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Reflexões sobre os problemas brasileiros no contexto mundial

por Paulo Yokota — publicado 04/03/2014 12h01, última modificação 05/03/2014 13h53
O Brasil enfrenta meses difíceis até as eleições. Pesquisas mostram insatisfações populares, em um quadro de baixo crescimento e tensões inflacionárias sempre preocupantes

A atual edição da revista The Economist, disponível eletronicamente com antecipação, apresenta uma rica constelação de artigos de relevância internacional que induzem as reflexões sobre os problemas brasileiros que estão e serão enfrentados nos próximos meses. A revista apresenta um competente ensaio sobre a democracia que veio expandindo de 1980 a 2000 em todo o mundo, inclusive no Brasil, mas recentemente registra alguns retrocessos que podem ser atribuídos basicamente a duas ordens de influências de forma generalizada.

De um lado, a crise financeira mundial de 2007/2008 provocada pelo sistema bancário, onde as autoridades de diversos países foram obrigadas a assistir os bancos com volumosos recursos públicos para evitar riscos sistêmicos, sem a capacidade de punir os gestores imprudentes e até pelo contrário, premiando-os, gerando uma insatisfação popular em diversos países do mundo que já contam com muitas limitações. Ela se manifesta até de forma violenta, frustrando as esperanças das primaveras que acabaram griladas por poucos. As abundâncias de recursos financeiros, com seus fluxos internacionais exagerados, ao invés de atender as aspirações por melhorias de padrão de vida, acabaram deixando pesadas dívidas de difíceis administrações, gerando frustrações políticas.

De outro, a revista mostra que a China propagou uma noção que desenvolvimentos acelerados podem ser obtidos por regimes que escolhem dirigentes na sua elite, que comandam o país por uma década. Mais que nos regimes democráticos onde as eleições duvidosas são exageradamente valorizadas, sem que seus complementos indispensáveis como a liberdade de manifestação das opiniões, respeito aos direitos humanos, imprensa livre e outros itens que são conquistados ao longo do tempo não mereceram a devida atenção.

Pesquisas efetuadas pela consagrada Pew Survey indicam que a população chinesa mostra-se mais satisfeita com o seu governo comandando por Xi Jinping que a população norte-americana com o seu comandado por pelo Barack Obama.

Outra matéria preocupante mostra que continua controvertida a noção que a melhoria na distribuição de renda favorece o crescimento econômico, na medida em que a sua concentração se observa tanto nos países desenvolvidos como emergentes, onde o Brasil é uma honrosa exceção que confirma a regra, e favorecem a geração de poupanças indispensáveis para financiar os investimentos e as melhorias de produtividade. São correntes de importantes economistas consagrados no cenário internacional.

Ainda que o quadro apresente diferenças importantes com o Brasil, a matéria sobre a Índia obriga a especular sobre o que pode acontecer também entre nós. Aquele país asiático emergente, de grande população, com todas as suas complexidades é uma democracia tradicional de longa data, contando com dirigentes preparados de muitos pontos de vista, inclusive em consagradas universidades internacionais. No entanto, as pesquisas hoje disponíveis indicam uma nítida preferência pelas mudanças, onde a persistência da corrupção afeta o governo atual, mesmo que o seu ritmo de desenvolvimento continue sendo superior ao brasileiro.

O candidato com maior chance de vitória veio administrando uma região, com resultados superiores aos nacionais. Mas, não apresenta claramente o seu programa de governo futuro, tendo como passivos distúrbios étnicos religiosos que ocorreram na sua área de maior influência, e que não parecem influir no seu atual prestígio nacional.

O Brasil enfrenta meses difíceis até as eleições. As pesquisas estão informando sobre as surpreendentemente elevadas contrariedades com os elevados gastos com a Copa do Mundo, e o governo se prepara para enfrentar manifestações públicas, como também noticiado pela The Economist, aparelhando-se da melhor forma possível. Elas se somam as outras insatisfações populares, num quadro de baixo crescimento e tensões inflacionárias sempre preocupantes. O governo insiste no elevado nível de emprego, melhoria nas distribuições de renda, ampliação da nova classe média de consumidores, sem conseguir empolgar a população.

Os analistas que possuem experiências acumuladas nas questões eleitorais tendem a considerar mais do que as conquistas já obtidas pelos eleitores as perspectivas de novas melhorias para o futuro. O governo não aparenta apresentar um discurso competente para um eleitorado saturado de resultados abaixo dos prometidos, ainda que os potenciais adversários que figuram nas pesquisas atuais só tenham apontado às limitações recentes da administração pública. Não apresentam claramente os seus programas temendo afetar alguns segmentos. Nenhum dos candidatos aparenta contar com retóricas empolgantes de estadistas correndo-se o risco do país continuar preso ao atual marasmo, tendo perdido a oportunidade de se confirmar como uma nova potência emergente no atual mundo globalizado.

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O economista Paulo Yokota é ex-diretor do Banco Central do Brasil e ex-presidente do Incra. Com dupla cidadania (brasileira e japonesa), viajou mais de 100 vezes para a região e atualmente publica no site Ásia Comentada.