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Quem quer dinheiro?

por Gerson Freitas Jr — publicado 11/11/2010 17h09, última modificação 17/11/2010 16h13
A boa fase da economia nacional e a sobra de recursos elevam a captação das empresas no exterior. Por Gérson Freitas Jr.
Quem quer dinheiro?

Brasil corre riscos se o preço das commodities despencarem. Foto: Ag. Vale

O Brasil nunca foi tão beneficiado por uma crise econômica mundial. Basta dizer que, dois anos após a quebra do Lehman Brothers e o estouro da bolha imobiliária norte-americana, a oferta de dólares para financiar as companhias nacionais é a maior da história. Entre janeiro e setembro, as empresas do País captaram mais de 32 bilhões de dólares com a emissão de bônus em moeda estrangeira. O volume supera o recorde de 26,2 bilhões de dólares, registrado em 2009. Até o fim do ano, as companhias terão absorvido mais de 40 bilhões em financiamentos, segundo diferentes previsões.

O ritmo das captações intensificou-se em setembro. De acordo com a Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima), o País colocou no mercado internacional mais de 8 bilhões de dólares em títulos da dívida privada nesse perío-do. Vale, CSN, Gerdau, Telemar e Itaú Unibanco tomaram mais de 1 bilhão de dólares cada. A Suzano Papel e Celulose emitiu notas no valor de 650 milhões de dólares, acompanhada por Odebrecht Finance (500 milhões) e Banco Cruzeiro do Sul (400 milhões). O frigorífico JBS Friboi, que havia captado 700 milhões de dólares em julho, emitiu mais 200 milhões em notas em setembro.

Eduardo Borges, diretor de Mercado de Capitais do Banco Santander, afirma que a maior parte dos papéis emitidos pelas empresas brasileiras vence em dez anos – prazo mais aceito pelos grandes fundos norte-americanos – e oferece juros que oscilam entre 5,5% e 9,5% ao ano. De modo geral, o dinheiro é usado para refinanciar dívidas passadas. “As empresas estão aproveitando o cenário favorável para fazer gestão de passivos, realinhar suas obrigações com taxas de juro mais baixas e adiantar recursos para investimentos no ano que vem”, afirma o executivo.

O apetite dos investidores internacionais pela dívida privada brasileira é enorme, afirmam os economistas. A demanda pelos bônus da Gerdau com vencimento em 2021, por exemplo, atingiu a marca de 4,5 bilhões de dólares – quase quatro vezes mais que a oferta final, de 1,25 bilhão. No caso da CSN, que captou 1 bilhão de dólares, a procura foi sete vezes maior. O executi-vo do Santander, maior emissor de títulos de empresas brasileiras no exterior, destaca que mesmo empresas que não possuem o grau de investimento definido pelas agências internacionais de classificação de risco – caso dos frigoríficos JBS e Marfrig, por exemplo – têm tido grande facilidade em colocar seus papéis no exterior.

O movimento reflete tanto a conjuntura internacional quanto as mudanças estruturais pelas quais passa a economia brasileira. No cenário externo, o mundo convive com uma abundância de liquidez sem precedentes depois que os bancos centrais dos Estados Unidos e da Europa injetaram trilhões de dólares no mercado com o objetivo de impedir que suas economias entrassem em depressão.

Se sobra dinheiro para investir, são poucas as aplicações rentáveis. As taxas de juro seguem, e devem continuar- por muito tempo, próximas de zero. E há poucos sinais de que vale a pena apostar na Bolsa com as economias centrais ainda em marcha lenta. “O mercado de renda variável nos mercados maduros ficou muito volátil por causa das incertezas em relação à recuperação de Estados Unidos e Europa. O cenário fez com que os investidores migrassem para a renda fixa. E quando falamos em renda fixa, o Brasil é uma das melhores opções existentes”, afirma Borges.

É quase consenso entre os analistas de mercado que o País saiu não apenas ileso, mas fortalecido da crise mundial. O aumento da renda e do consumo nos últimos anos, a descoberta de petróleo na camada pré-sal, os investimentos em infraestrutura e a realização da -Copa do Mundo e das Olimpíadas alimentam o sentimento de que o Brasil deverá crescer de modo acelerado nos próximos anos. “Há uma percepção de que é possível obter um retorno muito interessante aqui”, afirma Borges.

Alexandre Pierantoni, sócio da área de fusões e aquisições da Pricewater-houseCoopers no Brasil, afirma que o interesse reflete não apenas a perspectiva de crescimento da economia brasileira, mas também o processo de consolidação e internacionalização das empresas nacionais. “Há uma mudança estrutural do ponto de vista da inserção do País no mercado internacional, e uma previsibilidade que não tínhamos em momentos anteriores.”

Ernesto Lozardo, professor de economia da Fundação Getulio Vargas (FGV), estima que o Brasil vai captar 45 bilhões de dólares com a emissão de títulos da dívida privada neste ano. Segundo ele, o País ficará atrás apenas da China, onde as emissões de bônus devem fechar na casa dos 60 bilhões. “O Brasil mostrou-se um país forte durante a crise, possui um sistema financeiro sólido e bem regulamentado e um dos mercados de capitais mais amplos, competitivos e sofisticados do mundo. Além disso, as dez maiores empresas nacionais são conhecidas em todo o mundo e elevam a percepção que o investidor tem em relação ao nível da gestão local.”

Segundo o economista, o Brasil não pode prescindir do capital externo caso queira levar em frente seu programa de investimentos. “Vamos precisar manter captações no patamar de 45 bilhões a 50 bilhões de reais nos próximos anos. Não temos poupança interna suficiente para continuar crescendo no ritmo atual”, afirma. Lozardo acredita que o cenário externo deve se manter excepcionalmente favorável nos próximos anos, mas alerta que o Brasil ainda precisa promover melhorias institucionais para dar mais segurança jurídica aos investidores estrangeiros. “Ainda não se trata de um movimento sustentável. Se amanhã Estados Unidos e Europa se reestruturarem, é possível que o cenário não será tão favorável ao Brasil.”

Embora celebrado pelos analistas de mercado, a febre das emissões de dívida em dólar embute riscos. Segundo o Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (Iedi), a dívida externa do setor privado (que inclui o setor público financeiro) cresceu 87% desde dezembro de 2005. Só nos oito primeiros meses de 2010, o salto foi de 26,9%. O Brasil não corre qualquer risco de insolvência. Pelo contrário, o estoque total da dívida externa é mais do que coberto pelas reservas internacionais, que devem terminar o ano perto de 300 bilhões de dólares.

Contudo, observa André Biancarelli, professor do Instituto de Economia da Unicamp, o aumento da exposição ao dólar deixa as empresas mais vulneráveis a uma forte depreciação do real. “O risco que envolve qualquer tipo de endividamento externo é o descasamento de moedas”, alerta. No entanto, ele pondera que o cenário atual é amplamente favorável a uma apreciação do real, o que favorece quem tem dívida em dólar. “Neste momento, o Brasil tem é de administrar o excesso de entrada de capitais, que têm sido mais que suficientes para cobrir o déficit em conta corrente.”

“Obviamente há riscos, especialmente no caso de empresas que não têm sua receita atrelada ao dólar. Mas as empresas brasileiras estão muito disciplinadas nesse aspecto”, garante Borges, do Santander. A crise em 2008 mostrou, no entanto, que nem mesmo as empresas exportadoras, com receita em dólar, ficaram ilesas diante da desvalorização do real. “O risco existe, mas não é uma prerrogativa apenas brasileira. Há uma guerra cambial no mundo, e todas as empresas vão aumentar seu risco. Estamos todos na mesma onda”, pondera Lozardo, da FGV.

Há outro aspecto a ser observado. Os dólares captados pelas empresas ajudam a cobrir o rombo aberto pelo déficit nas transações correntes do País, o que mantém o Brasil em situação relativamente confortável em relação às contas externas. Por outro lado, observa Biancarelli, o aumento da dívida vai implicar um aumento da remessa de recursos para o pagamento de juros nos próximos anos. “As captações ajudam a amenizar o problema atual, mas coloca uma pressão sobre a balança de serviços nos próximos anos.” O economista lembra ainda que, historicamente, o acesso ao financiamento externo “nunca foi estável, mas cíclico”. Por isso, recomenda-se conter a euforia.