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Economia

Análise / Rui Daher

Os termômetros apontam a febre. Mas eles estão bem regulados?

por Rui Daher publicado 28/03/2014 10h47
Por onde passamos, vemos um país prosperando. Algo, porém, é comum nas conversas e atitudes: todo o bem-estar acontece apesar do destrambelhamento do governo

Estão mexendo com a Federação de Corporações. A tradição é manejá-la e avaliá-la por estatísticas extraídas de organizações que empregam especialistas e scholars. Assim é em todo o planeta.

Embora usando ferramentas moderníssimas, sofisticadas e mais precisas, é inevitável não ver nisso a imagem de um senhor lançando créditos e débitos, somando ativos e passivos, e concluindo sobre a saúde de um organismo econômico. O mesmo que fazem com humanos os ultrassons, tomografias e ressonâncias magnéticas.

Por terem reduzido os custos das Redações e com repórteres, é o que resta às folhas e telas cotidianas divulgarem quando querem ou precisam dizer que a economia vai mal. No máximo, pedem a ajuda de analistas baba-ovos de planilhas econométricas.

Aí tudo piora. Com raras exceções, eles vêm a campo para dar balão em expectativas que não atendam aos interesses financeiros e políticos próprios ou de seus patrões.

As melhores cabeças do pensamento econômico, no entanto, muito por já terem provado ciclos os mais diversos, veem como componentes fundamentais para acertos conclusivos, aspectos intangíveis, captados por faros capazes de ir além das planilhas.

Certo cheiro que vem das ruas, comportamentos balconistas, o que se fala nos táxis, botecos, ou saguões de aeroportos e rodoviárias, inclusive em salas VIP.

Muitas vezes pequenas noticias, lá no rodapé, nacionais ou internacionais, podem melhor definir uma tendência do que dois dias de enfadonhos workshops.

Tenho a impressão de que esse faro é conquistado por muita literatura, teatro, música, cinema, antropologia social, enfim, por algo que se costumava chamar cultura geral e que o descaso contemporâneo com as ciências humanas fez negligenciar.

Daí minha dúvida. De leigo burro, muitos dirão – ah, esses meus considerados comentaristas e suas frases voadoras.

Estarão bem regulados os termômetros que jogam em nossas fuças febres tão altas? Arrisco, embora todos analistas, se não o são, pelo menos, se acham melhor preparados do que este verificador de letras e produtos que saem da terra.

A minha incerteza cresce quando perguntam por mim e peço que respondam “diz que fui por aí”, como cantava Zé Kéti.

O que sinto, vejo e ouço não confere com os números. Muitos me dizem sentir o mesmo. No meu caso, mais provável ser daquelas rusgas de baixinhos que não se acomodam como deveriam fazê-lo. Sobram-lhes surras e cicatrizes.

Nas metrópoles como nas menores cidades, nos comércios, portas de fábricas, em multidões que acorrem aos péssimos transportes coletivos, aeroportos, estradas, amados botecos, o frisson corre a taxa maior do que as aferições divulgadas.

O que será feito de tantas construções de armazéns nas periferias e cidades do interior, e dos luxuosos edifícios comerciais e residenciais por todos os lugares? E dos projetos que concorro para construção de fábricas de insumos e produtos agrícolas?

O que sei é que quando passo por eles, depois de algum tempo, todos estão ocupados e outros sendo erguidos.

Nos restaurantes onde paro para comer, sejam eles a quilo ou a ouro, percebo-os lotados. O mesmo nas lanchonetes de estradas. E não falo só dos Sul-Sudeste maravilhas. Fora dos eixos do “Cansei”, tal percepção é ainda maior.

Tudo isso é corroborado por pessoas amigas ou não com quem converso.

Nesta semana, em Bom Jesus dos Perdões (SP), um caminhoneiro contou que está formando dois filhos em medicina; em Piedade (SP), o comércio lotado; no escritório, uma funcionária pede para deixar a empresa para cursar engenharia florestal; a mãe de uma amiga anuncia seu quinto cruzeiro marítimo; garçons se despedem para voltar ao Nordeste e abrirem negócios próprios; alto executivo de banco, com quem almoço, está em sua terceira BMW – uma serve à babá; consultor diz que sua empresa não pode aceitar novos projetos, tantos são os estrangeiros querendo investir no Brasil. Mentem?

Algo, porém, é comum a todas essas conversas e atitudes. Todo o bem-estar acontece apesar do destrambelhamento do governo.

Quando se muda o viés, chegam os gastos com a Copa, Petrobras, racionamento de água, apagão, Nicolás Maduro, insegurança versus direitos humanos, inflação dos alimentos.

Sei não, mas quem sabe muitos estão bem e felizes, mas gostariam de ter um governo à sua feição. Bem verdade que seriam milhões de governos.

Inflação de Alimentos. Recuso-me a comentar. Já seria tempo de entenderem essa gangorra sazonal ou climática. Todo o ano, nesta época, a mesma história. Assim não dá, como se nunca antes neste país, como diriam dois ex-presidentes.

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