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Os rumos da saúde e da segurança alimentar no Brasil

por Rui Daher publicado 19/10/2015 10h29
Há diversos estudos em curso: desde acrescentar micronutrientes em alimentos para melhorar nossa saúde até a análise de formas de conter o desperdício
Arnaldo Alves/ ANPr
Alimentos orgânicos

A produção de alimentos orgânicos é importante, mas ainda enfrenta complicações no Brasil

Três motivos me fazem interromper o outubro sabático desta coluna em CartaCapital.

O primeiro, justo e feliz, revelar que em intensas andanças pelo País encontro a agricultura em plantio satisfatório e promissor. A relação de preços e custos, gangorra eterna e cíclica conforme a cultura “bola da vez”, ainda será favorável aos produtores. Às folhas e telas cotidianas restará agourar o clima em determinadas regiões e assim cunhar para nosso dia não nascer feliz.

Segundo, mais simples e pessoal, quem sabe um novo texto faça sair da minha página comentário único que ali permanece, há quase 20 dias, sem resposta ou manifestação contrária. Publicado, uma excrescência covarde e não fundamentada lá ficou como última palavra.

Meu esforço de domingo, neste mês trabalhoso para um agro caixeiro-viajante, no entanto, deve-se a fato mais importante e auspicioso, que merece relato.

Desde 1981, nos dias 16 de outubro, se comemora o Dia Mundial da Alimentação. Coincide com a data de criação da FAO, 70 anos atrás.

Fui convidado para uma mesa-redonda, em Campinas, na Faculdade de Engenharia de Alimentos da UNICAMP: “Da produção ao consumo de alimentos: desafios e tendências”. Assunto dos mais sérios e de alta reflexão.

Participaram também: o diretor da instituição, Dr. Antônio Meirelles; a Dra. Marília Nutti, pesquisadora da Embrapa; Ignez Novaes de Goes, representando a Associação Brasileira das Indústrias da Alimentação (ABIA); o Dr. William Latorre, Diretor Científico de várias instituições; e a Dra. Julicristie de Oliveira, professora da FEA/UNICAMP, especialista em saúde pública.

Tentei provocar e confundir os simpáticos cientistas, professores e especialistas que lá estavam, usando a “nova ordem econômica mundial”. Posso ter conseguido em parte. Pretendo expor o que penso em próxima coluna.

Essa gente trabalha, sô! Estudam, sabem muito, têm convicções protetivas sérias para as alimentação e saúde brasileiras. Pesquisam aqui, lá fora, confrontam conclusões. Com eles aprendi um monte de coisas. O assunto é polêmico, multidisciplinar, multifacetado.

Os perrengues começam dentro das fazendas, aprofundam-se nas legislações, visitam laboratórios, complicam-se até em hortas urbanas orgânicas, e a coisa pega ainda mais quando chega aos aditivos e alimentos processados.

Queixam-se dos leigos que, em folhas e telas cotidianas, falam em “ultra processados”, sem saber muito bem do que se trata.

Recomendo-lhes calma: se ultra processar for mais caro do que processar o negócio não irá para a frente. Caso contrário, sai de baixo. Hoje em dia, os temas estão sempre pautados pelos resultados econômicos, mesmo quando benéficos às populações.

Da forma que a pobreza cresce no planeta, vastos contingentes humanos se limitarão a colher os alimentos diretamente do solo e comê-los com folhas, caules, bichos e ainda alguns torrõezinhos de terra grudados nas raízes. A edição especial (outubro 2014, em inglês) da National Geographic, “Food”, afirma que um quarto da população mundial come insetos regularmente.

Das apresentações, a Marília (vou logo pegando intimidade) coordena a excelente Rede BioFORT, da Embrapa. Saúde na mesa do brasileiro. Biofortificar é pegar batata-doce, feijão, feijão-caupi, mandioca e milho, alimentos da cultura brasileira, e a eles acrescentar micronutrientes controlados (ferro, zinco, vitamina A) para maior sustança.

O trabalho vem sendo realizado em regiões com os mais baixos Índices de Desenvolvimento Humano (IDH) do país. Entre 2012 e 2014, mais de 2.500 famílias puderam driblar a chamada “fome oculta”.

A Ignez confirmou ser necessária a preocupação com os níveis de sódio hoje consumidos, mas questionou o nível de exigências na rotulação dos produtos industrializados, quando 77% do sódio consumido saem dos próprios preparos domiciliares. Sugeriu mais educação e conscientização.

O Dr. William Latorre, embora reconhecendo avanços em outras áreas, como a medicina, remeteu o aumento da longevidade à melhor qualidade dos alimentos hoje consumidos.

Citou um exemplo que pouco ouço, mas me incomoda muito. As enormes porções servidas atualmente. Na minha opinião, fator monetário de péssimas consequências. Vender e cobrar mais, aumentar o desperdício.  

A doutora Julicristie, especialista em saúde pública, mexe em feridas sociais. Em diversos pontos, contestou os demais participantes. Vê o mundo sem óculos cor-de-rosa e me cativou ao citar duas obras seminais para o tema: “Geografia da Fome”, de Josué de Castro; e “Parceiros do Rio Bonito”, de Antônio Cândido.

Finalmente, o diretor da FEA, Antônio Meirelles, fez uma excelente explanação dos caminhos atuais da engenharia de alimentos e o quanto foi importante a UNICAMP ter sido pioneira na criação do curso.

Pensa que inovar não pode ser considerado negativo. Para o bem, muitas crendices errôneas foram abandonadas, a saúde e a segurança alimentares prosperaram, e não se pode parar saudosos de passados supostamente melhores.

De forma geral, o que todos lá pediram desaguava na palavra equilíbrio, justamente o que o planeta procura e não acha.

Na próxima coluna, volto ao assunto. Se não mudar de ideia.

Nota: Bom senso e agressões, quando não disponíveis pelo site, podem ser enviadas a [email protected]

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