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Pingos nos is

por Luiz Antonio Cintra — publicado 03/08/2010 10h04, última modificação 03/08/2010 17h41
Guido Mantega diz que foi dele – e não de Meirelles – a decisão de comprar reservas
Os pingos nos ''is''

Em entrevista exclusiva à CartaCapital Guido Mantega diz que foi dele – e não de Meirelles – a decisão de comprar reservas. Foto: Fabio Rodrigues Pozzebom/ABr

Guido Mantega diz que foi dele – e não de Meirelles – a decisão de comprar reservas

Alguns grandes bancos que operam no mercado cambial têm pela frente um abacaxi de 13 bilhões de dólares a descascar. É esse o tamanho da aposta que eles fizeram contra o real, de olho na possibilidade de uma valorização abrupta da cotação da moeda norte-americana, há meses na casa de 1,75. Como se sabe, a aposta deu com os burros n´água, e a cotação do real, para infelicidade dos exportadores, segue firme. Os especuladores contavam com o calendário eleitoral e com o rombo crescente das contas externas brasileiras, cuja trajetória é influenciada pelo real valorizado. A deterioração projeta um déficit externo ao longo do ano de 50 bilhões ou 2,5% do PIB, segundo o Banco Central. Em junho, já estava em 2,13% do PIB o resultado negativo acumulado nos 12 meses anteriores, indicando a maior necessidade de o Brasil “importar” dólares para fechar suas contas.

Em entrevista à CartaCapital, o ministro da Fazenda, Guido Mantega, rebate os críticos que consideram desastrosa essa conjuntura. “Se olharmos o conjunto das contas externas, veremos que o déficit de 2,13% não é grande. Em períodos recentes, tivemos déficits bem maiores, com a diferença de que a nossa dívida externa é hoje uma das menores da série histórica, algo como 13% do PIB. Em 1999, a dívida externa era de 40% do PIB. Como se mede a vulnerabilidade externa? Olha-se para o déficit, mas também para a dívida externa e as reservas. A nossa dívida externa líquida é negativa porque estamos com 255 bilhões de dólares de reservas e temos 225 bilhões de dívida externa”, afirma o ministro.

Mantega aproveita para alfinetar Henrique Meirelles, do BC, sempre apontado como responsável pelo aumento das reservas internacionais que hoje dão maior segurança e permite se contrapor aos especuladores de plantão. “Foi com a minha entrada no ministério que mudamos essa política, que começamos a acumular reservas, pressionando para que fossem compradas”, dispara o ministro.

CartaCapital: O rombo de 23 bilhões no primeiro semestre surpreendeu?

Guido Mantega: Não surpreendeu não, todas as projeções indicavam um déficit para o ano de 42 bilhões a 50 bilhões de dólares nas transações correntes. A tendência é que seja menor porque vamos exportar mais minério, já exportamos na verdade, então o saldo comercial poderá ser de 15 bilhões de dólares, e não de 12 bilhões como foi projetado. Essas são as variáveis, não há nada fora do que já estava nas projeções. O que procurei frisar ontem, quando falei com jornalistas de vários veículos, é que a imprensa costuma pegar sempre pelo lado negativo, considerando que o déficit em transações correntes é sinônimo de fraqueza, de deficiência. Procurei explicar que estamos com esse déficit em primeiro lugar por causa do sucesso do Brasil, que está crescendo muito mais do que o restante dos países. Como o comércio diminuiu, estamos aumentando as importações em uma velocidade muito maior do que as exportações. Se a gente estivesse crescendo 1% ou 2%, não estaríamos com esse déficit, estaríamos importando muito menos. Estamos aumentando as exportações a uma velocidade de 25% a 27% em relação ao ano passado, o que é bom, demonstra que estamos retomando. Só que as importações estão aumentando 45%. Como a nossa atividade está muito mais aquecida do que o restante do mundo, com exceção dos asiáticos, temos um desequilíbrio, o nosso mercado é mais exuberante do que os demais, muitos dos quais estão em depressão.

CC: E é essa depressão a que o senhor se refere que pressiona a remessa de lucros para as matrizes.

GM: Exatamente, as empresas estrangeiras têm mais lucro aqui do que lá fora e precisam melhorar os seus balanços, então remetem. Neste ano deverão remeter 32 bilhões de dólares, o que também se explica pelo câmbio. O câmbio favorece isso, o câmbio valorizado. Além disso, é preciso olhar na conta de serviços o item referente a locações de equipamentos, que tem muito a ver com a Petrobras. No semestre, deu algo como 6 bilhões de dólares em despesas. Os gastos com transporte também aumentaram, assim como a conta de turismo porque está aumentando a renda e o dólar está barato... Passei uma semana em Nova York, depois que fui para o encontro do G-20 em Toronto, e lá observa-se deflação, eles estão próximos de deflação, que é o terror do Bernanke.

CC: Vendo a situação como um todo, o senhor tem dito que em algum momento a cotação do dólar será impactada pelo aumento do déficit.

GM: Exatamente, mas o que atrapalha neste momento é a capitalização da Petrobras, adiada para setembro, que vai trazer um certo volume de dólares, um volume substancial, mas que não se sabe ao certo quanto.

CC: É possível haver novo adiamento?

GM: Não, já foi publicado um fato relevante fixando a data para setembro. Estaremos pressionados até lá, depois de lá se poderá ter uma desvalorização do real. Se bem que há hoje uma guerra cambial, em que todos os países querem desvalorizar a sua moeda, inclusive os EUA e os europeus.

CC: Há uma corrida por desvalorizações cambiais?

GM: Exatamente, porque todos sabem que isso é bom para a economia. Então temos uma briga a enfrentar. Mas eu cheguei a falar que com esse déficit em transações correntes é esperado que haja alguma reação do mercado de câmbio, que é flutuante, achando que em algum momento isso ocorrerá. Mas eu queria chamar atenção que estarmos nessa situação não é um sinal de fraqueza do País. E ao mesmo tempo mostra que isso não comprometeu a nossa vulnerabilidade, isso tem de ficar muito claro. Ontem fizemos uma emissão de 750 milhões de dólares com vencimento para 2021, com a menor taxa de todos os tempos, de 4,57%, com uma demanda fortíssima que eu não posso revelar de quanto. Se olharmos o conjunto das contas externas, veremos que o déficit de 2,13% não é grande. Em períodos recentes, tivemos déficits bem maiores, com a diferença de que a nossa de que a nossa dívida externa é hoje uma das menores da série histórica, algo como 13% do PIB. Em 1999, a dívida externa era de 40% do PIB. Como se mede a vulnerabilidade externa? Olha-se para o déficit, mas também para a dívida externa e as reservas. A nossa dívida externa líquida é negativa porque estamos com 255 bilhões de dólares de reservas e temos 225 bilhões de dívida externa, pública e privada, sendo que 66% disso é privada e 33% é pública. Então a nossa situação é a mais confortável possível, estamos muito sólidos do ponto de vista externo.

CC: O mercado financeiro, como se sabe, sempre procura antecipar os cenários e se posiciona para lucrar com esses movimentos. No momento, o mercado financeiro está com uma posição vendida em dólar de 13 bilhões, esperando a alta do dólar. Essa situação é preocupante?

GM: Apesar de ter aumentado a posição vendida, eles não conseguiram derrubar o dólar, porque quando se assume uma posição vendida os investidores querem ganhar quando o real de desvaloriza. E o real continuou firme. Por um lado, o Banco Central continuou comprando bastante e, como saiu na imprensa, consultou as mesas para saber do interesse pela compra de “swap reverso” (modalidade de investimento financeiro equivalente a uma compra no mercado futuro de câmbio). Os bancos ficaram numa armadilha porque eles jogaram por uma desvalorização do dólar. Se ele não se desvalorizar, eles vão perder dinheiro, assim como perderam quando o BC decidiu subir os juros 0,5% e não 0,75%, como os bancos esperavam. Uma novidade importante é que o Brasil, que sempre foi completamente previsível para o mercado cambial, apresenta umas novidades, que eles não gostam, eles gostam de jogar certo. E aí teve alguma imprevisibilidade, tanto na Selic como no mercado cambial, nos dois casos eles não estão se sentindo tão à vontade. O Banco Central insinuou que poderá fazer (vender swap reverso) e o ministro da Fazenda foi lá e falou que apoia ações no mercado futuro. Eles não estão se sentindo confortáveis e estão pedindo ajuda para sair dessas posições.

CC: O calendário eleitoral no Brasil, particularmente no caso do mercado cambial, é visto como uma espécie de “janela de oportunidade”, como o mercado financeiro gosta de chamar. Nesta eleição será diferente?

GM: Era visto como uma janela de oportunidade porque era um período de volatilidade. A pouca solidez da economia no passado levava à volatilidade, eles ganham com a volatilidade, que, diga-se de passagem, eles acentuavam. Nestas eleições, nós estamos em uma situação de muita solidez, o que dificulta a volatilidade. E as medidas que adotamos, como o IOF que está lá até hoje, demonstram que o governo está disposto a impedir a volatilidade. E está com mais instrumentos e pode usar instrumentos que são comuns, como atuar no mercado futuro, o que até o Armínio (Fraga) fazia, ou seja, faz parte das regras do jogo. Só ficamos muito tempo sem poder usar, agora podemos usar e temos disposição. Tanto que estamos com uma baixa volatilidade no mercado de câmbio. Acredito que temos condições de neutralizar essa expectativa eleitoral, se é que há. E na verdade essa expectativa não foi exercida em 2006. Em 2006, tínhamos 60 bilhões de dólares em reservas. Foi com a minha entrada no ministério que mudamos essa política, que começamos a acumular reservas, pressionando para que fossem compradas. Mesmo com 60 bilhões, não houve problemas. Agora com essa situação muito mais sólida, com o país crescendo a 7%, sendo elogiado todos os dias, hoje mesmo a The Economist voltou a elogiar o Brasil num artigo intitulado “Quatro Motivos para Acreditar no Brasil”. O governo tem como garantir que não haverá essa volatilidade.