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Remédio amargo

por André Siqueira — publicado 09/03/2009 15h12, última modificação 20/09/2010 15h15
A questão é que, até a eclosão da crise, no ano passado, a economia financeira era perto de dez vezes maior do que a chamada economia real. Algo como 600 ou 700 trilhões de dólares em derivativos, títulos de dívida e outros papéis (ninguém sabe com certeza o tamanho da bomba), ante 66 trilhões de dólares do PIB mundial – o quanto se gera em riqueza física no planeta. O choque e as turbulências atuais eram, portanto, mais do que esperados. Só não se sabia quando ocorreria. O Lemahn Brothers, em outubro, foi só a primeira peça do dominó a cair. O resto da história todo mundo está acompanhando.

O laboratório farmacêutico Merck anunciou hoje a compra do concorrente Schering-Plough, por 41,1 bilhões de dólares. A fusão se segue a outra, ainda maior, entre a Pfizer e a Wyeth (68 bilhões de dólares), em janeiro. Não, não vou tratar agora do setor farmacêutico. Ainda que eu não entenda, se o problema é ampliar o mercado em tempos de crise, porque uma fabricante do remédio para impotência sexual não procura uma cura para a dengue, ou a malária. A opção é sempre gastar bilhões para comprar a concorrência, cortar funcionários e aumentar os preços de medicamentos monopolizados. Mas não é isso o que mais me preocupa.

A questão é que, até a eclosão da crise, no ano passado, a economia financeira era perto de dez vezes maior do que a chamada economia real. Algo como 600 ou 700 trilhões de dólares em derivativos, títulos de dívida e outros papéis (ninguém sabe com certeza o tamanho da bomba), ante 66 trilhões de dólares do PIB mundial – o quanto se gera em riqueza física no planeta. O choque e as turbulências atuais eram, portanto, mais do que esperados. Só não se sabia quando ocorreria. O Lemahn Brothers, em outubro, foi só a primeira peça do dominó a cair. O resto da história todo mundo está acompanhando.

Ao menos em teoria, todo papel financeiro tem de ter um lastro em um ativo físico. Para os não iniciados, isso equivale a dizer que, se um banco negocia um título de dívida imobiliária, é porque alguém hipotecou um imóvel. Se alguém compra uma opção de venda futura de 10 toneladas de soja, teria de ter alguns caminhões cheios do grão na data de vencimento. Como a coisa toda fugiu ao controle, é preciso começar a tirar dos balanços dos bancos tudo o que não tem uma contrapartida no mundo real. Em outras palavras, enxugar o universo financeiro até que ele se aproxime mais do físico. E eis aí uma receita de crise-financeira-mundial-sem-precedentes.

Podemos agora voltar aos laboratórios. Não sem antes agradecer aos leitores que me acompanharam até aqui...

Como os bancos, além de especular, às vezes até emprestam dinheiro e financiam o desenvolvimento, as empresas acusaram o impacto da falta de crédito. O mundo de verdade também está encolhendo. A desejada aproximação entre o dinheiro real e o virtual periga não acontecer nunca. Como se economia como um todo implodisse, devorasse a si mesma. Não custa lembrar que, em fusões e aquisições, um mais um não é dois. Num primeiro momento, a soma dá um e meio, diante das demissões disfarçadas de reestruturação, otimização do uso dos recursos ou seja lá o eufemismo que se queira usar.

Até agora, só dois remédios tem sido utilizadas contra a crise. O mais radical é estatizar empresas em situação de risco, o que sai muito caro para o contribuinte e não garante a equidade de tratamento quando todos estão afundados no mesmo lamaçal. A outra é permitir que empresas fortes comprem as que fizerem água primeiro. Não digo que seja o caso das farmacêuticas, embora seja inegável que a crise baixou os preços das empresas e facilitou as aquisições. Pode até ser bom para o acionista, mas não o é para o consumidor e muito menos para a economia como um todo.

Minha sugestão (acredite, eu tenho uma) é lançar mão dos instrumentos de que o estado dispõe (entram aí agências regulatórias, ministérios, legisladores e o fisco) para incentivar as empresas a procurar mercado nas necessidades do cliente, no caso, o mundo inteiro. O Brasil tem dado exemplos nesse sentido, ainda que do nosso jeito meio atrapalhado. Não dá para construir mais condomínios de luxo no Morumbi, que tal um conjunto habitacional popular no interior? A ascensão das classes C e D criou o mercado interno que hoje sustenta a economia em meio à crise. Aqui, e em muitos outros países do Hemisfério Sul, faltam pontes, estradas, casas, remédios, alimentos, computadores. A lista não tem fim. É aí que está o mercado que deixou de existir na parte de cima do globo. Enquanto não encontrar esse caminho, as grandes corporações se limitam a devorar umas às outras. Essa receita, ao que tudo indica, pode levar a uma overdose.