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The Observer

Por que respeitamos os intelectuais do livre mercado?

por The Observer — publicado 11/08/2014 03h52
Sete anos depois da nacionalização do Northern Rock, a direita ainda não conseguem aceitar que suas certezas não fazem mais sentido
Ashley Pomeroy
Northern Rock

Fila de pessoas em uma das unidades do Northern Rock, em Brighton, no Reino Unido, em setembro de 2007. A empresa de hipotecas faliu e foi nacionalizada, mas a ideologia que sustentou seu modo de atuar ainda vive

Por Nick Cohen

Se o modo como tratamos o passado servir de guia, os historiadores do início do século XXI na Grã-Bretanha vão olhar para nós e descobrir importância em pessoas e fatos que não estamos percebendo. Seja o que mais for que eles decidam enfatizar, porém, não posso acreditar que vão ignorar o dia 14 de setembro de 2007. Naquela manhã, a Grã-Bretanha passou de uma democracia moderna madura a um país que se assemelhava a uma república de bananas falida. A multidão de poupadores que faziam fila para tirar seu dinheiro do falido banco Northern Rock era uma procissão fúnebre marcando a morte do velho mundo. O Big Bang de Margaret Thatcher, o apoio de Gordon Brown à regulamentação financeira leve e a crença conveniente dos ricos de que bônus fantásticos eram apenas as merecidas sobremesas dos financistas morreram naquela manhã – não com um "bang", mas com um Weimar.

Sete anos depois, os intelectuais de direita ainda não conseguem aceitar que suas certezas não fazem mais sentido. Como velhos em um bar, eles bloqueiam o presente e revivem o momento em que eram jovens e cheios de vigor audacioso; os dias em que Thatcher estava no poder e grupos de pensadores conservadores podiam propor as mais excêntricas privatizações e vê-las aprovadas, com aparente sucesso.

Em um espetáculo que foi ao mesmo tempo ridículo e à sua pequena maneira patético, o Instituto de Assuntos Econômicos (IEA) apresentou seu prêmio anual à livre empresa a um certo Matt Ridley no mês passado. O grupo de pensadores favorito de Thatcher homenageou os esforços de Ridley na imprensa conservadora para promover "ideias de políticas de livre mercado em áreas tão amplas quanto energia, meio ambiente e distribuição de renda". Ridley está perto demais de ser um negador da mudança climática para o meu gosto, e demasiado disposto a agradar a seus leitores para ser um pensador independente, mas não devo ser duro demais sobre seus textos. Autores com algum conhecimento de ciência são uma raridade na imprensa. Se você estiver em um trem com nada mais para ler, ele servirá.

Infelizmente para o que resta de reputação do Instituto de Assuntos Econômicos, o título completo de Ridley é O Honorável Matthew, 5º Visconde Ridley. E ele é mais conhecido por ser o presidente do Northern Rock de 2004 a 2007 do que por suas contribuições ao debate científico. Ele certamente provou sua dedicação à livre empresa lá.

O sistema de classes britânico vaza como gás por todos os cantos de nosso pensamento. As pessoas mais solidamente de esquerda admitem preferir a velha aristocracia Tory aos "nouveaus" vulgares e gananciosos de hoje. Se Ridley fizesse o papel estereotipado de um velho etoniano e, além disso, um visconde, ele teria exemplificado os melhores valores tradicionais. Sua condução do Northern Rock teria sido prudente. Ele teria evitado os esquemas de enriquecimento rápido dos homens do dinheiro vistoso.

Praticamente o único bem que saiu do Northern Rock foi que ele forneceu um antídoto para ilusões servis. Sua diretoria combinou desleixo e loucura em medidas iguais. A sociedade construtora tinha suas raízes nas tradições de autoajuda do nordeste vitoriano, tradições mais dignas de preservação do que a aristocracia tradicional. O Northern Rock as jogou no lixo. Transformou-se de uma construtora em banco na década de 1990. Em vez de atrair poupadores e emprestar seu dinheiro para compradores de casas, levantou fundos embalando suas hipotecas como títulos e vendendo-as para investidores.

Os mercados de dinheiro internacionais permitiram que o Northern Rock se expandisse tão rápido que ele havia ocupado 19% do novo mercado de hipotecas em 2007. A disposição de seus diretores a atender ao desejo de gratificação instantânea de seus clientes também o ajudou a crescer. O visconde presidiu um banco que oferecia empréstimos de 125% do valor de uma propriedade. Seus clientes podiam comprar uma casa sem fazer um depósito e ainda ter dinheiro sobrando para pagar dívidas de cartão de crédito ou sair de férias ou ir ao bar. Quando o mercado de securities apoiado em ativos faliu em setembro de 2007, o Northern Rock faliu com ele. O contribuinte teve de fornecer 31,5 bilhões de libras em empréstimos para resgate.

Que o Instituto de Assuntos Econômicos possa homenagear a dedicação de Ridley às ideias do livre mercado, quando seu histórico mostra que na prática sua versão de livre mercado fez naufragar sua instituição e ordenhou o contribuinte, revela como a bancarrota dos bancos levou à bancarrota o pensamento de direita. Seja o que for que a esquerda da época pensasse deles, os pensadores que inspiraram Thatcher confrontaram a Grã-Bretanha como era nos anos 1970. Hoje eles pensam sem fundamento em um mundo diferente em uma Grã-Bretanha de faz-de-conta.

Os conservadores nunca deveriam esquecer que sua reação imediata à crise bancária foi dizer que o verdadeiro vilão era, bem, o editor de economia da BBC, Robert Peston. A Associação Britânica de Bancos, organização que deveria ter-se enrolado em uma bola fetal e morrido de vergonha, e políticos Tory disseram que o público tinha perdido a confiança nos bancos, não por causa de qualquer falha dos banqueiros, mas porque Peston havia dito a seu público o que ele sabia. Ainda na semana passada, o Telegraph e a Associação Britânica de Bancos – que continua conosco, infelizmente – advertiram que propostas modestas do Banco da Inglaterra para recuperar os bônus dos banqueiros cujos negócios deram errado levaria os melhores e mais inteligentes para o exterior. Sete anos depois da quebra, a ideia de que nenhum país quer financistas cuja expectativa é ver os contribuintes pagarem por seus erros ainda não penetrou seus crânios.

Há discussões de princípios contra a interferência do Estado nas empresas, assim como há discussões de princípios contra o Estado dizer a adultos o que eles devem comer e quanto açúcar deve haver em suas garrafas de Coca-Cola. Quer estejam enfrentando sistemas financeiros falidos ou uma epidemia de obesidade, as sociedades modernas aprenderam da maneira mais difícil que não têm mais o luxo de acreditar neles. Se o que foi dito acima parece a abertura de um relato emocionante do triunfo da esquerda, considere que a esquerda britânica ficou tão surpresa com o colapso do Northern Rock quanto o 5º visconde Ridley. Para generalizar, mas não com muita extravagância, depois da morte do socialismo a esquerda passou a travar guerras culturais e a adotar políticas de identidade. Ela se preocupou mais com o uso da linguagem do que com a economia, e quando o capitalismo financeiro desmoronou não tinha ideia de como reformá-lo ou substituí-lo.

Mais que qualquer pesquisa de opinião, a incapacidade da esquerda de dizer como ela pode seguir em frente partindo de uma situação falida, e a incapacidade da direita de sequer admitir que falhou, explica por que estamos presos em uma espécie de limbo e o resultado mais provável da eleição geral do ano que vem é mais um impasse.

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