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Por que não celebrar a reeleição de Kátia Abreu na CNA

por Rui Daher publicado 17/10/2014 11h56, última modificação 17/10/2014 12h04
A senadora do Tocantins pelo PMDB não coloca entre as prioridades ampliar o apoio à agricultura familiar
Arquivo Pessoal
kátia abreu

Kátia Abreu (PMDB-TO) foi reeleita em 15 de outubro presidente da Confederação da Agricultura e Pecuária

Como esperado, a senadora Kátia Abreu (PMDB-TO) foi reeleita, em 15 de outubro, presidente da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil. Parabenizá-la é um gesto protocolar e de boa educação; comemorar nem tanto, embora entre os membros da Corporação Ruralista ela seja uma das lideranças mais lúcidas.

Em sua mensagem, relatou as prioridades da CNA: “(...) política agrícola de longo prazo, questões trabalhistas, logística com foco nas hidrovias e ferrovias, abertura de novos mercados via acordos internacionais e um novo modelo de registro de agroquímicos que garanta segurança com menos burocracia”.

Aplausos demorados, provavelmente. São ações sempre reclamadas ao governo com veemência de berrantes eletrônicos. Questões trabalhistas e de registro de agroquímicos, em especial.

Ao generalizar - “produtores rurais” - sabiamente a presidente foge do estigma confederativo de cuidar apenas dos interesses da grande agricultura, embora saiba que hidrovias, ferrovias e acordos internacionais passem longe das necessidades imediatas de campesinos, caboclos e sertanejos.

Claro que algumas dessas ações acabam escorrendo até os riachinhos da agricultura familiar. Já escrevi ser equivocado olhar para esses milhões de agricultores e pecuaristas com o estereótipo de assentados ou sem terras. Produzem mais de 70% dos alimentos que vão às mesas dos brasileiros, usam tecnologias modernas, e cultivam outros milhões de pequenas e médias propriedades, suas ou arrendadas. Inclusive, grãos para exportação.

Do que reclama, então, o colunista que cheira orégano e tem vocação para poeta, conforme se manifestou comentarista sobre a última coluna? Simples: o fato de a presidente da CNA não colocar entre as prioridades ampliar o apoio à agricultura familiar.

Terá sido reconhecimento pelo que os três últimos governos fizeram por esse segmento da agropecuária? Além de justo, seria de se esperar de um político do PMDB, partido aliado do PT, no plano federal.

Preferiu, no entanto, se manter na miúda, como vem fazendo nos últimos meses, licenciada que estava, em campanha pela presidência da confederação, mesmo depois de ter sido cogitada para o Ministério da Agricultura, em eventual reeleição de Dilma Rousseff.

Suas reticências podem estar ligadas ao amplo apoio que Aécio Neves recebe do setor rural, cego ou desmemoriado do que foi a sua vida nos ortodoxos e neoliberais anos 1990.

Não é o meu caso. A verdadeira expansão do agronegócio brasileiro tem data e endereço certos. Principalmente, quando aqui é vista assim do alto.

Se uso a lupa, vejo que os últimos dez anos foram temperados (sem orégano) com muito apoio à agricultura familiar:

1) As declarações de aptidão para acesso ao PRONAF (Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar) cresceram 23% ao ano, até 4,8 milhões de famílias e assentados;

2) O valor de recursos contratado pelo programa, entre as safras 2002/03 e 2013/14, decuplicou até chegar a 22,3 bilhões de reais no último período. Um crescimento anual de 23%;

3) O seguro que os protege de adversidades climáticas triplicou no período (7,7 bilhões de reais em 2013);

4) As garantias de safra, através de programas voltados à Aquisição de Alimentos e incentivos ao leite e ao biodiesel, alcançaram 4,7 bilhões de reais.

Pois é: parece muito, mas falta tanto. E é isso que faz mancas as declarações de prioridade da presidente da CNA.

Ao público ruralista, que a oposição e seus porta-vozes em folhas e telas cotidianas pretendem atingir, apoiando maciçamente o candidato de cepa econômica neoliberal, deveria interessar o mais paternalista Estado na colheita de grãos dos próximos dois anos. Assim agirão EUA e União Europeia.

A queda das cotações, na época da colheita, poderá ser maior do que aparenta. Basta lembrar-se de 2005 e a segurada de barra que o Tesouro Nacional precisou dar. E deu.

Esperar compensações pelo câmbio e redução nos preços dos insumos, é sonhar. Pela euforia que virá com a volta do espírito animal investidor, o dólar não compensará toda a defasagem. E se o fizesse influenciaria os preços dos insumos importados. Diariamente, são anunciados fusões de empresas, fechamentos de plantas, interrupções em turnos de produção de fabricantes de insumos agrícolas.

Prometo aos caros leitores picolés de torresmos (a mais nova do Júnior, amigo Márcio Alemão) se ouvirem dos representantes comerciais da Monsanto, Syngenta, Bayer, Basf, FMC, e outras, que os preços de seus produtos irão cair por causa da queda nos preços dos grãos.

A menor presença do Estado na agropecuária é fatal em momentos de crise. A não ser que o setor rural tenha passado a acreditar em duendes e que economistas ortodoxos, quando passam de tecnocratas a banqueiros, agora abrandem seus financistas coraçõezinhos peludos.