigadas a fazer aquisições.” Isso explicaria o fato de a Petrobras se endividar num mercado em que, tradicionalmente, as empresas mantêm vastos recursos em caixa. “Mas o mercado está sendo míope no curto prazo, ao comparar o esforço necessário para uma corrida de 100 metros com o fôlego que é preciso tomar antes de iniciar uma maratona.”