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Que tipo de economia temos?

por Paulo Daniel — publicado 04/09/2012 18h09, última modificação 04/09/2012 18h10
O neoliberalismo brasileiro parece estar sendo domesticado, escreve Paulo Daniel
fábrica

Foto: Claudio Capucho/Vale/AE

Talvez um dos consensos sobre a economia brasileira é que há um grau de complexidade bastante grande de nossa economia. Por exemplo: possuímos alta e baixa tecnologia na indústria e na agropecuária, alta densidade de urbanização, autossuficiência em grãos. Atrelado a isso, apesar de avanços no aumento da renda brasileira, ainda possuímos uma alta concentração, poucos com muito e muitos com pouco.

Desde a década de 30, com Getúlio Vargas, buscamos uma, digamos, identidade no desenvolvimento do capitalismo brasileiro. Aquele momento foi um dos pontos de inflexão em nossa economia: começamos a abandonar uma economia agroexportadora e passou-se a desenvolver um processo industrial.

A década do 50, com Juscelino Kubitschek, graças ao processo iniciado por Vargas, consolida-se o capital industrial, com incentivos e benefícios megalomaníacos à indústria estrangeira, principalmente automobilística, visando a oferta de produtos de consumo final. Realizamos o dito processo de substituição de importações, entretanto, de certa maneira obsoleto e esgotado.

Nos anos 70, aproveitamos a liquidez internacional e o Estado financiou a infraestrutura brasileira, gerou empregos, aumentou a renda, mas a concentrou de forma violenta. No início da década de 1980, acreditava-se que a abertura econômica era inevitável, apesar das controvérsias a respeito de sua condução. Desde então, a liberalização foi transformando no grande condutor das políticas econômicas dos países em desenvolvimento. Entretanto, vários países latino-americanos tentaram abrir a economia e fracassaram em razão de problemas no balanço de pagamentos e crises financeiras, em especial a crise da dívida externa em 1982.

Os governos da época imaginavam que somente o livre comércio poderia proporcionar desenvolvimento com melhoria da qualidade de vida da população, possibilitado pelo crescimento econômico advindo da melhor eficiência alocativa dos fatores de produção.

A partir da segunda metade da década de 1980, ocorreu uma generalizada abertura comercial nos países latino-americanos. No Brasil o processo começou em 1988 com a eliminação dos controles quantitativos e administrativos sobre suas importações e uma proposta de redução de tarifas.

A abertura dos anos 90 provocou uma profunda reestruturação industrial no Brasil, beneficiando os consumidores com maior disponibilidade de bens e serviços, melhores preços e tecnologia, embora com impacto negativo sobre o nível de emprego. A indústria nacional, ao contrário dos concorrentes internacionais, foi prejudicada por tributação e juros elevados, carência de infraestrutura e excessiva burocracia.

A partir desse momento cria-se a ilusão que o Estado era pesado, arcaico, no entanto, continuou com sua mais importante função a indução do sistema capitalista, mas sem pretensões de aumentar a renda, mas sim, concentrá-la ainda mais do ponto de vista interno e distribuí-la junto as grandes corporações internacionais, haja vista, as privatizações brasileiras.

Com a crise mundial, o Estado foi redescoberto, mas não ainda para ampliar a renda e gerar empregos. No Brasil, ao que tudo indica, até o momento, estamos acertando a mão, nem só de mercado e nem só de Estado vive o ser humano. O neoliberalismo brasileiro parece estar sendo domesticado, mas enquanto aumenta os investimentos, a renda e amplia a oferta de mão-de-obra, as classes sociais ficam um pouco amainadas. Talvez esse hibridismo acabe quando, por exemplo, for necessário discutir a redução da jornada de trabalho. A decisão do Estado sobre o que fazer dependerá não só da relação de forças, poder e unicidade de um lado ou de outro, mas, principalmente, de que tipo de capitalismo o Estado imaginará.

 

*Artigo originalmente publicado no site Além de Economia

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