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Pode ficar melhor

por Delfim Netto publicado 05/10/2010 12h14, última modificação 07/10/2010 12h16
Ninguém mais teme a repetição daqueles momentos em que o Brasil tinha corrida no câmbio a cada eleição, a inflação disparava. Por Delfim Netto
Pode ficar melhor

As estimativas estão acima do centro da meta de 4,5%, mas abaixo do limite superior de 6,5%

Não é preciso procurar muito por explicações para o ambiente de maturidade que a sociedade brasileira desfruta, em meio à agitação própria das campanhas políticas que mobilizam os eleitores em todo o País.
Há razões de ordem social e econômica que respondem pelo clima de tranquilidade que vivemos, mas o fator que se sobrepõe a todos os demais é o aperfeiçoamento das instituições nascidas da Constituição de 1988. Nessas duas décadas, desde que foi promulgada, ela só tem confirmado o seu papel de fundadora de instituições sólidas.

Esse aperfeiçoamento acontece continuadamente, sem tropeços, diria que de forma silenciosa, em meio às turbulências que são normais na vida dos povos. As pessoas às vezes não percebem o quanto o Brasil melhorou institucionalmente nesses anos recentes. O sentimento generalizado, porém, é de que adquirimos as condições de fazer com segurança a transição dos governos, num clima de respeito à normalidade democrática. O próprio comportamento do Supremo Tribunal Federal, que surpre-ende algumas mentes, comprova a solidez que as instituições adquiriram.
Ninguém mais teme a repetição daqueles momentos em que o Brasil tinha corrida no câmbio a cada eleição, a inflação disparava, havia um enorme desgaste na economia, vivíamos meses de perturbações importantes nas atividades das empresas. Isso tudo terminou: o câmbio se mantém estável, a taxa da inflação adquiriu até mesmo um “viés de baixa”, o desemprego continua em queda e o crescimento se mantém robusto.

O aproveitamento inteligente das reservas de óleo e gás do pré-sal será a garantia de que o desenvolvimento continuará se realizando em condições de estabilidade social e com elevado nível de emprego, melhora da renda do trabalho e mais equilíbrio na distribuição de seus benefícios. E, principalmente, sem ameaça de perturbações, nos próximos 20 anos, na conta corrente ou na oferta de energia, dois dos fatores que responderam pela frustração do crescimento nas últimas décadas do século passado. A continuidade desse saudável amadurecimento vai depender, obviamente, da qualidade das administrações que vão dirigir o País daqui para a frente. É evidente que o sucesso econômico neste segundo mandato do presidente Lula tem tudo a ver com o clima que desestimula qualquer radicalização política.
Em razão mesmo desse resultado jamais imaginado pelos partidos oposicionistas (nenhum presidente na história deste país chegou ao final do mandato com índices de aprovação de 80%), o carisma de Lula liquefez no nascedouro as pequenas baixarias intentadas na reta final da campanha presidencial. Digam o que disserem, o povo credita à liderança providencial de Lula a salvação dos empregos brasileiros que a crise financeira internacional ameaçava dizimar em 2008 e 2009, coisa que a maioria dos grandes líderes mundiais não soube evitar em seus países. E por esse motivo amargam até hoje, merecidamente, índices indecentes de impopularidade.
Não há como esconder essa realidade: no governo Lula, pela primeira vez, os brasileiros puderam se aproximar dos ideais inscritos na Constituição de 1988, de construção de uma sociedade justa e solidária, capaz de realizar o desenvolvimento, erradicar a pobreza e reduzir as desigualdades sociais e regionais.

Os representantes  eleitos para a Assembleia Constituinte não tiveram dúvida de que esses princípios correspondiam ao desejo manifesto do povo brasileiro e por isso foram recepcionados no preâmbulo da Carta, batizada de Constituição Cidadã pelo eminente líder paulista Ulysses Guimarães.
Com todas as ideias de generosidade que foi capaz de abrigar (algumas difíceis de realizar), ela construiu o ambiente que temos hoje, acenando com a igualdade de oportunidades e estimulando mudanças que permitiram a abertura da economia, a estabilização com o real, a responsabilidade fiscal e a melhora da qualidade da administração.
É todo um processo que avançou esses anos e que não oferece estímulos para retroceder. É um processo que vai se aperfeiçoar e produzir coisas melhores. •