Economia

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Prudência e dúvidas

por Delfim Netto publicado 14/03/2011 09h25, última modificação 14/03/2011 18h02
Aparentemente, o Banco Central comprou fôlego para esperar um pouco o comportamento dos preços sem sacrificar a sua credibilidade, que está posta em risco por uma expectativa de inflação claramente acima da meta. Por Delfim Netto
Prudência e dúvidas

Aparentemente, o Banco Central comprou fôlego para esperar um pouco o comportamento dos preços sem sacrificar a sua credibilidade, que está posta em risco por uma expectativa de inflação claramente acima da meta. Por Delfim Netto. Foto: Fábio Rodrigues Pozzebom/ABr

Aparentemente, o Banco Central comprou fôlego para esperar um pouco o comportamento dos preços sem sacrificar a sua credibilidade, que está posta em risco por uma expectativa de inflação claramente acima da meta

As dúvidas que vêm sendo manifestadas pelo Banco Central em atas e boletins recentes sobre a estabilidade e precisão dos parâmetros exigidos pela política monetária (defasagem entre o aumento do juro real e seu efeito sobre a demanda global; nível da taxa de juro neutra e o produto potencial) são mais do que esclarecedoras. Esse estado de dúvida será um ingrediente muito importante no aperfeiçoamento e no reconhecimento dos limites da política no governo Dilma, antes imposta como produto de uma suposta ciência monetária da qual se supõem portadores alguns analistas dos mercados financeiros.

Manifestações de tal aperfeiçoamento foram as medidas do Banco Central: 1. Um aumento geral dos depósitos compulsórios. 2. Diferenciação do compulsório de acordo com o prazo do financiamento. 3. Limitações para a transferência de carteiras de crédito. É preciso reconhecer que tal aperfeiçoamento está sendo procurado em todas as economias do mundo, onde seus bancos centrais tentam recuperar velhos e criar novos instrumentos de controle do crédito (e da demanda global), além da manipulação da taxa de juro real de curto prazo. É o caso do aumento dos compulsórios sobre os depósitos bancários e a exigência de mais “reserva prudencial” com relação ao prazo dos financiamentos. Aliás, tais diferenciações já existem e são universalmente aplicadas com relação à classificação do risco do tomador do empréstimo (sob controle, no nosso caso, da fiscalização do BC).

Ninguém discute que a manipulação da taxa de juros, ao primeiro sinal de desvio da taxa de inflação com relação à meta, tem efeitos mais gerais sobre a economia, principalmente sobre o valor dos ativos. O que se discute é se ela é, necessariamente, melhor, diante das imensas incertezas que sempre envolverão a indispensável vigilância monetária. E, também, ninguém pode ignorar que a diferenciação da política monetária num ambiente financeiro tão complexo tem efeitos muito diferentes, de acordo com a dimensão dos bancos, sobre a natureza de suas operações e sobre outros mecanismos de financiamento (isentos de depósitos compulsórios) que cobram taxas de juro escorchantes. Talvez seja essa a razão pela qual o Banco Central tenha elevado o nível do crédito protegido de 60 mil para 70 mil reais, que cobre 99% dos clientes.

A implantação dessas medidas objetiva produzir dois efeitos: uma redução sobre a expectativa da taxa de juros de curto prazo e um aumento dessa expectativa no prazo mais longo. Aparentemente, o Banco Central comprou fôlego para esperar mais um pouco o comportamento da taxa de inflação sem sacrificar a sua credibilidade, que está posta em risco por uma expectativa de inflação claramente acima da meta. Há razões para esse comportamento. Em primeiro lugar, há incertezas sobre o excesso de demanda interna. O déficit comercial não é um indicador confiável em razão da enorme supervalorização do real produzida pela imensa taxa de juro real que violenta a economia brasileira. Em segundo lugar, é claro que (mesmo com o câmbio valorizado) boa parte da pressão (produzida mais pela especulação dos hedges funds do que pelos “fundamentais”) vem do exterior, como mostra o aumento da inflação em vários países emergentes (vide China, Rússia etc.). Em terceiro lugar, pela imensa volatilidade de alguns preços internos produzidos por choques de oferta. O feijão, por exemplo, estava em 69 reais a saca em dezembro de 2009. Pulou para 135 reais, em junho de 2010, atingiu 200 reais, em setembro e, no fim do ano, aproximou-se de 90 reais a saca!

O Banco Central está passando por um profundo processo de humilde aprendizado e merece um voto de confiança, mesmo daqueles economistas que continuam a acreditar que são portadores de uma “ciência”. Para apaziguar a alma dos que ainda acreditam que as medidas são sinais de “heterodoxia” ou “obsoletismo”, basta lembrar o que a presidenta Dilma Rousseff declarou antes da elevação de 0,50% da taxa Selic às vésperas do carnaval: “Façam o que tiver de ser feito para manter a inflação sob controle”. Será preciso ainda maior demonstração de ortodoxia e confiança no Banco Central?