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Presente de grego

por Delfim Netto publicado 07/11/2011 09h06, última modificação 07/11/2011 09h41
Baixar os salários com medidas de economia, sem poder recorrer à desvalorização da moeda é o mesmo que operar o paciente sem anestesia
grecia

'O ponto de partida para o equacionamento do caso grego tem que ser essa identificação de responsabilidades'. Foto: Louisa Gouliamaki/AFP

Embora um tanto desconfiadas no que diz respeito à implementação, de modo geral foram favoráveis as reações aos termos do acordo das lideranças europeias para evitar o calote da dívida grega, na semana passada. Parecia, a todos, que a decisão política no “mais alto nível” garantia as condições de sobrevivência do euro e abria nova chance de consolidação do sistema da Comunidade Europeia.

O “acordo” é, na verdade, somente um projeto que procura ganhar tempo para solucionar a questão grega, empurrando a dívida “com a barriga” e ignorando o problema de curtíssimo prazo: a capacidade do governo da Grécia de se manter de pé e convencer o povo nas ruas a suportar os custos do ajuste. A proposta do primeiro-ministro Papandreou de realizar um referendo sugere um apelo de “cessar fogo” aos manifestantes indignados, um apelo à razão na 25ª hora. Ela produziu reações indignadas dos principais líderes europeus, que exigem dos gregos aceitar os custos de um ajuste que dificilmente proporiam aos cidadãos de seus próprios países. A alternativa que alemães e franceses colocam é a retirada da Grécia do sistema do euro, uma saída que talvez ainda seja a menos traumática neste momento para a população grega.

O que se articulou, até agora, foi uma dessas operações meio “mágicas” que podem dar uma sobrevida ao euro. Ela tenta recuperar um pouco de tranquilidade no curto prazo, mas sem consequências práticas importantes, porque as pessoas percebem que são soluções que vão demorar dois ou três anos para produzir efeitos. Pode-se esperar a utilização mais ágil dos instrumentos do Banco Central Europeu com a posse do economista italiano Mario Draghi, um profissional da maior competência e com larga experiência, para dar um pouco mais de tranquilidade ao mercado. Aumenta, no entanto, a sensação de que se perdeu demasiado tempo nesses dois anos sem enfrentar os verdadeiros problemas, a exemplo do que aconteceu nos Estados Unidos no governo Obama.

É evidente hoje que ele hesitou muito antes de orientar a administração no sentido de promover a recuperação dos níveis de emprego, mediante os estímulos corretos ao crescimento econômico. Pesquisas de opinião mostram que dois terços das pessoas consultadas consideram o governo o principal culpado pela crise econômica e pela tragédia do desemprego. Esses resultados perturbam a sua campanha em busca da reeleição daqui a um ano. Um dos fatores ainda mais desagradáveis tem sido a avaliação que se faz dos programas postos em prática, tardiamente, para enfrentar a crise, cuja qualidade foi considerada lamentável, após gastos de mais de 1 trilhão de dólares.

Foram três programas com pífios resultados, especialmente em relação ao objetivo de reduzir os níveis do desemprego, que continuam altíssimos: 1. Colocar dinheiro diretamente nas mãos dos cidadãos (152 bilhões de dólares em cheques do Tesouro) para que eles o gastassem em consumo. 2. Disponibilizar recursos para compras governamentais e infraestrutura (862 bilhões de dólares). 3. Transferir verba para governos locais, na esperança de que ampliassem seus gastos com bens e serviços (173 bilhões de dólares). Os estímulos chegaram tarde: no primeiro, o dinheiro não foi para o consumo, mas para o pagamento de dívidas; no segundo, não se gastou nos primeiros dois anos mais do que 5% do estimado e, no terceiro, o destino dos recursos foi igual ao do primeiro programa: redução de dívidas.

 

Voltando ao problema mais urgente da Eurolândia, a questão é que, mesmo com o perdão de 50% da dívida, o ajuste das contas gregas vai exigir um corte nos salários de mais de 40%. A forma de fazer isso “com anestesia” é uma maxidesvalorização dramática. Baixar os salários simplesmente com medidas de economia, de redução de custos e mais apertos aqui e ali nos gastos públicos, sem poder recorrer à desvalorização da moeda é o mesmo que operar o paciente sem anestesia.

Num cenário de elevadas taxas de desemprego, não apenas na Grécia, mas em quase todos os demais países (a exceção é a Alemanha, dentre as maiores economias), a demora em encontrar soluções faz aumentar ainda mais rapidamente o nível de insatisfação popular. Não é apenas o número de manifestantes e sua presença organizada e constante nas áreas públicas que desafiam a estabilidade política. O grau de indignação dos milhões de desempregados vem crescendo diante do conhecimento -recente dos -malfeitos bilionários que encontraram guarida nas instituições financeiras, sob as vistas complacentes dos governos..