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Análise / Paulo Yokota

Questões sobre o papel do setor financeiro mundial

por Paulo Yokota — publicado 10/03/2014 05h44

O professor Howard Davies, atualmente da Sciences Po em Paris, conta com um currículo invejável para discutir este assunto que apresenta num artigo publicado pelo Project Syndicate. Ele foi o primeiro chairman da United Kingdom’s Financial Services Authority (1997-2003), diretor e professor da London School of Economics (2003-2011), vice-governador do Bank of England e diretor geral da Confederation of British Industry. Portanto, além de uma sólida experiência acadêmica, atuou em setores envolvidos nesta discussão que interessa a todos.

Ele usa para suas considerações uma conferência recente proferida por Mark Carney, governador do Bank of England, que especula que os ativos dos bancos sediados em Londres chegariam a nove vezes o PIB dos britânicos em 2050. Muitos discutem sobre a predominância do setor financeiro sobre as demais atividades econômicas, fazendo com que até cientistas e profissionais que deveria estar ligados à produção física sejam contratados por causa dos elevados salários oferecidos pelos bancos. A atividade financeira deveria ter a função de providenciar recursos para os investimentos e demais atividades que viabilizam a produção que atenderia as necessidades humanas, como de alimentação, habitação, vestuário, locomoção e todas as demais.

Haveria conveniência na divisão de trabalho, permitindo uma eficiência maior, na medida em que os profissionais se aprofundariam no que podem exercer com maior habilidade. A exagerada concentração das decisões nos bancos, não reconhecendo habilidades diferenciadas invadiria até com suas publicidades as atividades de comunicação social.

O autor cita trabalhos recentes que tratam do assunto. Andy Haldine, do próprio Bank of England, teria feito um discurso revelador intitulado “A Contribuição do Setor Financeiro: Milagre ou Miragem”, afirmando que há uma superestimação do setor financeiro. De Robin Greenwood e David Scharfestein, da Harvard Business School, intitulado “O Crescimento das Finanças Modernas”, mostrando que a parcela dos financiamentos no PIB dos Estados Unidos quase duplicou entre 1980 a 2006, de 4,9% para 8,3%. Sugere que as suas remunerações exageradas estariam relacionadas com as dificuldades mundiais posteriores a 2007/2008. Poderiam ter proporcionado mais oportunidades para as aplicações das poupanças das famílias, mas teriam imposto elevados custos sociais às famílias que posteriormente faliram. Stephen G.Cecchetti e Enisse Kharroubi, do Banco Internacional de Compensações – BIS, utilizando amostras de 20 países desenvolvidos, encontram uma correlação negativa entre a participação do setor financeiro no PIB e a saúde da economia real. Teriam concorrido no emprego de físicos e engenheiros com doutoramento para desenvolverem complexos e sofisticados modelos de hedge para os riscos, que nem sempre funcionaram.

Nos anos anteriores à crise de 2008 foram contratados muitos diplomados da London School of Economics ou como os que possuem MBAs de Harvard no setor financeiro. Constatou-se algo intrigante, como as expansões de crédito estar associadas com booms na construção civil, dada a facilidade de garantias de ativos imobiliários, onde a melhoria da produtividade é lenta. A estas considerações poderiam ser acrescentadas outras. Os profissionais do setor financeiro estão treinados para obter resultados mais rápidos, com os cálculos das taxas de retorno de um fluxo ao longo do tempo. Mas as atividades reais demandam tempos físicos maiores, estando sujeitos a riscos que nem sempre foram previstos, que podem ocorrer ao longo do tempo. As mudanças tecnológicas como políticas, por mais que sejam estudadas, ocorrem por motivos mais variados, afetando os resultados dos projetos.

Com o agigantamento do setor financeiro, sua capacidade de convencer as autoridades é enorme, que podem provocar riscos sistêmicos, exigindo que as autoridades venham ao seu socorro quando ocorrem crises financeiras, como as que ameaçavam ocorrer depois de 2008. Conseguiram cobrir suas gestões arriscadas, com aportes de volumosos recursos de origem oficial arcados por toda a sociedade.

Hoje, as entidades financeiras resistem às regulações que poderiam inibir os exagerados fluxos financeiros, até criminosos, com as manipulações das taxas de juros como a Libor – London Interbank Rate, ou câmbios estabelecidos em mercados como o de Londres. As atividades financeiras, que tinham a função de dar suporte às atividades de produção e de comercialização, acabaram virando elas próprias uma finalidade, com movimentos que superam em muitas vezes as que são realizadas com bens reais, especulando-se muito no campo meramente virtual. Estes desvirtuamentos devem preocupar a todos, inclusive brasileiros.

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