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Os videntes do passado

por André Siqueira — publicado 17/09/2011 15h53, última modificação 17/09/2011 15h53
Os “temores” da inflação perturbam a alma dos agentes do mercado

Em um país que conviveu, há menos de duas décadas, com o fantasma da hiperinflação, todo cuidado com os aumentos de preços é pouco. Só que, nas últimas semanas, o tema ganhou espaço na mídia menos por conta do comportamento dos principais índices, ainda dentro dos níveis esperados pelo Banco Central, do que por razões ideológicas. O chamado “mercado” ainda não engoliu a decisão do Comitê de Política Monetária (Copom), para eles inesperada, de inverter a trajetória da taxa básica de juros, com o anúncio de um corte de meio ponto porcentual no fim de agosto.

O último resultado do IPCA, o índice oficial medido pelo IBGE, apontou uma alta de 0,37% nos preços em agosto. Um porcentual que se presta a diversos exercícios estatísticos. A situação é mais feia no retrovisor: nos últimos 12 meses, a inflação acumula 7,23%, bem acima dos 6,5% estabelecidos como teto no regime de metas, estourado pelo quarto mês consecutivo. Quando se olha para a frente, no entanto, o horizonte se mostra mais limpo: mantido esse ritmo, o IPCA fecharia o ano em alta de 5,7%, ainda acima do centro da meta (4,5% ao ano), mas dentro da margem tolerável de dois pontos porcentuais. Doze meses adiante, convergiria para os 4,5% ao ano.

Nem tanto ao céu nem ao inferno. O índice tradicionalmente acelera até o fim do ano, mas não há razões para imaginar que vá fugir ao controle. Ao acusar- o BC de abandonar o regime de metas de inflação, o mercado deixa de lado uma das regras mais elementares da política monetária, o efeito retardado dos ajustes na taxa básica de juros sobre o mundo real. Ou seja, ao longo de todo o segundo semestre, a atividade econômica estará sob os efeitos do aperto realizado nos primeiros seis meses do ano, quando a Selic foi elevada em 1,75 ponto porcentual. O alívio, embora apontado desde já como uma aposta temerária pelos críticos, só será plenamente percebido a partir do início de 2012.

Em suas explicações para o afrouxamento nos juros, o Copom citou em primeiro lugar a deterioração do cenário internacional. Entre as duas últimas reuniões do comitê, os Estados Unidos tiveram o rating da dívida soberana rebaixado e a crise fiscal europeia ganhou novos e mais preocupantes contornos. Cresceu a percepção de que a recuperação econômica dos países desenvolvidos levará alguns anos para ocorrer. Não é pouca coisa.
“O BC não está errado em manifestar essa preocupação com os efeitos da crise internacional, mas se mexeu muito rápido para os padrões a que estava acostumado”, afirma o coordenador de análises econômicas da Fundação Getulio Vargas, Salomão Quadros. Na quinta-feira 15, o especialista conduziu a divulgação do Índice Geral de Preços-10 (IGP-10), que mede os preços a produtores e consumidores entre os dias 11 do mês anterior e 10 do mês corrente. Após dois meses de variação negativa, o índice voltou a acelerar até o início de setembro, em 0,63%. “Embora tenha sido mais alto, o IGP-10 continua em desaceleração no acumulado de 12 meses, e não há sinais de que vá permanecer em alta.”

A exemplo do IPCA, o IGP-10 foi pressionado pela elevação de preços de produtos agrícolas, que voltaram a subir em agosto. “A diferença é que o IPCA sofre maior influência dos preços dos serviços, que ainda têm espaço para subir, porque a renda da população e o mercado de trabalho seguem aquecidos”, avalia Quadros. Ainda assim, o especialista prevê que a partir de outubro o índice oficial começará a apontar queda em 12 meses, por força da comparação com os mesmos meses de 2010, quando os preços das commodities agrícolas provocaram forte aceleração. “A questão é se a desaceleração será suficiente para evitar que o teto da meta seja superado no ano.”

A gerente do IBGE responsável pelo IPCA, Eulina Nunes, aponta os alimentos e o transporte como os dois maiores culpados pela alta da inflação neste ano, com peso de 40% na elevação do índice até agora. “Esses dois itens representam um custo para outros setores, inclusive o de serviços.” Em agosto, ao menos um dos vilões mudou de lado: os preços relacionados a transportes caíram 0,11% no mês, após subirem 0,46% em julho. Os alimentos, por sua vez, avançaram mais de 6% neste ano, depois de fechar 2010 acima dos 10%.

O economista Fábio Romão, da LCA Consultores, aposta que o IPCA atingirá 6,3% em 2011, abaixo do limite máximo fixado no regime de metas de inflação. Embora acredite que os serviços vão continuar a puxar para cima o índice, ele descarta que esses aumentos possam se espalhar por outros setores. “A inflação de serviços responde à alta de custos, ou seja, olha para o passado, mas depende de um patamar elevado de renda que dê chancela ao repasse de preços para o consumidor.”

Após um ganho real médio de 3,8% em 2010, a LCA projeta que os rendimentos dos trabalhadores vão subir 3,2% neste ano, o que torna difícil conter os preços do setor de serviços. Com a previsão de reajuste do salário mínimo em 7,5%, Romão vê poucas chances de o BC conseguir trazer a inflação para o centro da meta até o fim do próximo ano. E prevê um IPCA de 5,1% em 2012.

Em entrevistas recentes, o presidente do BC, Alexandre Tombini, tem reforçado a intenção de cumprir à risca o regime de metas no ano que vem. Para chegar aos 4,5% de inflação, a instituição se apoia em um crescimento menor do PIB, cuja previsão de 4% deverá ser revista, e em um impacto da crise internacional equivalente a um quarto do provocado pela turbulência financeira do fim de 2008.

Tombini inclui nesse cenário o esforço fiscal do governo, que anunciou um corte adicional de 10 bilhões de reais nos gastos previstos para este ano, além dos 50 bilhões prometidos no primeiro trimestre. E, aos mais incrédulos, reitera que o governo cumpriu até julho 80% do superávit de 117 bilhões de reais proposto para 2011. Segundo o presidente do BC, neste trimestre a inflação -acumulada em 12 meses atingirá um pico-, para despencar cerca de 2 pontos porcentuais até maio do ano que vem.

Ao optar pelo corte de juros, o Copom também levou em consideração os efeitos das medidas adotadas para frear o ritmo de expansão do crédito, entre o fim de 2010 e o início deste ano. Vistas com descrédito por parte dos analistas, que enfrentaram dificuldades para inseri-las em seus modelos econométricos de previsão, as restrições aos empréstimos cumpriram a função de impedir bolhas e ajudaram a segurar a inflação de bens financiáveis, como os automóveis. O resto do trabalho de contenção ficou a cargo dos próprios bancos, que viram a inadimplência subir nos últimos meses e se tornaram mais rigorosos na concessão de recursos.

Mais sensível a uma política monetária restritiva, o setor industrial é o primeiro a tornar visíveis os efeitos do esforço anti-inflacionário do primeiro semestre. Embora oficialmente não seja apontado como causa, e sim como efeito da redução dos juros, o socorro à indústria estaria entre os fatores a motivar o fim do aperto. Antes mesmo de um alívio nas taxas cobradas pelos bancos, a decisão do Copom deu início a um processo, de extensão ainda incerta, de desvalorização do real, o que pode favorecer as exportações. A cotação do dólar chegou a subir por dez dias consecutivos sob o impacto do anúncio da queda da Selic.

Embora considere muito cedo para avaliar possíveis impactos da alta da cotação do dólar sobre a inflação, Quadros, da FGV, considera pouco provável que haja repasses significativos sobre os preços dos produtos importados no curto prazo, sobretudo se a crise internacional afetar o comércio internacional. “Ninguém vai querer abrir mão da fatia conquistada no mercado brasileiro.”

A desaceleração nas fábricas é uma das explicações para o esfriamento do mercado de trabalho brasileiro. Embora a preparação para o fim do ano tenha permitido que o nível de contratações voltasse a subir em agosto, com 190 mil postos abertos, o movimento foi o mais fraco para o mês nos últimos três anos. Em São Paulo, o setor fechou 13 mil vagas entre julho e agosto, o pior resultado para o período desde 2006.

“Em 2008, o uso da capacidade da indústria de transformação foi de 87%, mas, neste ano, em decorrência da crise internacional, tende a ficar abaixo de 83%”, afirma o professor da FGV Ernesto Lozardo. “O segmento de transformação responde por 60% do setor. Portanto, qualquer erro da política macroeconômica poderá causar danos irreparáveis à indústria.”

O economista defende que o BC tenha como objetivos garantir, além de uma inflação dentro dos limites da meta, um crescimento do PIB superior a 3% nos próximos anos. E vê contrassenso na atitude do Banco Central Europeu, que se mantém irredutível no combate à alta de preços enquanto a região deveria combater a queda na atividade econômica e a alta do desemprego. “Na era Tombini, o mundo financeiro ficou mais incerto, mal estruturado, com elevado risco operacional e, por isso, exigirá do BC soluções pragmáticas e emergenciais, que possibilitem a manutenção do crescimento, do emprego e do poder aquisitivo das famílias.” •