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Se a farinha é pouca...

por André Siqueira — publicado 09/02/2009 15h32, última modificação 20/09/2010 15h33
É quase lugar-comum dizer que os bancos brasileiros são conservadores, e por isso escaparam aos efeitos da crise financeira internacional. No país em que os melhores negócios são comprar títulos do governo e emprestar para pobre a 5% ao mês, é fácil evitar a toxidade dos derivativos. Ao primeiro sinal da crise, cortaram as linhas do povão (vai que o sujeito é demitido e não pode mais pagar o consignado...). Quem precisou, recorreu aos cofres da Viúva, como fez o Banco Votorantim.

É quase lugar-comum dizer que os bancos brasileiros são conservadores, e por isso escaparam aos efeitos da crise financeira internacional. No país em que os melhores negócios são comprar títulos do governo e emprestar para pobre a 5% ao mês, é fácil evitar a toxidade dos derivativos. Ao primeiro sinal da crise, cortaram as linhas do povão (vai que o sujeito é demitido e não pode mais pagar o consignado...). Quem precisou, recorreu aos cofres da Viúva, como fez o Banco Votorantim.

Será que o leitor percebeu o quanto as empresas brasileiras são também “conservadoras”? Tome-se o recente exemplo das montadoras. Vinham com as vendas de vento em popa, a reboque da expansão de crédito. Após a eclosão da crise, pelos idos de outubro, os bancos cortaram o financiamento ao cliente. As vendas caíram e a produção praticamente parou. O lobby, como sempre fortíssimo, foi a Brasília ameaçar com demissões em massa. Descolou uma redução de IPI.

Bastou o preço do zero-quilômetro baixar para o brasileiro voltar à concessionária. O desconto vai embora logo de cara, na depreciação do usado dado de entrada. Ou nas parcelas mais caras do carnê. As vendas reagiram. Diz a Anfavea que, em janeiro, subiram 1,5% em relação a dezembro, que por sua vez já mostrou reação sobre novembro.

Na comparação entre os últimos janeiros, o volume de carros novos nas ruas ainda é 8,1% menor. Só que a produção, de outro lado, despencou 27,1%. Quando isso acontece, quer dizer que as empresas estão vendendo o produto que está na prateleira, queimando estoques. Também cortaram custos, ou seja, demitiram onde era possível (mas não justificável, enquanto as vendas iam bem).

Agora, depois de toda a choradeira, foram obrigadas a voltar a produzir. No ritmo que exige a economia – a de verdade, não a dos terroristas engravatados. O resultado é que a produção, sobre o mesmo mês do ano passado, quase dobrou: aumentou 92,7%.

Depois de demitir à vontade, com a compreensão dos sindicatos e da sociedade, e de enviar para as matrizes no exterior todo o lucro acumulado na época de bonança (a remessa de dólares ajudou, e muito, a forçar a desvalorização rápida do real nos últimos meses), agora as empresas voltam a produzir, rumo aos níveis normais.

Só falta começar a chamar de volta os empregados rifados no fim do ano. E há quem diga que é caro contratar e demitir no Brasil... Mas a moral da história é que, por aqui, os bancos não são os únicos a garantir a farinha para o próprio pirão, ao primeiro sinal de escassez.