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Economia

"País precisa de ousadas medidas anti-depressão"

por André Barrocal publicado 22/02/2016 04h46
Queda do PIB pode chegar a 8% em dois anos. Para o economista Marcio Pochmann, “ou governo muda ou deixará de ser governo”
Marcelo Camargo / Agência Brasil

Dados divulgados pelo Banco Central (BC) na quinta-feira 18 sugerem que a economia recuou 4% em 2015. No mesmo dia, a OCDE, organismo internacional a reunir nações ricas, previu que o Brasil encolherá 4% este ano. Confirmados os prognósticos, o País passará da recessão à depressão. Pior: num momento de desconfianças sobre uma nova onda de crise global

Ex-presidente do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), o economista Marcio Pochmann diz só enxergar uma saída. A adoção de “medidas anti-depressão ousadas” por parte do governo. Em suma, aumentar os gastos e os investimentos públicos, para tentar estimular a atividade econômica e reverter as expectativas dos agentes econômicos. Sem dinheiro na praça, nada feito. 

Só o Estado, diz Pochmann, “tem capacidade de gasto autônomo”. Em outras palavras, o setor público consegue funcionar planejadamente tendo prejuízo por um tempo, ao contrário das famílias e das empresas. A transformação do déficit público em superávit pode ficar para adiante, quando a economia tiver se normalizado. 

A mesma terapia acaba de ser prescrita aos países mais ricos pela Agência das Nações Unidas para o Comércio e o Desenvolvimento (Unctad). No jornal Valor da quarta-feira 17, o chefe da Macroeconomia da Unctad, Alfredo Calcagno, disse que, se os mais ricos gastarem mais, mesmo aqueles que têm déficit fiscal, ajudariam na recuperação da economia mundial.

De acordo com Calcagno, a recuperação global favoreceria os países emergentes, que escaparam dos piores efeitos da crise financeira internacional eclodida em 2008 mas agora são as vítimas da terceira onda da crise. A segunda onda afetou a Europa em 2011 e 2012, em especial países com dívidas altas, como Espanha, Portugal, Grécia e Itália.

Para Pochmann, já é possível vislumbrar uma quarta onda de crise. Esta nasceria de uma eventual recessão nos Estados Unidos caso o Banco Central de lá siga a elevar o juro. Em dezembro, o BC norte-americano subiu a taxa pela primeira vez desde 2006. Se este aumento prosseguir, talvez tire dinheiro empregado no setor produtivo e canalize-o para aplicações financeiras.

“Não estamos num estado normal do capitalismo”, diz Pochmann, a ver semelhanças com a maior depressão mundial já conhecida, a dos anos 1930 – superada, aliás, com um plano de investimento público adotado nos EUA, o epicentro da depressão. “Nos EUA hoje, o pré-candidato a presidente que é socialista cresceu nas pesquisas fazendo críticas ao sistema financeiro e capitalista.”

A grande depressão dos 1930, diz Pochmann, contribuiu fortemente para mudanças de governos e governantes em ao menos 20 países, Brasil incluído. Teria o mesmo impacto por aqui agora? “Estamos para colher os efeitos mais dramáticos da recessão iniciada no ano passado com a fracassada política de austeridade do [ex-ministro Joaquim] Levy, o aumento do desemprego.”

Em 2015, foram fechadas 1,5 milhões de vagas com carteira assinada. A taxa oficial de desemprego subiu de 4,3% em dezembro de 2014 para 6,9% ao fim de 2015. Uma taxa mais abrangente divulgada pelo IBGE na sexta-feira 19 aponta um desemprego de 9% em novembro passado. No Ministério do Trabalho, acredita-se no fechamento de ao menos mais um milhão de vagas este ano.

“O desemprego vai subir, o caldo político é muito grande, o PSDB tem radicalizado contra o governo, o PT ensaia uma mudança em relação ao governo, talvez até se afaste. O governo não vai ficar imune a isso”, diz Pochmann. “O governo vai ser levado a mudar ou deixará de ser governo. 2016 será um ano que marcará época.”

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