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Qual é a versão? Qual é o fato?

por Lindbergh Farias publicado 25/07/2013 08h56
Não é verdade que existe um suposto descontrole inflacionário ameaçando os recentes ganhos sociais

Existe desconforto com a inflação dos últimos meses. Ouve-se dizer que a inflação está corroendo os ganhos econômicos e sociais obtidos nos últimos anos. Há até certo desânimo. Mas nem sempre a sensação corresponde à realidade. Por exemplo, de 2003 até hoje o rendimento médio do trabalhador cresceu 125,2%, enquanto a inflação no mesmo período foi de 77,7%. Também de 2003 aos dias de hoje, o aumento nominal do salário mínimo foi de 239%, enquanto o preço dos alimentos subiu 97,9%. Nestes casos, pode-se dizer que a versão não correspondeu ao fato.

Segundo pesquisa do Datafolha, em março, 45% dos entrevistados avaliavam que a inflação subiria. Em junho, o mesmo instituto divulgou que este número aumentara para 54%. Embora os sentimentos em relação ao comportamento futuro da inflação tenham sido de que haveria mais e mais elevações de preços, a inflação continua moderada. Mantém o mesmo comportamento dos últimos anos.

Cabe observar que a pesquisa realizada pelo Banco Central junto a instituições financeiras, a pesquisa Focus, avalia que a inflação de 2013 será de 5,75%. Tais instituições mudam suas previsões ao longo do ano. Suas expectativas sempre variaram de 5,49% a 5,89%. Em outras palavras, nunca houve previsão de que a meta limite de inflação, que é de 6,5%, seria estourada. Tudo semelhante ao que ocorrera nos últimos anos. Em 2011, a inflação foi de 6,5%, em 2012, de 5,84%.

A inflação brasileira tem tido uma trajetória na forma de ciclo com fases de aceleração, pico e desaceleração. No início de 2013, estávamos na fase de aceleração. Já foi atingido o pico. A partir de agora, todos os indicadores antecipam que teremos a fase da desaceleração. A trajetória da inflação brasileira tem sido muito influenciada pela trajetória dos preços dos alimentos. O pico dos preços dos alimentos foi atingido em abril, quando acumulou em 12 meses 14%. Além disso, a inflação de 2013 também será beneficiada pelos movimentos legítimos que conquistaram a redução das tarifas dos transportes urbanos.

A versão de descontrole de preços foi constituída na fase de aceleração da inflação. A versão tinha como base os fatos correntes que, de fato, revelavam uma elevação da inflação. Contudo, análises equilibradas não podem estar baseadas em números exclusivamente conjunturais. Análises sérias, que procuram entender a realidade, buscam o entendimento de ciclos e de trajetórias. Quem quer construir versão, apressadamente confunde fato pontual com tendência econômica. E foi isto que predominou nas análises pessimistas durante o primeiro semestre do ano.

Muito se falou que a inflação havia estourado a meta. Tal afirmativa está errada porque a meta brasileira é estabelecida para a inflação acumulada de janeiro a dezembro. Portanto, estouro só pode ocorrer em dezembro de cada ano. A meta não foi estourada em 2011, não foi estourada em 2012 e não será estourada em 2013. A última vez que houve estouro da meta foi em 2003. Faz mais de dez anos. Nesse período, o governo e o Banco Central aprenderam a controlar a inflação. Isto não é versão, é fato.

Quando a versão substitui os fatos e análises equilibradas é hora de repetir os fatos e de analisá-los novamente. A versão construída foi que havia um descontrole inflacionário e que ganhos sociais estavam se perdendo. Não é verdade. O fato é que a trajetória da inflação de 2013 é muito semelhante a tudo aquilo que ocorreu nos últimos anos, ou seja, inflação moderada e dentro da meta. Mais: é muito provável que a inflação de 2013 seja a menor dos últimos três anos. É o que indica a previsão da pesquisa Focus cujos respondentes são instituições financeiras.

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