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Perdas e ganhos na crise

por André Siqueira — publicado 05/08/2009 14h58, última modificação 20/09/2010 14h59
Ver uma empresa como a Embraer reportar alta de 31% no lucro no segundo trimestre, em plena crise financeira global, é notícia a ser aplaudida por todos nós, brasileiros. A companhia é uma das principais exportadoras nacionais, e vende tecnologia. Mas contenho minhas mãos ao recordar o imbróglio do primeiro trimestre, quando a fabricante de aviões teve de dar satisfações ao presidente Lula e à Justiça do Trabalho antes de demitir 4.200 funcionários, algo como 20% da força de trabalho.

Ver uma empresa como a Embraer reportar alta de 31% no lucro no segundo trimestre, em plena crise financeira global, é notícia a ser aplaudida por todos nós, brasileiros. A companhia é uma das principais exportadoras nacionais, e vende tecnologia. Mas contenho minhas mãos ao recordar o imbróglio do primeiro trimestre, quando a fabricante de aviões teve de dar satisfações ao presidente Lula e à Justiça do Trabalho antes de demitir 4.200 funcionários, algo como 20% da força de trabalho.

O argumento, então, era o de que a crise era extremamente grave, e as perdas seriam pesadas caso o grupo não reduzisse a folha de pagamento. De nada valeu a insistente alegação dos representantes dos trabalhadores de que o corte era exagerado. O sacrifício foi mantido e os trabalhadores, demitidos.
Agora, a empresa anuncia ganhos expressivos e carteira de pedidos quase intacta. O valor das encomendas se manteve em relação ao primeiro trimestre e, na comparação com 2008 (um ano dos bons para a indústria aérea), caiu menos de 10%, para 19,7 bilhões de dólares.

É bom lembrar que o ciclo industrial do setor é longo. Um avião é encomendado com antecedência de anos. Entregas podem ser adiadas, até canceladas, se a crise apertar. Talvez os executivos da Embraer enxerguem nuvens negras que pobres mortais não vislumbram. Por outro lado, o discurso da companhia, desde os idos de 11 de setembro de 2001, é o de que fabricantes de jatos regionais podem se beneficiar das crises econômicas. As linhas aéreas tenderiam a optar por aviões de menor porte, e preço, ao renovar as frotas.

Ninguém quer ver a Embraer voar baixo, mas também não se esperava velocidade de cruzeiro logo após o anúncio de iminente turbulência.

A situação é, até certo ponto, análoga à da indústria automotiva. As montadoras anunciaram recorde de vendas no primeiro semestre e queda na produção, depois de demitir à vontade. Quem vende muito e produz menos, lucra mais. Boa parte desse dinheiro foi para as deficitárias matrizes no exterior. O que ficou no Brasil foram os efeitos das demissões preventivas, além das dívidas no bolso do consumidor – que continua a financiar carros a perder de vista.

Acontece que as vendas da indústria automobilística foram infladas pela renúncia fiscal. E a Embraer também se financia com recursos públicos, do BNDES – mais ainda quando os cofres se fecham no mercado internacional. As políticas anticrise foram, e ainda são válidas. Mas, se as empresas precisam do Estado para atravessar a tempestade, não podem deixar a responsabilidade social fora do guarda-chuva. Pelo visto, entre se deixar apanhar desprevenida pela crise e fazer enxugamentos de custos oportunistas há uma distância tênue, que fica cada vez mais visível quando a poeira começa a baixar.